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PalavrArdente

SILVES, outrora capital do Algarve, hoje, capital da Palavra Ardente 

quinta-feira, outubro 27, 2005

10:38 da tarde - no esquecimento....

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10:25 da tarde - Cantiga para não morrer...

Quando você se for embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
Ferreira Gullar in De Dentro da Noite Veloz (1962-1975)

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segunda-feira, setembro 05, 2005

7:53 da tarde - "Oferendas para Kianda"



" Oferendas para a Kianda ", acrílico s/ tela, 100x120 cm, 1999, de Jorge Gümbe

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5:38 da tarde - Jorge Gümbe





Jorge Gümbe
nasceu em Dembos, República de Angola, em 1959. Estudou Artes Visuais, na escola Industrial de Luanda, entre 1972 e 1976.
Em 1978 frequentou o Curso de Instrutores de Artes Plásticas, na Secretaria de Estado da Cultura.


Graduou-se em Pintura e Desenho, na escola Nacional de Arte, em Havana, Cuba, no ano de 1981.
Frequentou um estágio de Pedagogia de Arte, Cor e Forma, na KONSTFACKSKOLAN (Instituto Superior de Arte de Estocolmo), Suécia, 1984, e o Curso Internacional sobre Política Cultural e Cultura de Massas no "Institui Für Weiterbildung der DDR" (Instituto de Formação e Qualificação de Dirigentes do Ministério da Cultura da República Democrática Alemã), Berlim, Alemanha, 1987.


Entre 1985 e 1986 foi Secretário Geral da União Nacional de Artistas Plásticos. Foi Director da Escola Média de Artes Plásticas do Instituto Nacional de Formação Artística e Cultural, da Secretaria de Estado da Cultura e Professor de Desenho Básico Tridimensional e Pintura. Leccionou cursos nocturnos de Desenho e Pintura na União Nacional de Artistas Plásticos.

Membro Fundador da União Nacional de Artistas Plásticos — UNAP.Foi convidado, em 1986, pela Autoridade Alemã de Intercâmbio Académico da República Federal da Alemanha (DAAD) para visitar vários museus, galerias e ter contactos com artistas em, Bona, Colónia, Düsseldorf, Berlim Ocidental, Munique, Aach, Estugarda e Frankfurt e em 1998 pela União Federal de Artistas Jugoslavos, TITOGRADO, onde executa várias obras pictóricas nos seus ateliers.

Decorou as novas instalações do Consulados Geral da República de Angola, em Ponta Negra - República Popular do Congo,1985.

Realizou visitas de estudos a diversos países, tais como: Roménia, Itália, Bulgária, Checoslováquia, União Soviética, Brasil, Congo, Zaire e Senegal.


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5:17 da tarde - Meus Julhos

1. Sou julho,
estou explicado só pelo sol

Meu erro
é procurar um território
apto a nascer

A única geografia
que me aceita é a poesia

Como a chuva
que repousa entre nuvem e terra
me escrevo
na ausência de todas as línguas

2. Me esqueço-me:
só me falto eu
para ficar todo só

3. Antes de nascer
já eu tinha envelhecido tudo

Por isso,
não me espanta
o casal de pedras
nem a árvore que engravidou

Minha doença,
felizmente,
é muito miraculável.

Mia Couto
julho de 1989

in Raiz de Orvalho e Outros Poemas
editorial Caminho,p 67

*Mia Couto nasceu na Beira, Moçambique, em 1955. Foi director da Agência de Informação de Moçambique, da revista Tempo e do jornal Notícias de Maputo.Tornou-se nestes últimos anos um dos ficcionistas mais conhecidos das literaturas de língua portuguesa. O seu trabalho sobre a língua permite-lhe obter uma grande expressividade, por meio da qual comunica aos leitores todo o drama da vida em Moçambique após a independência. Os seus livros estão traduzidos nomeadamente em francês, inglês, alemão, italiano e espanhol.

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4:01 da tarde - Sotaque Da Terra

Estas pedras
sonham ser casa

sei
porque falo
a língua do chão

nascida
na véspera de mim
minha voz
ficou cativa do mundo,
pegada nas areias do Índico

agora,
ouço em mim
o sotaque da terra

e choro
com as pedras
a demora de subirem ao sol

Mia Couto
Junho 1986

in Raiz de Orvalho e Outros Poemas

editorial Caminho
p.63

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3:46 da tarde - Protesto Contra A Lentidão das Fontes





Vazaram-se as luas da savana
ossadas pálidas emigraram
dos corpos para o chão
ajoelharam-se os bois
exaustos de carregarem o sol

Escureceram as horas
nomeadas pela fome
extinguiu-se o sangue da terra
esvaiu-se o leite
num coágulo de saudade

Restam troncos
sustentos gemidos
mães oblíquas sonhando migalhas
mendigando crenças
para salvar os filhos já quase terrestres

Quem protege estes meninos
feitos da chuva que não veio?
Que casa lhes havemos de dar?

Amanhã
quando se entornarem os cântaros do céu
as aves voltarão a roçar a lua
e as cigarras de novo espalharão o canto

Mas dos meninos
talhados a golpe de poeira
quantos restarão
para saudar o amanhecer dos frutos?


Mia Couto

Junho de 1984

in Raiz de Orvalho e Outros Poemas
editorial Caminho
p.62

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3:00 da tarde - O primeiro astronauta



O primeiro astronauta
devia ter sido
Silvestre José Nhamposse.

Só ele
teria sacudido os pés
à entrada da Lua

Só ele
teria pedido
com suave delicadeza:
-dá licença?



Mia Couto

Setembro de 1983

Raiz de Orvalho
e Outros Poemas
editorial Caminho
p.82

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segunda-feira, agosto 29, 2005

11:56 da manhã - Herança Surrealista.




Herberto Helder ( 1930/) ,

é uma das figuras mais importantes do experimentalismo poético.
Alia nos seus poemas uma herança surrealista (automatismo como meio da criação poética) e uma concepção pessoal da poesia como terreno fechado de desbravação de palavras e ideias recorrentes. O seu estilo é gangórico e saturado de metáforas.

Estreia-se com O Amor em Visita (1958) e A Colher na Boca (1961), vindo ainda a publicar o livro de contos Os Passos em volta (1963), a Colectânea de Poesia Toda (1973), Photomaton e Vox (1979), onde faz o cruzamento de géneros, e A Cabeça entre Mãos (1982) , Prémio de poesia de 1983 do Pen Club Português, entre outros.

IN Didacta, FGP-1996


(http://www.triplov.com/herberto_helder/)
(
http://omni.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/herberto.helder.html)
(http://www.iplb.pt/pls/diplb/!get_page?

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segunda-feira, agosto 15, 2005

11:37 da manhã - As Musas Cegas







I
Bruxelas, um mês. De pé sob as luzes encantadas.
Em noite assim eu extinguiria minha alma
cantando humildemente. Fecharia os olhos
sob os anéis dos astros, e entre os violinos
e os fortes poços da noite descobriria
a ardente ideia da minha vida.
Em noites assim amaria o fogo
da minha idade. Cantaria como um louco este grande
silêncio do mundo, vendo queimarem-se nas trevas
as vísceras tensas e os ossos e as flores dos nervos
e a cândida e ligeira arquitectura
de uma vida.




Bruxelas com as traves da minha cabeça
e uma grinalda de carvões em torno dos testículos
de um homem
bêbado da sua idade. Cantaria com estes testículos
negros, as lágrimas, o coração ao meio do nevoeiro
derramando o seu baixo e aéreo sangue,
a sua dor, o lírico
fervor, o fogo de porta entre os símbolos nocturnos.

Era tão pura a ideia de que o tempo começava
depois do verde e fértil e exaltado
mês da carne. Vergada sobre o livro onde o meu rosto
ardia,
a vida esperava com sua torres
vibrantes, seus grandes lagos
límpidos. E eu adormecia
e sonhava um homem em voz alta, um vidro
incandescente, uma fina flor
vermelha colocada sobre a mesa. Era tão violenta
a ideia de cantar sem fim,
até que voz consumisse esta garganta sombreada
de estreitos vasos puros.
- Cantar fixa e fria e intensamente
sobre a minha rasa
luminosa vida, ou sobre os campos transparentes e sombrios
de bruxelas do mundo.

II

Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada
pelas vozes.
E enquanto dorme o leite, a minha casa
pousa no silêncio e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes cai a cabeça -
e as palavras nascem.
- Límpidas e amargas.

Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E as estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado
de seivas, para a noite que estremece
fundamente.

Melancolia com sua forma severa e arguta,
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando
com a primeira música de água.
Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.

Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras
antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera
de minúsculas folhas eternas como uma árvore.
Degrau a degrau devorei a alegria -
eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas
desvairadas, entre jarros transbordando
húmidos astros.

Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.
Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe
procuro no meu silêncio uma outra forma
dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é
a casa ligeira colocada num espaço
de profundo fogo.
E apagaram-se as luzes.

- Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente
para levantar as mãos? onde te pões sobre a minha palavra,
espécie de boca recolhida no começo?
E é tão certo o dia que se elabora.
Então eu beijo, de grau a degrau, a escadaria daquele corpo.
E não chames mais por mim,
pensamento agachado nas ogivas da noite.

É primavera. Arde além rodeada pelo sal,
por inúmeras laranjas.
Hoje descubro as grandes razões da loucura,
os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.
Há lugares onde esperar a primavera
como tendo na alma o corpo todo nu.
Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego
que principia. - É preciso cantar como se alguém
soubesse como cantar.

III

Eu teria amado esse destino imóvel, esse frio
poço dos sons. Ela não dormia, estava
a meu lado, era uma gruta onde a música
um instante se torna imensa.
Durante um mês viveu em mim, e não dormia. Foi o mês
das musas, a penumbra da sua vida
estava coberta de ervas puras.
Não dormia. Durante
o espantoso mês das musas, eu despertava como um espelho
onde as brasas da cabeça principiam a girar.

Estava iluminada por dentro, e a noite ia e vinha
sobre os arcos e os tanques e as frestas.
Eu cantava junto a esse sonâmbulo instrumento,
eu era profundo e fecundo. O sangue
passava pelos arbustos do corpo e os pensamentos
ardiam em mim, nessa monstruosa
noite da criação.

Sinto que tocaria esse intenso violino, e a vida
mudaria, as grandes estações do ano passariam devagar
na minha confusão. Eu era um homem
e tinha na boca o ofício de sorrir
o fluxo encantado
das imagens. E tinha palavras que um homem
tem para acender, como fogueiras,
nas margens cantantes e frias das águas
do mundo.

Vejo a minha vida agitada, as pequenas folhas
do rosto, minha dor e idade
de homem,
debruçadas sobre esse objecto misterioso e triste,
e poderoso e vazio
como uma guitarra, uma coluna de obscuridade
que dormia, que não podia jamais dormir
entre uma onda que vem do céu e da terra e uma noite
que iria e viria sobre a paisagem
de arcos e pontes e torres e poços tenebrosos
e ocos.

Às vezes eu levantava um braço que deixava arder
ou pensava como era forte
a torrente do meu silêncio. Pensava
como poderia desfazer-se a carne sem que eu
gritasse. A minha voz era esplêndida.
Os mortos poderiam erguer os corpos
submersos na grande ideia
universal, poderiam ouvia a minha voz
tão límpida de terrível
alegria.

A meu lado aquele ser levitava, e por ele passavam
as aves, os montes atingiam
as corolas celestes, nunca deixavam correr
as águas que atravessam os povos mais puros do mundo.

Era tenebroso e doce que a loucura me viesse
deste lugar, que fosse uma árvore sustentando
a minha idade.

Chegava um dia em que ela devia ser obscura,
e o meu coração ressoava. Minha dor de homem
de novo se inclinava sobre as formas mudas.
Porque a terra trabalhava para acender
aquela cidade, porque ela mesma cantaria então,
iluminada e humilde
debaixo da noite rolante, da estupenda noite
inspiradora. Mas somente para mim
o vento circulava com seus archotes
rápidos rápidos.
Minha cabeça estremecia contra a almofada
de fogo, e o sangue despedaçava as portas,
e ao alto os telhados transparentes incendiavam-se
batidos pelos raios.

Sabia agora
como havia razão no oculto
movimento da fantasia, como essa força
chegava de nada e era força no próprio e puro enigma
da minha vida. Porque a obra era então -
mais que o mundo e as fontes e os leitos
dos poderes -
eu, um homem disposto sobre si
como a luz se dispõe sobre a luz
e as palavras são em si mesmas dispostas
no renovo das palavras.

Sobre a sombra de um mês confuso e rápido,
eu era um homem -
e um homem beija a sua própria boca.

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11:14 da manhã -







IV

Mulher, casa e gato.
Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e na minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que vou ser
são minuto a minuto mais concretos.



A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontram
palavras.
Eu próprio caio na mulher, o gato
adormece na palavra, e a mulher toma
a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.

Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.

Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo, com o amor do amor,
não só a palavra mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.

No mundo tão concreto.


V


Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre,
com suas lâmpadas, todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
- E nós estamos dentro, subtis, e tensos na música.

Esta linguagem era o disposto verão das musas,
o meu único verão.
A profundidade das águas onde uma mulher
mergulha os dedos, e morre.
Onde ela ressuscita indefinidamente.
- Porque uma mulher toma-me
em suas mãos livres e faz de mim
um dardo que atira.
- Sou amado,
multiplicado, difundido. Estou secreto, secreto -
e doado às coisas mínimas.

Na treva de uma carne batida como um búzio
pelas cítaras, sou uma onda.
Escorre minha vida imemorial pelos meandros
cegos. Sou esperado contra essas veias soturnas, no meio
dos ossos quentes. Dizem o meu nome: Torre.
E de repente eu sou uma torre queimada
pelos relâmpagos. Dizem: ele é uma palavra.
E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra.
- Porque me amam até se despedaçarem todas as portas,
e por detrás de tudo, num lugar muito puro,
todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio.

Essa mulher cercou-me com as duas mãos.
Vou entrando no seu tempo com essa cor de sangue,
acendo-lhe as falangetas,
faço um ruído tombado na harmonia das vísceras.
Seu rosto indica que vou brilhar perpetuamente.
Sou eterno, amado, análogo.
Destruo as coisas.

Toda a água descendo é fria, fria.
Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes
sóis que se quebram entre os dedos,
as pedras caídas sobre as partes mais trémulas
da carne,
tudo o que húmido, e quente, e fecundo,
e terrivelmente belo
- não é nada que se diga com um nome.
Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo.

E eu, que levo uma cegueira completa e perfeita, acendo
lírio a lírio todo o sangue interior,
e a vida que se toca de uma escoada
recordação.

Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito
nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado.
- E é uma pedra celeste.

Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me, multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.


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10:52 da manhã -






VI

É preciso falar baixo no sítio da primavera, junto
à terra nocturna. Junto à terra transfigurada.
Tudo ouve as minhas palavras talvez irremediáveis..
Infatigável perfume se acrescenta nos jacintos, fogo
sem fim circunda suas raízes leves.
É preciso não acordar do seu ofício a luz que inclina
os meus espinhos frios, a lua que inclina
meu sangue ligado e o sangue da terra nocturna.



Agora a primavera trabalha nas galerias mais antigas,
bate os seus martelos contra um milhão de estrelas.
É uma coisa estupenda a primavera que trabalha
nas caveiras dos cavalos enterrados.
E os cavalos ressuscitam pela noite adiante.
Inspiro-me na primavera com suas grutas de água
atenta, e amo a loucura -
a cabeça gelada sobre a corrente pura do terror.


Tenho medo de erguer a voz mais alto
que o meu coração, onde uma candeia
concentra um grande silêncio.
A primavera é algo prodigioso para o meu desbarato.
Que a tristeza me ajude, que me ajudem
os dentes da minha boca, os dedos das minhas mãos,
todos os mortos, todos os que amam
entre sangue no mundo, entre as águas das noites eternas.

Sinto os ossos ascenderem às cobras da cabeça -
e a obra está nas mãos.
Terra, terra preenchida. Enquanto os outros dormem,
fundo-me no verbo interior da primavera
como o vermelho se funde na flor futura.
Tu cantavas, sangue, a torrente translúcida da morte.
Cantavas o que já se não quebra com o uso
das vozes. Porque tu eras a minha
água salgada.

Fecho os olhos para ver como as acácias se iluminam
e a rutilação ascende pelas veias.
Tomo entre meus dedos a soturna amplidão dos mortos.
Primavera, como cresces.

Desespero ou alegria, como correm
nos membros reaparecidos.
Dizer devagar na humidade da carne, evocar
tuas colinas de sal, mistério.
Tudo em volta da primavera e da noite
com uma porta no coração para passar
num tremendo silêncio.

Ressuscitar uma vez com a cara extrema
junto a líquenes inocentes.
Entre os meses saber de um só que pede
a mudez aterradora.
A primavera cresce num núcleo de ideias, as cabras
evaporam-se, reaparecem em espírito
mastigando giestas. Primavera é uma palavra
numa língua demasiado estrangeira.
Uma coisa enorme, sem música.

Falo tão devagar que mal distingo
a noite sobre a terra
da minha garganta onde os animais passam
lentamente inspirados.
Só encosto a testa ao oculto fogo dos nomes,
e o sangue alimenta a loucura
devagar, devagar - como quem ressuscita.

VII

Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar.
Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois,
ressoando violentamente pelos corredores
e paredes e pátios desta própria casa
que eu sou. Que eu serei até não sei quando.
É uma doce pancada à porta, alguma coisa
que desfaz e refaz um homem. Uma pancada
breve, breve -
e eu estremeço como um archote. Eu diria
que cantam, depois de baterem, que a noite
se move um pouco para a frente, para a eternidade.
Eu diria que sangra um ponto secreto
do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente
ou se queima como uma face. Escuta:
que a noite vagarosamente se queima
como a minha face.

Essa criança tem boca, há tantas finas raízes
que sobem do meu sangue. Um novo instrumento,
uma taça situou-se na terra, e há tantas
finas raízes que sobem do meu sangue. E uma candeia,
uma flor, uma pequena lira,
podem erguer-se de um rio de sangue, sobre o mundo -
um novo instrumento rodeado de campânulas
inclinadas, por ligeiras pedras húmidas,
pelos animais que movem no seu calmo halo de fogo
as grandes cabeças sonhadoras.

Essa criança dorme sobre os meus lagos de treva.
Pensei algumas palavras para oferecer-lhe. Esqueço-me
tantas vezes dos mistérios dessa porta.
Porque então é muito estreita com os seus espelhos
detrás, com o vestíbulo frio.
Mas é tão belo uma criança ainda enevoada,
uma criança que ascende com uma
grande música
desta rede de ossos, deste espinho de sexo,
da confusa pungência, escuta: da pungente
confusão
de um homem restrito com a sua vida tão lenta.

Essa criança é uma coisa que está nos meus dedos;
às vezes debruço-me sobre as cisternas, e as vertigens,
e as virilhas em chama.
É a minha vida. Mas essa criança
é tão brusca, tão brusca, ela destrói e aumenta
o meu coração.
No outono eu olhava as águas lentas,
ou as pistas deixadas na neve
de fevereiro, ou a cor feroz,
ou a arcada do céu com um silêncio completo.
Misturava-se o vinho dentro de mim, misturava-se
a ciência da minha carne
atónita. Escuta: cada vez a minha vida
é mais hermética.
Essa criança tem os pés na minha boca
dolorosa.

Se ela um dia adormecer com cerejas junto à respiração
pequena, e sonhar
estes imensos arcos que os séculos vão colocando
sob os astros - e se de tudo
a sua cabeça estremecer como numa loucura,
com altos picos em volta, com enormes faróis
acendendo e apagando - escuta: se essa criança
imaginar, e todas as cordas se juntarem tensamente
para que ela invente o seu próprio rio
sem nome -
será ainda que do meu sangue se erguem finas
raízes, e o tenebroso tumulto das minhas sombras
está no fundo, no fundo da sua ingénua vida,
da sua terrível vida sem remédio.
Se ela morrer, escuta, será que a minha boca
diz lá em baixo
essas majestosas e violentas palavras
dos poemas.

Essa criança que aperta as veias que iluminam
a minha garganta. Ela dorme. Escuta:
a sua vida estala como uma brasa, a sua vida
deslumbrante estala e aumenta.
Se um dia os archotes incendiarem essa boca,
e as faúlhas cercarem
o silêncio tremendo dessa pequena boca, escuta:

a minha boca, lá em baixo, está coberta de fogo.



VIII
Ignoro quem dorme, a minha boca ressoa.

Despedir-se dos meses é uma nova tarefa, um ofício inquieto.
Às vezes na noite veja as casas pequenas, as rosas que se voltam
para o subterrâneo e subtilruído da seiva. Penso nas mulheres
de pálpebras descidas, no seu espírito
expansivo que repousa. Nas crianças que enlouquecem
silenciosamente dentro da sua inocência.
Às vezes na noite ainda jovem, mas
que principia a engolfar-se no seu doce
hermetismo - tantas vezes
penso na chuva, e nos corpos, e nas pontes onde
se encontra alguém
com as cegas mãos escorrendo para o fundo
o sangue de uma imensa
inspiração. Eu sei: despedir-se dos meses
é um ofício inquieto.

As luzes, as mesas, as armas antigas, os jardins debruçados
nas violas paradas. Não sei o que há
tão veloz e tão firme
na base de um homem. Às vezes vejo
que é uma invencível doçura, um espanto
colorido em redor de uma casa, uma raiva
generosa nas mãos iluminadas.
Mas no fundo, no fundo,
é a boca desmanchada que sangra devagar.
Ignoro quem dorme, é um ofício novo e louco,
uma tarefa perene do coração
sobre quanto se ignora. Minha boca ressoa.
Os próprios meses ressoam com espelhos ardentes,
como telhados, cúpulas, livros,
como objectos ardentes.

Sobre um rosto eu diria: é um rosto? Sobre
uma vida eu perguntaria se era
a força de uma vida. Porque os ossos e as veias
vão de corpo para corpo,
e despedir-se de tudo é um ofício inquieto.
Tudo isto é uma musa, um poder, uma pungente
sabedoria. As rosas que há
nas palavras, as palavras que estão
no alto como fungos luminosos, as palavras
que gravitam em baixo
no instável momento que avança e recua
ao pé da eternidade - as mãos
rodeando uma lâmpada, essas mãos
docemente cobertas de sangue - tudo isso
disposto para a inquietação de um ofício.

Eu sei: as vigas da cabeça estremecem um pouco.
Partem-se, aqui e ali,
alguns arcos secundários. Uma vida pode tremer
do princípio ao fim. É instantâneo,
eterno. Mas é o homem
que recebe a inspiração violenta.
Ignore quem dorme, a minha boca está no fundo,
móvel, coberta de sangue, a minha
boca ressoa como as cavernas de um barco,
a minha boca da minha vida
é um ofício. O meu ofício de despedir-me
um pouco engolfado na loucura.
A minha tarefa inquieta de pôr a vida
na sua oculta loucura.

Tudo isto canta na galeria dos meses
ornados de delgados mastros
acesos. E despedir-se dia a dia
desta torrente de pequenas imagens alucinadas e mansas
é um mester ainda jovem,
algo que se aprende lentamente com as mãos
e a garganta e a testa
e o marulho das águas que correm profundamente
em lugares inacessíveis,
sem nomes nem janelas por onde surja a cabeça
coroada de violinos.
É um violento ofício, e no fundo desse ofício
violento e puro,
a boca está coberta de um perturbado sangue
masculino.



HERBERTO HELDER
in OU O POEMA CONTÍNUO,
Setembro de 2004,
Assírio & Alvim.


Fotografias : Rui Nabais
Rui Vale de Sousa
Mario Pereira



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sábado, agosto 13, 2005

11:42 da tarde -




A COAT


I made my song a coat
Covered with embroideries
Out of old mythologies
From hell to throat;
But the folls caught it,
Wore it in the word's eyes
As thougt they'd wrought it.
Song, let them take it,
For there's more enterprise
In walking naked.


UMA CAPA

Uma capa fiz do meu canto
De baixo a cima
Bordada
De antigas mitologias:
Mas tomaram-na os tolos
Para exibi-la ao mundo
Como se por eles fora lavrada.
Deixa, canto, que a tomem,
Pois maior feito existe
Em andar nu.

William Butler Yeats
*1865 † 1939, Irlanda

in Responsabilities ( 1914)
uma antologia
trad. José Agostinho Baptista
Assírio & Alvim

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7:31 da tarde -

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7:24 da tarde - Death

Death

Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Mnay times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Cats derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone -
Man has created death.



Morte

Nem o temor nem a esperança assistem
Ao animal agonizante;
O homem que seu fim guarda
tudo teme e espera;
Muitas vezes morreu,
Muitas vezes de novo se ergueu.
Um grande homem em sua altivez
Ao enfrentar assassinos
Com desdém julga
A falta do alento;
Ele conhece a morte até ao fundo -
O homem criou a morte.

W.B. Yeats


in The Winding Stair and Other poems
(1993)
uma antologia
trad. de José Agostinho Baptista
Edição Assírio & Alvim

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4:05 da tarde - José Afonso



Canção do Desterro


Vieram cedo

Mortos de cansaço
Adeus amigos
Não voltamos cá
O mar é tão grande
E o mundo é tão largo
Maria Bonita
Onde vamos morar

Na barcarola
Canta a Marujada
- O mar que eu vi
Não é como o de lá
E a roda do leme
E a proa molhada
Maria Bonita
Onde vamos parar

Nem uma nuvem
Sobre a maré cheia
O sete-estrelo
Sabe bem onde ir
E a velha teimava
E a velha dizia
Maria Bonita
Onde vamos cair

À beira de àgua
Me criei um dia
- Remos e velas
Lá deixei a arder
Ao sol e ao vento

Na areia da praia
Maria Bonita
Onde vamos viver

Ganho a camisa
Tenho uma fortuna
Em terra alheia
Sei onde ficar
Eu sou como o vento
Que foi e não veio
Maria Bonita
Onde vamos morar

Sino de bronze
Lá na minha aldeia
Toca por mim
Que estou para abalar
E a fala da velha
Da velha matreira
Maria Bonita
Onde vamos penar

Vinham de longe
Todos o sabiam
Não se importavam
Quem os vinha ver
E a velha teimava
E a velha dizia
Maria Bonita
Onde vamos morrer


José Afonso







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terça-feira, agosto 09, 2005

4:31 da tarde - >>>>>>>

Fotografia de Teresa Rosa

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segunda-feira, agosto 01, 2005

7:49 da tarde - XIII - A Tzu- Chi: Entre As " Flores"

A luz no lago, de súbito, esconde-se atrás do muro,
invadem o quarto os cheiros misturados das flores.
Na borda do biombo, o pó que as borboletas espalhou,
Na janela lacada, a mancha amarela da abelha.
Deixa esses papéis oficiais para os escriturários,
Há um criado para cada funcionário público honesto.
Vamos de cavalgada ouvir os poemas um do outro.
Que há de tão urgente nesses assuntos em que perdes o coração?


Li Shang- Yin

" Chuva na primavera e outros poemas"
tradução de José Alberto Oliveira
Assírio & Alvim

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7:45 da tarde - XII -A Chuva Nocturna: À Minha Mulher No Norte


Perguntas-me quando regressarei: não sei a resposta.
De noite, a chuva do Outono, no monte Pa, enche o lago.
Quando, lado a lado, acenderemos uma vela, na varanda poente
E recordaremos o tempo da chuva nocturna no monte Pa?


Li Shang- Yin*


" Chuva na primavera e outros poemas"
tradução de José Alberto Oliveira
Assírio & Alvim


*A poesia de Li Shang-Yn ( 812?- 858) pertence ao último período da dinastia Tang, época áurea de poesia clássica chinesa, onde se destacam nomes como os de Li Po, Tu Fu, Wang Wei ou Bai Ju-Yi, cuja produção poética data, maioritáriamente, do século anterior. Li Shang-Yn viveu na fase da decadência da dinastia Tang, que irá sobreviver-lhe apenas cinquenta anos.

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7:29 da tarde -


Rodney Smith photo in art.transindex.ro

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