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PalavrArdente

SILVES, outrora capital do Algarve, hoje, capital da Palavra Ardente 

terça-feira, maio 31, 2005

5:55 da tarde -


MMM

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5:38 da tarde -

Depois de lamber cuidadosamente
as minhas feridas mudei
o lugar às minha jóias
estavam num cartucho
de papel pardo dentro de uma gavetinha
despejei-o em cima do tampo da minha secretária
loquei nas jóias uma a uma:
um par de brincos que não ponho
porque não tenho as orelhas furadas
três alfinetes: um galgo de vermeil
com uma coleira de rubis
um lagarto de Toledo
um filete com um amor- perfeito
duas pulseiras com o fecho estragado
também os alfinetes não têm conserto
os aneis são dois
um tem uma pedra amarela
o outro é mais complicado
estão-me os dois largos
o resto é um coração
que se abre com uma unha
mas hoje não tenho unhas
cortei-as com uma tesourinha de bordar
mudei tudo para uma caixinha de madeira
com um falcão peregrino na tampa
e folhas de acanto
e mudei a caixinha para ao pé de mim
o que é que eu vou fazer mais?
tratar do piolho verde das minhas roseiras
chamar-me Maria Bárbara
escrever uma novela gótica
viver de pão e laranjas
cantar uma canção que acaba com os versos
Liebst du um Liebe, o ja - mich liebe!
pedir um favor ao príncipe Teodósio.
Adília Lopes

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5:12 da tarde - Poema em Linha Recta


Caricatura de Pessoa Posted by Hello
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indescupavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem nunca ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos

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5:07 da tarde -


Absurdo

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4:48 da tarde - Romance Sonâmbulo

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramos.
O navio sobre o mar,
o cavalo na montanha.
Com sombra pela cintura,
ela sonha na varanda,
verde carne, trança verde,
e olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
À luz da lua cigana,
as coisas estão-na fitando
sem ela poder fitá-las.
*
Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
seguem o peixe de sombra
que anuncia a madrugada.
A figueira esfrega o vento
com a lixa dos seus ramos,
e o monte, gato matreiro,
eriça piteiras bravas.
Mas quem virá? E por onde?
Ela segue na varanda,
verde carne, trança verde,
a sonhar ondas amargas.


Federico Garcia Lorca
nasceu a 5 de Junho de 1898, em Fuente Vaqueros ( província de Granada )
e faleceu em 1936

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4:38 da tarde -


Guernica Posted by Hello

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4:19 da tarde - Prece

A minha irmã Luísa Vanaen de Voninghem: - a sua coifa azul
virada ao mar do Norte. - Aos náufragos.
A minha irmã Leónia Aubois d'Asbhy. Baou - a erva de estio
borbulhante e fedente. À febre das mães e dos filhos.
A Lulu - demónio - que mantém um gosto pelas oratórias do
tempo das Amigas e pela sua educação incompleta. Para homens! A
madame***.
Ao adolescente que fui. A esse santo velho, eremita ou missão.
Ao espírito dos pobres. E a um bem alto claro.
E a todo o culto em cada lugar de culto memorial e em contingências
tais que nos submetamos, por aspiração passageira ou vício sério.
Esta noite, na Circeto dos morros gelados, oleosa como o peixe,
e iluminada como os dez meses da noite vermelha - ( seu coração
ambâr e spunk ), - para a minha oração silenciosa e única como
estas regiões da noite, e precedendo bravuras mais violentas do que
este caos polar.
A qualquer preço e sob quaisquer céus, mesmo a viagem metafísica-
Mas não agora.
Jean Arthur Rimbaud, in "Iluminações, Uma Cerveja no Inferno"
( Tradução de Mário Cesariny )

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4:13 da tarde -


Inferno Posted by Hello

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3:41 da tarde - Rosa do Mundo

O movimento estudantil
não frequenta os evangelhos cuja leitura
os seus aduladores de meia idade lhe atribuem
para se sentirem jovens e recriarem virgindades;
só há uma coisa que os estudantes realmente conhecem:
o moralismo do pai magistrado ou funcionário,
a violência conformista do irmão mais velho
( naturalmente a enveredar pelo caminho do pai ),
o ódio da mãe contra a cultura, segundo
as suas origens camponesas, se bem que longínquas.
Isto, queridos filhos, bem o sabeis.
E aplicai-lo através de dois inderrogáveis sentimentos:
a consciência dos vossos direitos ( já se sabe, a democracia
só a vós toma em consideração ) e a vontade
do poder.
Pier Paolo Pasolini, in "2001 Poemas Para o Futuro"
( Tradução de Ernesto Sampaio )

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segunda-feira, maio 30, 2005

9:39 da tarde - GOYA


Adoración del nombre de Dios (1771) Óleo sobre lienzo. 62 x 49 cm.

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8:56 da tarde - CARTA A MEUS FILHOS ( Os Fuzilamentos de Goya)





Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse
«com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente
quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas
não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena*
( in antologia 800 anos de poesia portuguesa
edição círculo de leitores, 1973)

* (1919-1978) nasceu em Lisboa e faleceu em Santa Barbara, Califórnia. Frequentou o curso de Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia do Porto, tendo trabalhado entre 1948 e 1959 como engenheiro na Junta Autónoma das Estradas. Partiu em 1959 para o Brasil, fazendo o doutoramento em 1964 na área de literatura portuguesa. No ano seguinte parte para os Estados Unidos, lecionando primeiro em Wisconsin e, a partir de 1970, na Universidade da Califórnia em Santa Barbara. Em 1977 recebeu o Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina. A nível literário, Jorge de Sena, esteve ligado aos Cadernos de Poesia com José Blanc de Portugal, Rui Cinatti, entre outros. A par da sua escrita poética e ficcional, há a salientar os estudos teóricos sobre literatura portuguesa e inglesa.



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6:59 da tarde -


"The D.J." by Justin Bua

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6:45 da tarde - Adolfo Casais Monteiro



Europa, sonho futuro!
Europa, manhã por vir,
fronteiras sem cães de guarda
nações com seu riso franco
abertas de par em par!

Europa sem misérias arrastando seus
andrajos, virás um dia? virá o dia
em que renasças purificada?
Serás um dia o lar comum dos que nasceram
no teu solo devastado?
Saberás renascer, Fénix, das cinzas
em que arda enfim, falsa grandeza,
a glória que teus povos se sonharam
- cada um para si te querendo toda?

Europa, sonho futuro,
se algum dia há-de ser!
Europa que não soubeste
ouvir do fundo dos tempos
a voz na treva clamando
que tua grandeza não era
só do espírito seres pródiga
se do pão eras avara!
Tua grandeza a fizeram
os que nunca perguntaram
a raça por quem serviam.
Tua glória a ganharam
mãos que livre modelaram
teu corpo livre de algemas
num sonho sempre a alcançar!

Europa, ó mundo a criar

Europa, ó sonho por vir
enquanto à terra não desçam
as vozes que já moldaram
tua figura ideal!
Europa, sonho incriado,
até ao dia em que desça
teu espírito sobre as águas!

Europa sem misérias arrastando seus
andrajos, virás um dia? virá o dia
em que renasças purificada?

Serás um dia o lar comum dos que nasceram
no teu solo devastado?

Renascerás, Fénix, das cinzas
do teu corpo dividido?

Europa, tu virás só quando entre nações
o ódio não tiver a última palavra,
ao ódio não guiar a mão avara.
à mão não der alento o cavo som de enterro
dos cofres dirigindo o sangue do rebanho
- e do rebanho morto, enfim, à luz do dia,
o homem que sonhaste, Europa, seja vida!

Adolfo Casais Monteiro*
" Europa", 1945

(N. Porto, 4/7/1908; F. São Paulo, 24/7/1972)

*Poeta e ensaísta, publicou, em 1929, "Confusão", primeiro livro de poemas, e em 1933, "Considerações Pessoais", colectânea dos primeiros ensaios críticos. Em 1931 passou a integrar a direcção da revista "Presença". Em 1933, publicou com o poeta brasileiro Ribeiro Couto a colectânea poética "Correspondência de Família", primeiro marco de uma estreita cooperação com os principais intelectuais brasileiros do seu tempo. Em 1937, foi demitido do cargo de professor pela ditadura salazarista. Em 1939, mudou-se para Lisboa, a fim de ganhar a vida como escritor. Preso várias vezes, entre os seus muitos livros de poesia há dois que dão especial vazão à sua revolta política: "Canto da Nossa Agonia" (1942) e "Europa" (1946). Neste mesmo ano tornou-se director da revista "Mundo Literário", depois de ter publicado volumes de ensaios sobre Ribeiro Couto, Jules Supervielle e Manuel Bandeira.
Em 1954 foi para o Brasil, e a breve trecho o activo papel que desempenhou na oposição no exílio tornou impossível o seu regresso. Publicou crítica literária e outras formas de ensaio em numerosas revistas e jornais. Foi professor de literatura em universidades do Rio de Janeiro, Bahia e finalmente São Paulo, onde em Araraquara ocupou, a partir de 1962, a cátedra de Teoria da Literatura.
Em 1969, as suas "Poesias Completas" incluíram o conjunto inédito dos poemas escritos no exílio, com o expressivo título de "O Estrangeiro Definitivo".

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5:49 da tarde -


(1885-1963)


"Choram os padres que a religião leva más andanças e eu o creio. Os templos por esse mundo estão às moscas. E também vos digo, baixinho que ninguém nos ouça, eu sou o último cá na terra a ter medo do inferno. Sabem os meus fidalgos, eu só queria um dia ser rei. Um dia não era cabonde; mas uma semana. Se fosse rei uma semana, afianço-lhes que mondava Portugal. Uma fogueira em cada oiteiro para os ministros, os juízes, os escrivães e os doutores de má sorte. Para este decretava ainda cova bem funda, com obrigação da cada homem honrado lhes pôr um matacão em cima. Uma choldra de ladrões. Imaginem Vossorias que um pobre já nem uma bestinha pode ter! Muito tempo conservei aquele cavalito fouveiro - lembram-se?- para me ajudar a espairecer saudades dos tempos em que corria de almocreve Ceca e Meca e olivais de Santarém. Vai senão quando António Malhadas salta de lá com nove tostões de sumptuária. Irra, novecentos reis por um cavalicoque, um chincharavelho que não valia, a bem dizer, os guizos de um gato! Raios partam o governo mailos governados, raios partam tanto tributo com que a gente de bem tem de ustir para andar aí meia dúzia de figurões, de costa direita, mais farófias que pitos calçudos! Raios partam! O Governo é um corpo de guarda que nos defende ou é a quadrilha de olho vivo que não faz senão roubar? Quem lhe encomendou o sermão?!"

Aquilino Ribeiro*
" O malhadinhas" ( 1922)


*"É um dos romancistas mais fecundos da primeira metade deste século. Inicia a sua obra em 1913 com os contos de Jardim das Tormentas e com o romance A Via Sinuosa, 1918, e mantém a qualidade literária na maioria dos seus textos, publicados com regularidade e êxito junto do público e da crítica.Andam Faunos pelos Bosques, 1926, A Casa Grande de Romarigães, 1957, O Malhadinhas e Quando os Lobos Uivam, 1958, representam tendências constantes da sua ficção: um regionalismo que é apego à terra campesina e às suas gentes, sem perder universalidade nos seus caracteres e descrições; uma ironia terna e complacente perante os vícios humanos comuns; uma crítica violenta da opressão política e do fanatismo ideológico, uma atenção inebriada ao pulsar do torrão campestre, tanto como à vibração sensual do corpo no ser humano"


( Literatura Portuguesa, Instituto Camões)

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5:41 da tarde - (Prémio Nobel da Literatura 1998)



(...)
"estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos - e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Porque foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti- e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que não me acusas- e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: " o mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!"
É isto que eu não entendo- mas a culpa não é tua."

José Saramago
" Deste mundo e do Outro" ( 1971)




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4:55 da tarde - Da Divina Comédia ( Excerto )

Se belo foi como é agora bruto
e contra quem o fez o olhar lhe brilha,
bem deve proceder só dele o luto.
Oh, quanto me pareceu grã maravilha
quando três faces vi em sua testa!
A da frente vermelha se encorrilha;
e cada uma das outras, junta a esta,
em meio a cada ombro se encavala,
e as três se vão juntar na crista infesta:
e amarelece a destra em branco rala;
a sinistra de ver era tal, quais
os que o Nilo percorrem vala a vala.
De cada uma sai par de asas tais,
quanto o pássaro há-de carecê-lo:
velas do mar assim não vi jamais.
Não tinham penas, mas a modo o pêlo
seria de morcego; e as agitava,
do que três ventos dava de atropelo:
e já Cocito todo enregelava.
Com seis olhos chorava e aos mentós rente
baba sangrenta é ranho gotejava.
De cada boca esfacelava a dente
um pecador, ripando-lhe a medula,
e a cada um de três punha dolente.
Era ao da frente a mordedura nula
à esfola comparada, que a carne
sem pele em carne viva toda ondula.
"É a alma que há no cimo maior pena",
o mestre diz, "Judas Escariote:
cabeça dentro, as pernas desordena.
Das duas que debaixo têm garrote,
Bruto pende do negro focinhudo -
vê como ele se estorce! E não dá mote!-;
e é Cássio o que parece tão menbrudo.
Mas a noite regressa e hora se faz
de partirmos, porquanto vimos tudo."
De "A Divina Comédia", O Inferno, canto XXXIV, versos 36 a 69.
( Tradução de Vasco Graça Moura )

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4:32 da tarde -


Dante Alighieri - ( sécs. XIII/XIV ) Posted by Hello -
considerado o maior poeta da Idade Média e da Língua Italiana, nasce em Florença, em 29 de Maio de 1265, e falece em Ravena, em 14 de Setembro de 1321.

Estuda Teologia e Filosofia e conhece profundamente os c~lássicos latinos e os filósofos escolásticos. Pertence ao Partido Guelfo, luta na batalha de Campaldino contra os Gibelinos. Por volta de1300 inicia a carreira diplomática e, em 1302, é preso pelas suas actividades políticas. Inicia-se a segunda etapa da sua vida - o exílio definitivo - pois não acolhe as amnistias de 1311 e 1315. Afastado de Florença, vive em Verona e Lunigiana. Mais tarde, seguindo as vicissitudes da política dos principados italianos, reside em Ravena, onde vem a falecer.
Apesar de casado, Beatriz, dama florentina, é o seu amor platónico e personagem central da sua obra.
"Vida Nova" é uma colecção de sonetos e canções que Dante lhe dedica.
Mas, a sua grande obra é a "Divina Comédia", grandioso poema alegórico, filosófico e moral que resume a cultura cristã medieval. É uma obra de rica simbologia mística: Beatriz, convertida em ideia espiritual, após a sua morte, personifica a teologia ou sabedoria divina, com a qual a alma percorre as vias da razão até alcançar a graça e a união com Deus. Tudo, porém, está impregnado das ideias e crenças de Dante, das suas recordações e esperanças, dos seus amores e ódios, em suma, das suas poderosa inspiração e personalidade.

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4:15 da tarde -

Sedia-m'eu na ermida de San Simion
e cercaron-mi as ondas que grandes son:
eu atendo'o meu amigo,
eu atend'o meu amigo.
Estando na ermida ant'o altar,
cercaron-mi as ondas grandes do mar;
eu atend'o meu amigo,
eu atend'o meu amigo.
E cercaron-mi as ondas que grandes son:
nem hei i barqueiro nem remador;
eu atend'o meu amigo,
eu atend'o meu amigo.
E cercaron-mi as ondas do alto mar;
non hei i barqueiro nem sei remar;
eu atend'o meu amigo,
eu atend'o meu amigo.
Non hei i barqueiro nem remador:
morrerei eu, fremosa, no mar maior:
eu atend'o meu amigo,
eu atend'o meu amigo.
Nem hei i barqueiro nem sei remar,
e morrerei eu, fremosa, no alto mar:
eu atend'0 meu amigo,
eu atend'o meu amigo.
Meendinho, in Cancioneiro de Amigo ( séc. XIII )

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4:09 da tarde -


Cantiga de Amigo Posted by Hello

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3:50 da tarde -

Levou-s'a louçana, levou-s'a velida:
vai lavar cabelos na fontana fria,
leda dos amores, dos amores leda.
Levou-s'a velida, levou-s'a louçana:
vai lavar cabelos na fria fontana,
leda dos amores, dos amores leda.
Vai lavar cabelos na fontana fria;
passou seu amigo que lhi bem queria,
leda dos amores, dos amores leda.
Vai lavar cabelos na fria fontana;
passa seu amigo que [a]muit'amava,
leda dos amores, dos amores leda.
Passa seu amigo que lhi bem queria:
o cervo do monte a áugua volvia,
leda dos amores, dos amores leda.
Passa seu amigo que [a] muit'amava:
o cervo do monte volvia a áugua,
leda dos amores, dos amores leda.
Pero Môogo, in "Cancioneiro de Amigo"

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3:48 da tarde -


Cantiga de Amigo. Sec. XIII Posted by Hello

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domingo, maio 29, 2005

7:51 da tarde - A arte de ser feliz


Sem Título. CarvalheiraPosted by Hello
Houve um tempo em que a minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como reflectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles

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sábado, maio 28, 2005

7:03 da tarde - Os Animais Carnívoros


Herberto Helder Posted by Hello

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6:57 da tarde - Silves 83


Luiza Neto Jorge Posted by Hello

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6:46 da tarde -

Quem me dera rasgar o coração com uma navalha,
encerrar-te lá dentro
e voltar a fechar o peito
para que dentro dele tu estivesses,
para que em mais nenhum tu habitasses,
até ao dia da ressurreição
e do juízo final.
Assim viverias comigo enquanto eu existisse
e assim ficarias, entre as dobras do meu coração,
mesmo depois da minha morte,
rodeada pelas trevas do sepulcro.
Ibu Hazm

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6:10 da tarde -


Centro de Estudos Luso Árabes. Silves Posted by Hello

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5:49 da tarde -

O teu aroma tomou-me conta do olfacto
e o teu rosto lindo preencheu meus olhos:
és minha mesmo depois de me deixares
e só por isso me chamam poderoso.
Al-Mu'tamid, "Poeta do Destino"
( Tradução de Adalberto Alves )

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5:06 da tarde - Evocação


Al-Mu'tamid Posted by Hello

1.quanto o apreciei quando serviu o vinho!
era como uma lua rodando no salão.
2.seu movimento derramava um perfume doce
que o seu próprio odor humedecia
qual terno ramo tocado pelo vento leste.
3.circula, vai levando a taça com dedos de lis
e seus olhos de narciso faz girar
4.ó tu que te serves de uma espada grande
e que guardas a montada na cavalariça,
5.tem cuidado, se, no exército que avança,
um cavaleiro cobre a penugem com a cota!
6.serás impassível, mas se ele a tirar,
debaixo da sombra sai um dia de sol.
7.agita-se e mostra a doce penugem, qual potro
que avança, altivo, tilitando rédeas e freio.
8.rende-te!o terno ramo quebrou as lanças,
o corçozinho, em sua toca, capturou o leão das florestas.
9.lança um feitiço adverso, sobre nós, com a tua taça!
é que basta a bela negrura de uns olhos
para fazer despontar a gratidão de todos.

Ibn 'Ammâr - Drama de Um Poeta
( Tradução de Adalberto Alves e Hamdane Hadjadji )

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5:03 da tarde -


Jardim Al-Mu'tamid, em Silves Posted by Hello

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1:29 da manhã - Poema do futuro cidadão

Vim de qualquer parte
de uma Nação que ainda não existe.
Vim e estou aqui!

Não nasci apenas eu
nem tu nem outro...
mas irmão.
Mas tenho amor para dar às mãos-cheias.
Amor do que sou
e nada mais.

E
tenho no coração
gritos que não são meus somente
porque venho dum país que ainda não existe.

Ah! Tenho meu amor a rodos para dar
do que sou.
Eu!Homem qualquer
cidadão de uma nação que ainda não existe.



José Craveirinha ( Moçambique)

In: Xigubo

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1:20 da manhã -



" Quem vem lá?"

Malangatana Ngwenya Valente *


*Nasceu em Matalana, em 1936. Estudou na Escola da Missão Suiça de Matalana e na Escola da Missão Católica de Ntsindya, em Bulaze. Depois de obter o diploma da 3ª classe rudimentar, vai para Lourenço Marques (Maputo). Em 1958 frequentou o Núcleo de Arte onde conhece o pintor Zé Júlio, que o apoia. Em 1961 efectou a sua primeira exposição individual. Em 1971 foi bolseiro da Gulbekian em gravura e cerâmica. Recebe a Medalha Nachingwea pela contribuição dada à cultura Moçambicana. Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

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12:53 da manhã - Carta dum contratado

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta que dissesse
Deste anseio
De te ver
Deste receio
De te perder
Deste mais que bem querer que sinto
Deste mal indefinido que me persegue
Desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta de confidências íntimas,
Uma carta de lembranças de ti,
De ti
Dos teus lábios vermelhos como tacula
Dos teus cabelos negros como diloa
Dos teus olhos doces como macongue
Dos teus seios duros como maboque
Do teu andar de onça
E dos teus carinhos
Que maiores não encontrei por ai...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Que recordasse nossos dias na capopa
Nossas noites perdidas no capim
Que recordasse a sombra que nos caia dos jambos
O luar que se coava das palmeiras sem fim
Que recordasse a loucura
Da nossa paixão
E a amargura da nossa separação...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Que a não lesses sem suspirar
Que a escondesses de papai Bombo
Que a sonegasses a mamãe Kiesa
Que a relesses sem a frieza
Do esquecimento
Uma carta que em todo o Kilombo
Outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta que ta levasse o vento que passa
Uma carta que os cajus e cafeeiros
Que as hienas e palancas que os jacarés e bagres
Pudessem entender
Para que se o vento a perdesse no caminho
Os bichos e plantas
Compadecidos de nosso pungente sofrer
De canto em canto
De lamento em lamento
De farfalhar em farfalhar
Te levassem puras e quentes
As palavras ardentes
As palavras magoadas da minha carta
Que eu queria escrever-te amor...

Eu queria escrever-te uma carta...

Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender
Por que é, por que é, por que é, meu bem
Que tu não sabes ler
E eu - Oh! Desespero! - não sei escrever também!

António Jacinto

(" Poesia de Angola" edição M.E.C.)

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12:46 da manhã - excepção


["The Old Guitarist, 1903" Pablo Picasso]



Todos chegam ao seu destino
o rio, o comboio
a voz, o navio
a luz, as cartas
o telegrama de condolências
o convite para jantar
a mala diplomática
a nave espacial
Todos chegam ao seu destino
excepto…os meus passos ao meu país.


Murid Al-Barghouti ( Palestina)
trad. de Albano Martins

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sexta-feira, maio 27, 2005

5:32 da tarde - Língua


Mátria Posted by Hello
Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à mingua
"Minha pátria é minha língua"
Fala mangueira!
Fala!
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção cho cho de
Carmen Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E - xeque-mate - explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da
TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisas como Rã e Imã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Matoso e Arrigo Barnabé e maria da
Fé e Arrigo barnabé
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?
Incrível
É melhor fazer um canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Se você tem uma ideia incrível
É melhor fazer um canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corísco
Hollyood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o
Recôncavo
Meu medo!
A língua é a minha pátria
e eu não tenho pátria: tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
Será que ela está no Pão de Açúcar?
Tá craude brô você e tu lhe amo
Qué queu te faço, nego?
Bote ligeiro
Nós canto-falamos como que inveja negros
Que sofrem horrores no gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixe que digam, que pensem e que falem
( Caetano Veloso )

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5:29 da tarde -


Lusamérica Posted by Hello

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5:00 da tarde - A Camões

Com que pena
Era ainda um léxico sibilante
um gutural murmúrio dissonante.
Diante da folha branca
Luís Vaz de Camões.
Ninguém sabe com
que pena com que
tinta em
que papel.
Ninguém saberá nunca
com que
letra.
E isso é como ter perdido
uma parte do nosso próprio rosto.
Era muito antes de Mallarmé escrever
que a forma chamada verso
é pura e simplesmente literatura.
Muito antes das teses de Pound sobre a melopeia
e de Shelley ter dito que os poetas
são os ignorados legisladores da humanidade.
Talvez Camões soubesse que Dante dividia
as palavras consoante sua música.
Sabia por certo que o poeta é um fabbro
( mais tarde Pound diria um versemaker
e João Cabral de Melo Neto - contra
a poesia bissexta e a teoria da inspiração -
poria o acento tónico no fazer
e no sentido profissional da literatura).
Era muito antes da poesia ter entrado
em Portugal para a universidade.
Talvez soubesse o que mais tarde
Eliot havia de formular: a música
da poesia é a música latente do falar
corrente. A música latente do falar corrente
do país do poeta. E também
cacofonia dissonância prosaísmo
como parte da estrutura do poema.
Diante da folha branca
sentado na margem do Mandovi
em Goa. Ou talvez
junto de um seco estéril adverso verbo.
Então o com e o que
as sílabas mais ásperas e as rudes
consoantes puseram-se a cantar.
Alquimia - poderia dizer Rimbaud
muito mais tarde. Mas era
( segundo Pedro Nunes )
outro mar outro céu outras estrelas.
Da obscura substância de uma antiga prosódia
uma língua nascia.
E se alguém perguntasse como
não morria
tu dirias canção
porque
poesia.
( Manuel Alegre )

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4:56 da tarde -


Camões Posted by Hello

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4:48 da tarde -

Eu cantei já, e agora vou chorando
o tempo que cantei tão confiado;
parece que no canto já passado
se estavam minhas lágrimas criando.
Cantei; mas se me alguém pergunta quando:
"Não sei, que também fui nisso enganado".
É tão triste este meu presente estado
que o passado por ledo estou julgando.
Fizeram-me cantar, manhosamente,
contentamentos não, mas confianças;
cantava, mas já era ao som dos ferros.
De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças
onde a Fortuna injusta é mais que os erros?
Luís de Camões

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4:23 da tarde -


O Arauto Posted by Hello
La palabra no es ni un instrumento, ni un vehículo: es una estructura, cada vez estamos más seguros de ello, pero por definición, el "ecrivain" es el único que pierde su propria estructura y la del mundo en la estructura de la palabra. Ahora bien, esta palabra es una materia (infinitamente) trabajada; es un poco como una super-palabra, lo real nunca le és más que un pretexto (para el "ecrivain", escribir es un verbo intransitivo); la consecuencia es que ello nunca puede explicar el mundo, o al menos, cuando finge explicarlo, sólo es para hacer retroceder mejor su ambigüedad.
( Roland Barthes, "Ecrivains y écrivants",
in Ensayos Criticos, 1977 )

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4:18 da tarde -


Concentração. David Rodriguez Posted by Hello

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4:00 da tarde -


I and my Village. Marc Chagall Posted by Hello

só é meu
o país que trago dentro da alma.
entro nele sem passaporte
como em minha casa.
ele vê a minha tristeza
e a minha solidão.
me acalanta.
me cobre com uma pedra perfurmada.
dentro de mim florescem jardins.
minhas flores são inventadas.
as ruas me pertencem
mas não há casas nas ruas.
as casas foram destruídas desde a minha infância.
os seus habitantes vagueiam no espaço
à procura de um lar.
instalam-se em minha alma.
eis porque sorrio
quando mal brilha o meu sol.
ou choro
como uma chuva leve
na noite.
houve tempo em que eu tinha duas cabeças.
houve tempo em que essas duas caras
se cobriam de um orvalho amoroso.
se fundiam como o perfume de uma rosa.
hoje em dia me parece
que até quando recuo
estou avançando
para uma alta portada
atrás da qual se estendem altas muralhas
onde dormem trovões extintos
e relâmpagos partidos.
só é meu
o mundo que trago dentro da alma.
( Tradução Manuel Bandeira )

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quarta-feira, maio 25, 2005

7:36 da tarde -


foto de David Hamilton

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7:10 da tarde - escritos íntimos




" Encontrei uma definição de Belo- tal como pelo menos, para mim, ele existe é algo
simultaneamente ardente e triste, um pouco vago, que deixa sempre lugar para a conjectura. Se o quiserem, procurarei aplicar o meu conceito a um objecto que lhe esteja adequado - um rosto de mulher por exemplo, o objecto mais capaz de nos interessar no dia a dia. Uma cabeça bela e sedutora, isto é uma cabeça de mulher, é algo que nos conduz ao mesmo tempo - embora de uma maneira sempre confusa - sensações mistas de tristeza e de volúpia; que comporta em si tanto uma impressão de melancolia, como a sua impressão contrária- ou seja um grande desejo de viver, ou entusiasmo, a que de qualquer modo se associa um constante fluxo de amargura, feita de privação e de desespero. O mistério e o sentimento de pena também são caracteres da Beleza.
Um cabeça de homem para ser bela, não digo aos olhos de uma mulher, mas aos olhos de um outro homem - não precisa de nos comunicar essa impressão de volúpia que, no caso de uma mulher, e de um modo geral, se torna uma provocação tanto mais excitante quanto mais melancólico for o rosto. Ela possuirá contudo, qualquer coisa de mais ardente e triste - carências espirituais, ambições obscuramente recalcadas, - a noção de um poder grandiloquente mas desbaratado, - por vezes mesmo a sensação de uma frieza amarga ( o tipo ideal do Dandy não deve ser esquecido, ao tratarmos deste assunto) -, outras vezes ainda o que aliás constitui um dos seus traços mais surpreendentes, algo de misterioso e aziago ( para mostrar enfim até que ponto me sinto moderno em questão de estética). - Não afirmo que a alegria seja incompatível com a Beleza, digo que ela só constitui um dos seus enfeites mais vulgares- a melancolia, pelo seu lado, constitui uma das suas acompanhantes mais ilustres de tal forma que não sou capaz de conceber [ será o meu cérebro um espelho maligno?] qualquer tipo de Beleza que não contenha em si algo triste. - Apoiado em - outros dirão: obcecado por - estas ideias, compreender-me-ão que ser-me-ia muito difícil não considerar SATÃ, à maneira de Milton, o tipo mais perfeito da Beleza viril."

Charles Baudelaire

(" escritos íntimos", pag 55, 56
editorial estampa, trad. de Fernando Guerreiro)



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3:11 da tarde - Le petit auto


Calligrammes


Guillaume APOLLINAIRE(1880-1918)

no site " Columbiana"

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12:25 da tarde -





X.29.4.17... " Portanto não amamos a Arte nem os artistas ( abaixo Apollinaire) E COMO TOGRATH TEM RAZÃO EM ASSASSINAR O POETA! Porém, já que é preciso extrair um pouco de ácido ou de velho lirismo, que seja feito em vivos solavancos - porque as locomotivas andam depressa...
... o umor, não devia produzir - mas que se há-de fazer? Atribuo algum umor a LAFCADIO, porque ele não lê e só produz em experiências divertidas, como no Assassinato- e isto sem lirismo satânico - meu velho Baudelaire putrefacto! - Era preciso o nosso ar seco um pouco; maquinaria - rotativas de óleos pestilentos - vrombis, vrombis - vrombis - Apita! Reverdy - divertido o phoeta, e aborrecido em prosa; MAX JACOB, meu velho fumista - TÍTERES - TÍTERES - TÍTERES quereis lindos títeres de madeira colorida!? Dois olhos sem chama e a rodela de um cristal de monócolo, com um polvo de máquina de escrever - Prefiro..."

Jacques Vaché

(1896/1919)
Lettres de guerre, 1920 ( extrait)
Anthologie de l'humor noir d'André Breton

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12:23 da tarde -

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