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SILVES, outrora capital do Algarve, hoje, capital da Palavra Ardente 

segunda-feira, maio 23, 2005

4:47 da tarde - "Dia do Autor" - 22 de Maio

( no dia seguinte )
*
O Autor, dizem, é todo aquele que faz a diferença do Mundo.
Mas nem por isso o Mundo se rende ao sonho ou à obra desse que lhe consagra um rosto, a arte de uma vida, o trabalho do espírito, o movimento grave de um gesto que vem sempre do coração.
O Autor não sabe criar nada a partir do nada. Esse é talvez um privilégio específico dos deuses. E contudo o barro e o sopro, a tinta e o papel, o fogo e a voz, a corda e o cinzel - são também alguns dos materiais e instrumentos com que ele trabalha, quando ousa aproximar-se dos deuses que amaram o Canto, o Livro, a Tragédia ou o Riso do Homem.
Ele, o Autor, reside no espaço de onde irradiam luzes, sons, cones de sombras azuis que se projectam sobre harpas mudas, clavicórdios, pianos talvez esquecidos, silêncios, desertos, partituras ainda por inventar. Entra ele próprio na Música, deixando que o consuma o fogo de uma lenta, quem sabe se perpétua, sinfonia de Amor, que é aliás a bússola da vida. Tudo nela oscila entre a contingência e a plenitude.
À sua maneira, canta sempre um poema que está ainda por nascer. Às vezes, diz entre dentes um verso maldito. Depois repete-o, erguendo a voz, para que todos possam ouvi-lo. Dizem que é seu própósito celebrar o lado eterno e paradigmático de tudo o que há-de, um dia, explicar a história do Mundo. Por isso, ele vem quase sempre em nome do Tempo. Mas para vir em nome do Tempo, não lhe basta ser tolerado, nem saber-se virtuoso. É certo que há nos seus olhos uma clarividência diurna, uma espécie de astúcia que o aproxima do sublime e do sagrado. Diz-se que por esse motivo muitos pensam condená-lo ao reduto dos divinos malditos, tal como o terão feito os deuses a alguns dos seus anjos mais lúcidos. Eis que a sua voz, feita de um vento profético, anuncia a memória, passa da noite para o dia e tem o supremo propósito de inventar e inaugurar o Futuro em cada momento.
Vemos o actor chegar à boca de cena e declamar: ser ou não ser, eis a questão - e assim a sua voz se recusa a ser cúmplice de quantos não têm definidas a essência e a razão de vida. Vemos o cantor subir ao palco das suas paixões, abrir os braços, fixar as luzes que o tornam magnífico: nesse momento, o homem mais solitário do mundo dirá por música o que nunca foi possível ver traduzido noutra linguagem. Vemos o pintor fazer com que a mão deslize sobre a imaginação das formas - e há, nesse modo único de ser mágico, um segredo, um murmúrio de quem não pode conformar-se com o simples facto de estar vivo. Vemos o fotógrafo e o cineasta, o filósofo e o escultor, o dramaturgo e o trapezista, o poeta e o escritor: franzem o rosto ao ruído; no vento, colhem a semente e a virtude do silêncio. E amam, mais do que ninguém, a liberdade do homem que pode estar longe - fisicamente cativo ou liberto - todavia presente, gregário, solidário e numeroso no seu coração.
Hoje, no júbilo e na glória deste Dia da sua festa, queremos que o Autor seja múltiplo e ousado, de rosto erguido e olhos altivos, contra a pequenez ou perversa ignorância, e contra a indiferença ou a bonomia de quantos fingem tolerá-lo no quotidiano e na cultura da sociedade portuguesa.
Múltiplo, digo, porque resulta de toda a combinatória do mundo criado para criar. O pintor escreve. O músico toma uma paleta de tintas e enche de sons e compassos o soneto ou a centésima página do romance. O escritor olha o firmamento, vê nuvens, fronteiras de países, oceanos e outros espaços infinitos - e dá por si a imaginar, sob o rufo de um vento de timbales, a corda, o oboé, o violoncelo, toda a orquestra afinal por cujos instrumentos tengem anseios, angústias e prantos, mas também a alegria, a esperança e o destino do Mundo. Dele dirão que é estranho, absorto, temperamental. Outros vislumbram no seu rosto, não a fadiga do esforço, mas antes o ríctus de um ócio amargo, quem sabe se obscuro na sua aparente misantropia. Quem assim pensa desdenha ou desconhece o seu trabalho - e em nome não sei de que princípios recusa-lhe uma alma, o direito a um inocente templo perdido, um dia de repouso, um salário, uma dignidade acima de todos os equívocos.
Amanhã, quando o Autor tiver de morrer, não faltará quem venha alimentar-se da sua loucura. Porque é impossível escapar a este contágio do sonho, aos frutos amadurecidos e inadiáveis da utopia. Ele não se importa. Vivo ou morto, tem um secreto orgulho de ser quem é ou quem já foi. Criou o espelho e o espanto do Homem. Orgulha-se de ser póstumo e de continuar vivo, prevalecendo sobre quantos o julgaram efémero, mortal e proscrito - no Livro, no Quadro, na Canção, na Estátua de pedra cujos olhos, teimosamente, no centro dos jardins do amor e do domingo, persistem em apontar na direcção do infinito.
Saibam que é esse o seu veneno. Orgulhar-se de ser, sem o consentimento nem o sentido tributável de todos os outros. E então, sim, o Autor preside. O Autor mora na casa das portas fechadas. Orgulhosamente, ao contrário dos que em vão passaram por aqui, fingiu partir e ficou. E dura mais do que o Tempo. E quando porventura do Tempo não restar outra noção da sua medida, hão-de vir outros e dirão: O Autor está entre nós. Posso ouvi-lo respirar e revelar-me o último dos seus segredos. O caso é que ainda agora o Autor falou e disse!
João de Melo


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