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PalavrArdente

SILVES, outrora capital do Algarve, hoje, capital da Palavra Ardente 

sábado, junho 25, 2005

8:19 da tarde -





O SAL DA LÍNGUA


Escuta, escuta:
tenho ainda uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.

Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.


Eugénio de Andrade

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5:42 da tarde - Hélio Rola & Floriano Martins





Por que o inesperado sempre chega pelo outro lado? Cresce em nós a floração do visível. Um vício de números como o anúncio de um parto. Dirás agora o estímulo planejado. A espera aos poucos desagrega tua equação existencial. A custo reparas que a circulação de ansiedade já não decifra o simples efeito físico da sombra. Já não sentes mais nada íntimo em ti. Apenas um dardo do acaso explora o cansaço em tuas veias. Refluis para onde não há mais escrita, talvez movida pela crença de que o mundo é uma coisa mental. Esta metafísica de fácil combustão emperrou o desejo, que agora se recusa a corporificar qualquer idéia. Grafites se espalham pelas ruas: infinito é o que não pode ser escrito. Já não chegas em ti por lado algum.

arte: hélio rola / poema: floriano martins
fortaleza é nossa debilidade

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3:34 da tarde -


Silves

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3:05 da tarde - minarete


em Silves vejo o meu amor.
as amendoeiras
vestem-se de branco-rosa
e o almuadem anuncia
com o muezin
a passagem do vento em flor.

os olhos azeitona
trazem o vinho no meu coração
e em bebedeiras de azul
vejo-te gazela
pulando entre as gavelas
a alegria do campo.

ó os deuses são tão pródigos.
o linho descobre-te
e anuncia o prato das delícias.

josé félix*
(inédito) 17.06.2005


* natural de Angola, nascido em 1946, em Luanda. Licenciado em História pela F.C.S.H. da Universidade Nova de Lisboa. Promove a frequência de listas de discussão poética na Rede, tendo criado a lista Escritas suportada pela página literária pessoal. Encontro de Escritas, com entrevistas, divulgação de poemas e novos poetas de língua portuguesa. Análise, crítica literária, ensaio, trabalhos feitos por alguns associados para um grupo de cerca de 200 autores / leitores de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.
Obra literária:
Geografia da Árvore (a reinvenção da memória), Col. Poéticas de Lav(r)a, Múchia Publicações, Lda., Funchal, Outubro de 2003
Antologias:
Antologia Horizontes do PD-Literatura, Brasil, 1999 Poiesis II, Poiesis III da Editorial Minerva (MNA), Portugal, 1999, 2000 Antologia "Incomensurável" - Poesia a treze, Editorial Minerva, Portugal, 2000 "Inspiração Erótica" - Antologia da Associação Cultural de Jundiaí, Brasil, 2000 ”Espelhos da Língua” da Sociedade de Escritores de Blumenau, Brasil, 2001 “Quatro Poetas da Net”, Edições Sete Sílabas, Setembro, Lisboa, 2002 ”Prosa & Verso”, Projecto Palavra Azuis, Vol.2, da Sociedade de Escritores de Blumenau. ”Encontro de Escritas” – Antologia nº1, Lisboa, 2004 Encontro de Escritas - Antologia Nº2, Lisboa, 2005


Prefaciou os livros de José Gil, Don Lackewood e Constantino Alves.“Laços & Lazos”, um livro bilingue, de José Gil e Sónia Regina“De cada poro um poema” de Antoniel Campos“Catavento” de Everardo Torrez Getz, autor mexicano.”Esfinge Lunar” de Goulart Gomes, poeta da Bahia, Brasil

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2:50 da tarde -

(...)
A pintura afundar-se-á. A fotografia despojou-a de muitos dos seus atractivos. A futilidade ou a idiotice despojou-a de quase tudo o resto. O que sobrou tem sido saqueado por coleccionadores americanos. Um grande quadro é sinal de algo que um americano rico deseja comprar porque outras pessoas gostariam de o fazer, se pudessem. Deste modo, os quadros são postos em paralelo, não com poemas ou romances, mas com as primeiras edições de certos poemas e romances. O museu passa a assemelhar-se , não à biblioteca, mas à biblioteca de um bibliófilo. A valorização da pintura torna-se não paralela à valorização da literatura, mas à valorização das edições. A crítica da arte cai gradualmente nas mãos dos antiquários.
A arquitectura torna-se um aspecto secundário da engenharia civil.
Só a música e a literatura ficam.
A literatura é a forma intelectual de dispensar todas as artes. Um poema, que é um quadro musical de ideias, dá-nos a liberdade, através da compreensão que dele tivermos, de ver e ouvir o que queremos. Todas as estátuas e pinturas, todas as canções e sinfonias, são tirânicas em comparação com isto. Num poema, temos de compreender o que o poeta pretende, mas podemos sentir o que quisermos.
Um passeio por um museu torna-se, não uma contribuição para a cultura, mas um estímulo para a inveja, como olhar de cima dos nossos pés cansados para o automóvel de um homem rico.

Fernando Pessoa


in " Heróstrato E A Busca Da Imortalidade", *37, pag. 84,85
edição assírio & alvim
trad. Manuela Rocha

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quinta-feira, junho 23, 2005

3:18 da tarde - " Pintura"


Autor: Júlio Reis Pereira (1902 - 1983)

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3:02 da tarde - O Poeta



Vão dizer que não existo propriamente dito.
Que sou um ente sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação para ninguém.
Meu pai costumava me alertar:

Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras
Ou é ninguém ou zoró.
Eu teria treze anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei o meu primeiro verso:

Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra para minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir as suas
irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.



Manoel de Barros

" O Encantandor de Palavras", pag.34
Edições Quasi

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terça-feira, junho 21, 2005

7:25 da tarde -





ARTE POÉTICA


(a Charles Morice)



Antes de qualquer coisa, música

e, para isso, prefere o Ímpar
mais vago e mais solúvel no ar,
sem nada que pese ou que pouse.
E preciso também que não vás nunca
escolher tuas palavras em ambiguidade:
nada mais caro que a canção cinzenta
onde o Indeciso se junta ao Preciso.
São belos olhos atrás dos véus,
é o grande dia trémulo de meio-dia,
é, através do céu morno de outono,
o azul desordenado das claras estrelas!
Porque nós ainda queremos o Matiz,
nada de Cor, nada a não ser o matiz!
Oh! O matiz único que liga
o sonho ao sonho e a flauta à trompa.
Foge para longe da Piada assassina,
do Espírito cruel e do Riso impuro
que fazem chorar os olhos do Azul
e todo esse alho de baixa cozinha!
Toma a eloquência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começaste,
em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?
Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
nos forjou esta jóia barata
que soa oca e falsa sob a lima?
Ainda e sempre, música!
Que teu verso seja um bom acontecimento
esparso no vento crispado da manhã
que vai florindo a hortelã e o timo...
E tudo o mais é só literatura.



Paul Verlaine*

(tradução de Carlindo Lellis)

*poeta francês, (França, 1884-1896) de vida considerada atribulada e escandalosa, cujapoesia reflecte a contradição entre uma conduta deplorável e um ideal quase primitivo de pureza e misticismo.Verlaine nasceu em Metz e fez seus estudos secundários em Paris, entrando depois, como funcionário,para a Prefeitura. Já nessa época, frequentava a boémia dos cafés parisienses, sendo um funcionário relapso e pouco assíduo. É então que descobre a poesia. Poèmes Saturniens ("Poemas Saturninos, 1866) é sua primeira coletânea publicada. Verlaine professa de início a impassibilidade parnasiana, mas já seuinstinto poético o conduz a dar maior agilidade ao alexandrino, a utilizar os ritmos ímpares a sugerir vagosestados por estrofes vaporosas. Poucas obras na história da poesia francesa são mais sinceras e comoventes.

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5:00 da tarde - Pragmático

As coisas que existiam antes de tu morreres
e as coisas que surgiram depois:

Ás primeiras pertencem, antes do mais,
as tuas roupas, as jóias e as fotografias
e o nome da mulher que te deu o nome
e também morreu jovem…
Mas também um par de receitas, o arranjo
de um certo canto na sala,
uma camisa que me passaste a ferro
e que guardo cuidadosamente
debaixo da minha resma de camisas,
Algumas peças de música, e o cão
sarnento que por aí anda
Com um sorriso estúpido, como se ainda aqui estivesses.

Às últimas pertencem a minha caneta,
um perfume conhecido
na pele de uma mulher que mal conheço
e as novas lâmpadas que pus no candeeiro do quarto
que iluminam o que leio acerca de ti
em todos os livros que leio.

As primeiras recordam-me que exististe,
as últimas que já não existes.
Que sejam quase indistinguíveis
é o mais difícil de suportar.



Henrik Nordbrandt (Dinamarca,1945)

Trad. de José Alberto Oliveira
in A Rosa do Mundo.Assírio e Alvim

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domingo, junho 19, 2005

8:12 da tarde - FRIEDRICH SCHILLER




OS DEUSES DA GRÉCIA


Quando ainda era o vosso reino o mundo belo,
Pela vossa mão, o homem era conduzido para a alegria,
Em estirpes bem-aventuradas,
Belos seres do mundo das fábulas.
Porque o vosso culto então resplandecia
Era tudo tão diferente, era tudo um outro tempo,
De flores, Vénus Amatúsia, ainda se coroava
o teu templo!

As vestes mágicas da Poesia ainda se inclinavam
Docemente para a verdade,
A criação irradiava o sentido para a vida,
Sentia-se como nunca se houvera sentido.
Para a inscrever no seio do amor,
Deu-se as mais altas asas à natureza,
Em tudo havia marcas sagradas,
Em tudo havia vestígios de um deus.

Onde agora, na nossa forma de ver,
Apenas se move uma bola de fogo sem alma,
Conduzia então o seu carro dourado,
Hélio, na sua majestade calma.
Os cumes dos montes eram habitados por Oréades,
Em cada árvore habitava uma Dríade,
Dos ataúdes de belas Náiades
Saltitavam fios de espuma prateada.

Em cada loureiro, houve, um dia, um pedido de ajuda
A filha de Tântalo escondeu-se atrás de uma pedra,
O lamento da siringe ecoou pelos canaviais,
Um bosque escutou a dor de Filomela.
E cada ribeiro engrossou, com o pranto que Deméter
Por Perséfone, um dia, derramou.
Destas colinas, Cítereia pelo seu belo amigo
Ah, foi em vão que chamou.

Às bodas de Deucalião subiram, um dia, os Imortais,
Para conquistar a bela filha de Pirro,
Tomou em suas mãos, o filho de Latona,
O seu bordão de pastor.
Entre homens, deuses e heróis, teceu Amor
Um belo laço,
Em Amatonte, prestaram culto os mortais,
Ao lado de deuses e heróis.

Gravidade sombria e renúncia triste
Estavam banidas do vosso caloroso culto,
Felizes podiam os corações pulsar,
Porque só os venturosos vos estavam consagrados.
Nada era mais louvado que a beleza,
De nenhuma alegria se devia envergonhar um deus,
Nem do que fazia a casta Camena corar,
Nem do que as Graças tinham para dar.

Ria-se, nos vossos templos, como nos palácios.
Dignos eram os vossos jogos heróicos,
Nas festas do Istmo, recamadas de flores,
Quando os carros trovejavam para a meta,
Entre danças expressivas, que circulavam
Em volta do vosso resplandecente altar.
Das coroas da vitória se adornava o vosso sono,
De grinaldas, o vosso cabelo fragrante.

O Evoé das alegres bramidoras do tirso
E a magnífica parelha puxada por panteras
Anunciava o maior arauto da alegria.
Faunos e sátiros cambaleavam à sua frente.
À sua volta surgiam frenéticas Ménades,
As suas danças louvavam o vinho,
E a face trigueira do estalajadeiro
Convidava a beber divertidamente.

Não havia então qualquer carcaça temível
Para atemorizar o leito dos moribundos.
Um beijo esvoaçava dos lábios, num último alento,
No seu interior, escondia-se um génio.
Até a severa balança do Orco
Assegurava um poeta ao moribundo.
E perante as queixas clamorosas do Trácio,
Comoveram-se as Erínias.

As alegrias encontravam de novo as sombras
Aprazíveis, nos Campos Elísios.
O amor verdadeiro encontrava o seu fiel par,
O condutor do carro, o seu caminho.
O instrumento de Lino entova as canções de sempre.
Nos braços de Alceste afundava-se Admeto,
Orestes reconhecia o seu amigo,
E a sua seta encontrava Filoctetes.

Elevadas honrarias fortaleciam o lutador,
Incitando-o à virtude dos caminhos valorosos.
Grandes feitos, magníficos vencedores
Elevavam-se até aos Imortais.
Diante de todo aquele que desafiava a Morte,
Inclinavam-se os deuses, numa vénia.
Pelas marés alumiava o piloto,
Do Olimpo o par de gémeos.

Mundo belo, que é feito de ti? Regressa,
Abençoada idade florida da natureza!
Só na terra das fadas, das canções,
Vive ainda o teu vestígio fabuloso.
Definhados e tristes, estão agora os campos,
Porque nenhuma divindade se oferece
ao meu olhar.
Desses quadros palpitantes de vida,
Apenas nos resta a sua sombra.

Todas essas flores foram tombadas pelo vento
Frígido do norte.
Para adorar Um entre todos, teve que perecer
Este mundo de deuses.
Triste, procuro-te no arco-íris, a ti, Selene.
Não te encontro mais.
Grito, através das ondas, das florestas,
E só um eco vazio me responde!

Alheios à alegria que ela oferece,
Sem entusiasmo pela sua majestade,
Sem a protecção do espírito que ela encerra,
Sem a consagração da minha espiritualidade,
Insensíveis à sua honra de artista,
Assemelhando-se ao bater das horas mortas,
Dobra-se servilmente à lei da espada,
A natureza endeusada.

Para amanhã de novo ser dispensada,
Para si própria constrói agora o próprio túmulo.
Sobre um fuso sempre igual, para cima e para baixo,
Por si próprios se movimentam os astros.
Ociosos, voltaram para a poesia,
Para a sua casa, os deuses, desnecessários
Ao mundo que, pela sua mão nascido,
No seu próprio peso se sustenta.

Sim, eles regressaram à sua casa e levaram consigo
Tudo o que era grande e belo consigo,
Todas as cores e todos os matizes da vida.
Ficou-nos a palavra empobrecida.
Retirados das vagas do tempo, pairam,
A salvo, nos cumes do Pindo.
O que permanece imortal, no canto,
Tem que perecer, na vida.


FRIEDRICH SCHILLER*


Tradução de Maria do Sameiro Barroso


*Johann Christoph Friedrich Schiller nasceu a 10 de Novembro de 1759 e morreu a 9 de Maio de 1805, antes de completar 46 anos. Poeta, dramaturgo, filósofo, historiador, é, juntamente com Goethe, uma das figuras cimeiras da literatura alemã. Duzentos anos após a sua morte, é homenageado, neste ano de 2005

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7:43 da tarde -



(...)
[Olha: eu queria saber em que parte
se morre, para ter uma flor e com ela
atravessar vozes velozes e ardentes e crimes
sem roupa. Existe nas ilhas um silêncio para
a poeira tremer, e o teu rosto se voltar lentamente cheio
de febre para o lado de uma canção
[terrível e fria.

Herberto Helder


excerto de "canção despovoada"
in " ou o poema contínuo" , pag 247
edição, assírio & alvim

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sábado, junho 18, 2005

10:48 da tarde - Requiem a Pier Paolo Pasolini


Pier Paolo Pasolini [n. 5 Março de 1922, f.1975]


"Eu pouco sei de ti mas este crime
torna a morte ainda mais insuportável
....

O assassino, esse seguirá dia após dia
a insultar o amargo coração da vida;
....

O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Salò, não se importariam de assinar.
Seja qual for a razão, e muitas há
que o Capital a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto.
A farsa, a nojenta farsa, essa continua"

S.Lázaro, Novembro de 1975

Eugénio de Andrade

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11:16 da manhã -




" Poesia é voar fora das asas"

Manoel de Barros

(n.1916, Cuiabá - MT)

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11:03 da manhã -




"À primeira vista, parece mais fácil de fazer do que o regular. Mas é engano. Basta dizer que no verso livre o poeta tem de criar o seu ritmo sem auxílio de fora. É como o sujeito que solto no recesso da floresta deva achar o seu caminho sem bússola, sem vozes que de longe o orientem, sem os grãozinhos de feijão da história de João e Maria. Sem dúvida, não custa nada escrever um trecho de prosa e depois distribuí-lo em linhas irregulares, obedecendo tão-somente às pausas do pensamento. Mas isto nunca foi um verso livre. O modernismo teve isto de catastrófico: trazendo para a nossa língua o verso livre, deu a todo mundo a ilusão de que uma série de linhas desiguais é poema".


Manuel Bandeira (1886/1968)

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10:46 da manhã -





"a palavra é a amante e o amigo do poeta, seu pai e sua mãe, seu deus e seu diabo, seu martelo e sua almofada. Também é seu inimigo: seu espelho".

..../....


"Cada poema é único. Em cada obra lateja, com maior ou menor intensidade, toda a poesia. Portanto, a leitura de um só poema nos revelará, com maior certeza do que qualquer investigação histórica ou filológica, o que é a poesia ".

Octávio Paz

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1:12 da manhã -





"Poetry is man's rebellion against being what he is."

"A poesia é a revolta do homem contra ser aquilo que é. "

James Branch Cabell ( e.u.a, 1879-1958)

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sexta-feira, junho 17, 2005

1:24 da tarde - Vento


A casa esteve toda a noite lá longe, no mar,
o bosque quebrando entre a escuridão, os montes troando,
o vento fustigando os campos sob as janelas,
também ele escuro nos seus volteios, cego e molhado,

até ao nascer do dia. Então, sob um céu alaranjado,
viam-se nesses montes lugares novos, o vento trazia
uma luz cortante, luminosidade negra e esmeralda
a ondular como se vista pelas lentes de uns olhos loucos.

Pelo meio-dia trepei por uma das paredes da casa
até à porta do depósito de carvão. Ousei olhar mais para cima:
por entre a força do vento que amolgava os meus olhos
os montes pareciam tendas a ressoar, retesadas nas cordas,

os campos estremeciam e via-se um esgar na linha do horizonte,
na iminência de rebentar e desaparecer com mais uma chicotada:
o vento arrancava dali uma pega e um alcatraz
de cauda preta a dobrar-se devagar como uma barra de ferro. A casa

retinia como se fosse uma fina taça verde prestes
a estilhaçar-se a qualquer momento. Enfiados
nas cadeiras frente ao lume, aperta-se-nos
o coração e não há livro ou pensamento que nos distraia nem somos

capazes de nos distrair uns com os Outros. Olhamos o fogo a arder
e sentimos tremer os alicerces da casa,mas permanecemos sentados
vendo a janela a abanar, quase a cair para dentro,
ouvindo o grito das pedras sob o horizonte.

Ted Hughes*

"O Fazer da Poesia"
trad. de Helder Moura Pereira


*Ted Hughes (1930-98) nasceu em Yorkshire, no interior da Inglaterra. Publicou mais de vinte livros de poesia e, como prosador, voltou-se principalmente para o público infanto-juvenil. Ganhou alguns dos prêmios literários mais importantes da Europa, como o Whitbread. Em 1984, recebeu o título de Poeta Laureado do Reino Unido.

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2:46 da manhã - A Piaf





Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do «ça ira»,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida.
Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
o desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.

6/10/1964

Jorge de Sena

(Arte de Música,Poesia II, Edições 70, 1988.)

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quinta-feira, junho 16, 2005

3:29 da tarde -





(...)
E no centro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e todos os teus gestos são uma sinalização em direcção à morte - embora seja sempre absurdo morrer.
Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no regresso. Possuo para sempre tudo o que perdi. E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. Penso em ti. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto. - aqui sentado junto à janela fechada. Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor do mundo que nos foge.


Sines/ S. Pedro de Moel, 1988

Al Berto*

(in "Lunário", pag161
edição assírio & alvim)


*pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares (1948-1997), nasceu em Coimbra e faleceu em Lisboa. Nas primeiras obras poéticas, Al Berto seguiu de perto a linha surrealista, especialmente a que emana de Herberto Hélder. Posteriormente, funde a poesia na prosa, criando uma espécie de deambulações fragmentárias. Foi distinguido em 1988 com Prémio Pen Club de Poesia pela obra O Medo.

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2:51 da tarde - O Visionário ou som e cor, III


Caricatura de Gomes Leal em " Projecto Vercial"



o vermelho deve ser como
o som de uma trombeta...
um cego


Alucina-me a Cor!- A Rosa é como a Lira,
A lira pelo tempo há muito engrinaldada,
E já é velha a união sagrada,
Entre a cor que nos prende e a nota que suspira.

Se, a terra, às vezes, brota a flor que não inspira,
A teatral camélia, a branca enfastiada,
Muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
Como a perdida cor dalguma flor que expira...

Há planta ideais dum cântico divino,
Irmãs do oboé, gémeas do violino,
Há gemidos no azul, gritos no carmesim...

A magnólia é uma harpa etérea e perfumada,
E o cacto, a larga flor, vermelha, ensaguentada,
- Tem notas marciais, soa como um clarim.

Gomes Leal*


in " Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa"
de Eugénio de Andrade
edição campos das letras



*António Duarte Gomes Leal (1848-1921) nasceu em Lisboa, filho ilegítimo de um funcionário do Estado. Frequentou o Curso Superior de Letras, não chegando a terminá-lo. Ao ler as obras de Marx, Darwin, Renan e Proudhon, entusiasma-se com o socialismo, aproximando-se ideologicamente de Antero de Quental e Oliveira Martins. Poeta e jornalista, caiu na miséria nos últimos anos da sua vida, sobrevivendo da caridade alheia. Escreveu: O Tributo de Sangue (1873), A Canalha (1873), Claridades do Sul (1875), A Fome de Camões (1880), A Traição (1881), O Renegado (1881), História de Jesus (1883), O Anti-Cristo (1886), Fim de Um Mundo (1900), A Mulher de Luto (1902), A Senhora da Melancolia (1910).

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2:29 da tarde - " trilogia da chuva"para Eugénio de Andrade


"White Rose" de Michael Banks




I



em todos os edifícios

da urbe/

ouvirei o teu centro/

como a rosa

para

abrigo/



II



há mortes que não sabem/que a morte

é um verso/ que deixa

destroços/



como um grande naufrágio



III



um pássaro

há pouco

recebia os teus versos/ em

telepáticas línguas/



chove muito

muito/



a chuva arrasta o teu nome na boca




maria azenha
2005,junho,13,lisboa

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11:53 da manhã - ARTE POÉTICA

Que o verso seja como chave
que abra mil portas.
Uma folha cai, algo passa voando;
quanto os olhos fitam criado seja,
e a alma do ouvinte fique palpitando.

Inventa novos mundos, cuida da palavra;
o adjectivo quando não dá vida, mata.

Estamos no céu dos nervos.
O músculo pende,
Como recordação, nos museus;
mas nem por isso temos menos força:
o vigor verdadeiro
reside na cabeça.

Porque cantais a rosa, poetas?
fazei-a florir no poema.
Só para nós
vivem sob o sol as coisas todas.
O poeta é um pequeno Deus.


Vicente Huidobro (1893-1948)
poeta chileno

(Tradução de Jorge de Sena, em Poesia do Século XX, 3ª Ed., Asa, Porto, 2003.)

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quarta-feira, junho 15, 2005

3:51 da tarde -




DA DIVINA COMÉDIA (excerto)



Se belo foi como é agora bruto

e contra quem o fez o olhar lhe brilha,
bem deve proceder só dele o luto.
Oh, quanto me pareceu grã maravilha
quando três faces vi em sua testa!
A da frente vermelha se encorrilha;
e cada uma das outras, junta a esta,
em meio a cada ombro se encavala,
e as três se vão juntar na crista infesta:
e amarelece a destra em branco rala;
a sinistra de ver era tal, quais
os que o Nilo percorrem vala a vala.
De cada uma sai par de asas tais,
quanto o pássaro há-de carecê-lo:
velas do mar assim não vi jamais.
Não tinham penas, mas a modo o pêlo
seria de morcego; e as agitava,
do que três ventos dava em atropelo:
e já Cocito todo enregelava.
Com seis olhos chorava e aos mentós rente
baba sangrenta é ranho gotejava.
De cada boca esfacelava a dente
um pecador, ripando-lhe a medula,
e a cada um de três punha dolente.
Era ao da frente a mordedura nula
à esfola comparada, que a carne
sem pele em carne viva toda ondula.
«É a alma que há no cimo maior pena»,

o mestre diz, «Judas Iscariote:
cabeça dentro, as pernas desordena.
Das duas que debaixo têm garrote,
Bruto pende do negro focinhudo —
vê como ele se estorce! E não dá mote! —;

e é Cássio o que parece tão membrudo.
Mas a noite regressa e hora se faz

de partirmos, porquanto vimos tudo.»

Dante Alighieri*

in:A Divina Comédia, O Inferno, canto XXXIV e último,
versos 36 a 69, Trad. de Vasco da Graça Moura


* (Florença, 1265 - Ravena, 1321).
Escritor italiano. Estuda Teologia e Filosofia e conhece profundamente os clássicos latinos e os filósofos escolásticos. Pertencente ao Partido Guelfo, luta na Batalha de Campaldino contra os Gibelinos. Cerca de 1300 inicia a carreira diplomática e, em 1302, é encarcerado por causa das suas actividades políticas. Inicia-se então a segunda etapa da sua vida: o exílio definitivo, pois não dá acolhimento às amnistias de 1311 e 1315. Afastado de Florença, vive em Verona e em Lunigiana. Posteriormente, e seguindo as vicissitudes da política dos principados italianos, reside também em Ravena, onde morre. Apesar de ser casado, Beatriz, dama florentina, é o seu amor platónico e a personagem central da sua obra.
A Vida Nova é uma colecção de sonetos e canções dedicada à sua dama idealizada, Beatriz. Mas a grande obra de Dante é a Divina Comédia, grandioso poema alegórico, filosófico e moral que resume a cultura cristã medieval. A sua estrutura reproduz as concepções cosmológicas e teológicas da época. É uma obra de rica simbologia mística: Beatriz, convertida em ideia espiritual após a sua morte, personifica a teologia ou sabedoria divina, com a qual a alma percorre as vias da razão até alcançar a graça e a união com Deus. Mas tudo isso está impregnado das ideias e crenças de Dante, das suas recordações e esperanças, dos seus amores e ódios, da poderosa inspiração e da personalidade deste formidável escritor.
( in Vidas Lusofonas)







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3:14 da tarde - "Poema da Rua Maria Antónia"


Por sobre o muro
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.

Renata Pallottini*

In: PALLOTTINI, Renata. Coração americano.
Pref. Luiz Carlos Cardoso. Il. Aldemir Martins.
2.ed. São Paulo: Feira de Poesia, 1979

NOTA: "Poema da Rua Maria Antonia" é a quarta parte do poema "Simposium", composto de 10 partes


*Cursou Direito na Universidade de São Paulo (USP) entre 1949 e 1953, onde publicou seus primeiros poemas, nas revistas da faculdade. Também fez o Curso de Filosofia Pura na Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), concluído em 1951. No ano seguinte publicou Acalanto, seu primeiro livro de poesia. Em 1960 ocorreu a montagem de sua peça A Lâmpada, com direção de Teresa Aguiar, em Campinas SP. Lecionou História do Teatro Brasileiro na Escola de Arte Dramática da USP, em 1964. Um ano depois foi encenada sua peça O Crime da Cabra, sob direção de Carlos Murtinho, sua estréia no teatro profissional. Entre 1969 e 1982 publicou oito peças de teatro, foi roteirista do programa infantil Vila Sésamo e diretora da Escola de Arte Dramática da USP.(...)Publicou livros de contos, poesia infantil e ensaios. Em 1997 recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Sua obra poética inclui os livros A Faca e a Pedra (1962), Os Arcos da Memória (1971), Noite Afora (1978), Esse Vinho Vadio (1988) e A Menina que Queria Ser Anja (1987). A poesia de Renata Pallatini vincula-se à terceira geração do Modernismo.

in Itau Cultural ( panorama poesia e crónica)

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2:27 da tarde -


"Praia das Maçãs" - Autor José Malhoa (1855-1933)

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2:16 da tarde - Cena de Primavera


As flores o seu vermelho perdem, frágil,
Os damascos são pequenos, e verdes.
Esvoaçam andorinhas,
E verde a água rodeia uma das casas.
Dos ramos voaram já, uma vez mais,
Muitos dos amentos de salgueiro.
Onde é que não haverá, na terra, ervas fragrantes?

Dentro do muro, um baloiço de jardim; fora, uma rua.
Fora do muro, um transeunte.
Lá dentro, um riso - de rapariga bonita,
Que a pouco e pouco se extingue.
E agora um coração em fúria, o dela
Contra quem mostrou não ter nenhum.

Su Dongpo (SuShi) - 1036-1101

Uma Antologia da Poesia Chinesa por Gil de Carvalho

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1:54 da tarde -




S'io credesse che mia riposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa flamma staria senza più scosse
Ma per cìo che giammai di questo fondo
Non tornò viva alcun s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia, ti rispondo.

(Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66)


Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são refúgio de vozes murmuradas
De noites sem repouso em hotéis baratos de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável...
Oh, não perguntes «Qual será?.»
Vem lá comigo fazer a tal visita.

T.S. Eliot*
A Canção de Amor de J. Alfred Prufock
(tradução de João Almeida Flor)


*Poeta, crítico e dramaturgo norte-americano naturalizado inglês (1888-1965). Considerado um dos principais nomes da poesia moderna de língua inglesa. Seu nome completo é Thomas Stearns Eliot. Em 1915, desencantado com a vida cultural dos EUA, muda-se para Londres, onde trabalha no Lloyds Bank durante sete anos. Em 1917 publica A Canção de Amor de John Alfred Prufrock, de influência simbolista. Seus ensaios em The Sacred Wood (1920) iniciam uma revolução nos critérios da análise literária. O sucesso e o reconhecimento internacional chegam com o lançamento de A Terra Devastada (1922), sua obra-prima. É uma longa descrição poética da Europa desolada do pós-guerra e uma síntese dos grandes momentos da civilização ocidental. Além dos simbolistas franceses, o escritor italiano Dante Alighieri influencia sua obra, que explora os mecanismos da consciência contemporânea. Em 1927, naturaliza-se inglês e converte-se ao anglicanismo. Recebe o Prêmio Nobel de Literatura em 1948, pelo livro Four Quartets (1943). Escreve as peças Murder in the Cathedral (1935), The Family Reunion (1939) e The Elder Statestman (1958), entre outras.




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terça-feira, junho 14, 2005

5:00 da tarde - Fotobiografias


CaravaggioPosted by Hello
[É o tempo que marca as imagens. Vemos os rostos aproximarem-se da memória que guardamos dos nomes...Há rostos extraordinários, sinais de uma obra, apelos emocionais ou projecções espectrais de "almas a arder..."]
Revista Ler ( 56 ), "fotobiografias/ Eugénio de Andrade"

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4:20 da tarde - Eugénio de Andrade - O Amigo Mais Íntimo do Sol


Eugénio de Andrade Posted by Hello
Mais até do que o corpo, é o rosto do poeta quem serve de cicerone nesta recolha iconográfica de uma vida íntima de sol. O rosto de Eugénio de Andrade ( 1923-2005 ) surge recortado contra as paisagens do seu percurso: as da natureza como as das circunstâncias, com destaque para as viagens. O rosto encontra-se em lugares como o Fundão, Castelo Branco, Lisboa, Coimbra, Alentejo e, sobretudo, no Porto. Poucas as fotos da infância e quase nenhumas as da família. O olhar está consciente da máquina, desafiando-a a encontrar intimidades para além da pose. A partir de certa altura, riscam-se no mapa percursos mais longos, da Grécia à China, de Marrocos a Itália, do México aos EUA. Aqui se cumpre o ritual de apanhar o viajante com a coisa viajada. O rosto tem por vezes a companhia de outros rostos, quase sempre poetas ( Sena, Sophia, Pascoaes ), trocando sorrisos, até que, avançadas as datas, surgem outras faces em circunspectas homenagens. O ritmo solto das imagens vai sendo marcado por um manuscrito, um texto, um poema, que ora tentam aceder aos mistérios da criação, ou afirmam acontecimentos ( o nascimento do afilhado, por exemplo ) e lugares: "O Porto é uma certa maneira de me refugiar na tarde, forrar-me de silêncio e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a insurreição do olhar". Ou justificam asa invocações: a natureza, a música, a pintura, a Grécia. Também nos são dados os rostos dos livros. E não é apenas a luz a desenhar o rosto do poeta, tantos os artistas que o tocaram com traço, cor e matéria: Pomar, Resende, Mário Botas, Emerenciano, Álvaro Siza ou Fernando Lanhas, entre muitos outros. Mais rostos nos vêm fitar, são ainda de poetas. "Os grandes encontros são sempre encontros de juventude: Pessanha, Pessoa, Rimbaud, Lorca, Rilke, Whitman". Não há mais enquadramento do que os "principais elementos biográficos" no final e as apresentações de Luís Miguel Nava e Ángel Crespo, em tom de ensaio. Qualquer leitura, para atém da fruição simples das imagens, é grandemente prejudicada pela discutível opção de colocar o conjunto das legendas na parte final...
José da Cruz Santos, "Fotobiografias", in Ler/56

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4:14 da tarde -


Eugénio de Andrade Posted by Hello
"o acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação"

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1:10 da tarde - O Crepúsculo da Manhã

Tocava o despertar nos pátios das casernas
E o vento da manhã soprava nas lanternas.
Era a hora em que enxames de sonhos violentos
Torcem nos travesseiros os adolescentes;
Em que, como um sangrento olho que palpita,
Um candeeiro mancha de vermelho o dia;
E em que, sob o pesado e esquivo corpo, a alma
Reproduz esse jogo entre as luzes rivais.
Como um rosto que chora e que as brisas enxugam,
Vibra o ar no arrepio de mil coisas em fuga
E as mulheres já não amam e os homens não escrevem.
Aqui e além, agora, as casas já fumegam.
Com as bocas abertas e as pálpebras lívidas,
O seu estúpido sono as rameiras dormiam;
Coitadas, arrastando os seios frios e magros,
Sempre nos seus tições e nos dedos sopravam.
Era a hora em que por entre o frio e a mesquinhez
Se agravavam nos partos as dores das mulheres;
Num lamento quebrado por sangue espumoso,
Longe, o galo a cantar rasgava o ar brumoso;
Um mar de nevoeiros banahava edifícios
E os agonizantes, dentro dos hospícios,
O estertor derradeiro a custo soluçavam.
Já cansados da farra, os devassos voltavam.
A tiritante aurora, em trajo rosa e verde,
Sobre o Sena deserto ia avançando lenta
E o sombrio Paris, ainda a esfregar os olhos,
Empunhava as alfaias, velho laborioso.
Charles Baudelaire, "As Flores do Mal"
( Tradução de Fernando Pinto do Amaral )

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1:06 da tarde -


Les Fleurs du Mal. Charles Baudelaire Posted by Hello

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12:37 da tarde - O Gato


Charles Pierre Baudelaire ( 1821-1867 )Posted by Hello
poeta francês precursor do Simbolismo, escreveu, em 1857, "Les Fleurs du Mal", obra que o imortaliza. Com versos rigorosamente metrificados e rimados e que prefiguram o parnasianismo, Baudeleire aborda temas, do sublime ao escabroso, assumindo-se liricamente contra as convenções morais que caracterizavam a sociedade francesa dos meados do séc. XIX.
in Dicionário de Literatura ( adapatado )
Lindo gato, vem cá, vem ao meu colo;
Encolhe as unhas dessa pata,
E deixa que eu mergulhe nos teus olhos,
Um misto de metal e ágata.
Quando os meus dedos, à vontade, afagam
O dorso elástico, a cabeça,
E a mão se me inebria de prazer
No corpo eléctrico, a apalpá-lo,
Vejo a minha mulher. O seu olhar,
Tal como o teu, querido animal,
Frio e profundo, fende-nos qual dardo,
E da cabeça até aos pés
Um ar subtil, um perfume perigoso
Nadam em torno do seu corpo.
Charles Baudelaire, "As Flores do Mal"

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12:19 da tarde - Flor do Lácio/Rumo ao Sumo

Disfarça, tem gente olhando
Uns, olham pro alto,
cornetas, luas, galáxias.
Outros, olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.
Outros olham para baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.
Paulo Leminski, "La vie en close"

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12:16 da tarde -


Medium. Picasso Posted by Hello

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segunda-feira, junho 13, 2005

6:45 da tarde -



(...)
Dizer numa simples linha "o que pensam os olhos"(1) é a tarefa do pintor. Louvemos em tempo de catástrofe e de cólera, o que nos resta de limpo sobre a terra - parecem dizer-nos estes traços, estas cores -, louvemos a terra e as suas criaturas. Cada artista é assim uma espécie de S. Francisco cantando, por sua conta e risco, um hino à criação. " Cantar é ser" diz o poeta dos
Sonetos a Orfeu, e " ser é expor-se, na nudez mais completa, só e sem amparo", diz por sua vez o nosso pintor. Só e sem amparo, é verdade. E contudo é dessa solidão que nasce esta maravilha que temos na mão: numa folha de escassos centímetros quadrados surgem dois ou três acordes cromáticos, duas ou três casas baixas, como as da minha infância, uma delas cor de rosa, a outra cor de trigo, e uma árvore de um verde mediterrâneo; à sua roda respira-se melhor, há no ar uma música subtil, ascensional, e tudo é leve, tudo é bom.(2)
(...)



Eugénio de Andrade
in " à sombra da memória"
pag 97, 98
edição fundação eugénio de andrade



(1) Cézane
(2) Nietzche " tudo o que é bom é leve"

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5:54 da tarde - "A Arte, o Artista e a Sociedade"*



"A imaginação artística dos povos envolve gerações, num quase inimaginável longo processo criativo, que, mantendo vivas mesmo que não evidentes as origens, as enriquece e traduz com elementos e valores estéticos novos." (p.111)

"Arte é liberdade. É imaginação, é fantasia, é descoberta e é sonho. É criação e recriação da beleza pelo ser humano e não apenas imitação da beleza que o ser humano considera descobrir na realidade que o cerca."(p.201)

"(...)É bom que jamais percam a necessidade e o gosto de escrever, de pintar, de tocar um instrumento, de mesmo em silêncio, sem assim se chamarem, continuarem a ser artistas."(p.202)

Álvaro Cunhal
*Editorial Caminho, Lisboa, 1996

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5:42 da tarde -


Aguarela de Júlio Resende,
in "Cancioneirinho de Coimbra"
de Eugénio de AndradePosted by Hello

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5:38 da tarde -

Que trabalho exasperado, o da língua,
essa que dizes com mão insegura
desvios, desacertos, desalinhos.
De pequeno formato, de Eugénio de Andrade

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5:36 da tarde -


Desenho de Álvaro Cunhal




Quem me dera

(Alberto Caieiro heterônimo de Fernando Pessoa)

Quem me dera
que eu fosse o pó da estrada

E que os pés dos pobres
me estivessem pisando...
Quem me dera
que eu fosse os rios que correm

E que as lavadeiras
estivessem à minha beira...
Quem me dera
que eu fosse os choupos
à margem do rio

E tivesse só o céu por cima
e a água por baixo...
Quem me dera
que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse
e me estimasse...
Antes isso que ser
o que atravessa a vida

Olhando para trás de si
e tendo pena...

Alberto Caieiro

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5:22 da tarde -



desenho de Álvaro Cunhal
n. Sé Nova, Coimbra, a 10 de Novembro de 1913
f. Lisboa, a 13 de Junho de 2005

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4:36 da tarde - Elegia de Coimbra/Teixeira de Pascoaes

...Para Coimbra parti, depois, em certo dia
De escurecido Inverno,
Doente de saudade e de melancolia...
E, numa pobrezinha sepultura,
Deixei magoada rosa de ternura,
A desfolhar-se num adeus eterno...
Em mim, já despontava, em ermo sonho absorto,
este espectro que sou e me permite ver,
Em vida, à luz do Sol, o que hei-de ser,
Em sombra, à luz do luar, depois de morto,
Em mim, quem se comove e canta, num delírio,
Na palidez das mãos, trazendo um roxo lírio,
A trança desprendida e, sobre o branco rosto,
Mais sombras e orações que as horas do sol posto?
Ah, quem reza comigo à tarde e me abençoa?
Quem me fala de amor e me perdoa?
Quem é que nos meus sonhos me revela
Misteriosa estrela:
Alegria de luz que me trespassa
E, dentro em mim, acende etérea graça,
Um rasto de oração por Deus ouvida,
Um luar que me beija a alma adormecida?
Quem, nos meus olhos, põe uns olhos de piedade?
És tu, Amor, Espectro, Divindade!
Criado em altos sítios de granito,
Na vizinhança agreste do Infinito,
Demorei-me, bem trite, a contemplar
Uma velha cidade, em mármor' tumular,
Numa paisagem doce e anémica, esboçando
Sorrisos de verdura, junto de água...
O mais é medieva, etérea Mágoa
Em coloridos campos alastrando...
Ora, subindo em íngremes colinas,
Que têm gestos velhinhos de ruínas,
Ermos pinhais saudosos...
Ora, descendo em vales penumbrosos,
Elegias de Deus...
E, filho duma Estrela, o Rio legendário,
No crepúsculo enfermo, é líquido sudário
Com a efígie dramática dos céus.

E em todo o vago ambiente, à luz da aurora,
Na sombra da tardinha,
É vivo, como outrora,
O fantasma de Inês vestida de Rainha.
Sobre o Mondego e as margens florescidas,
é névoa que flutua...
De noite, à luz da Lua,
Nos ermos olivedos,
É zéfiro abatendo as asas falecidas,
Vulto esvaído em murmúrios segredos...
Espectro desgrenhado,
Em gemidos de louco sentimento,
Nas ruínas, à chuva, dum convento,
Já quase subterrado...
E nas tardes de Outubro,
Quando o poente, macerado e rubro,
Nos salgueiros do rio,
Põe gangrenas de morte e roxos tons de frio,
- Vê-se o enterro de Inês, fantástico, passar!
Duas filas sem fim de luzes amarelas,
E os sinos, que há no mundo, aos ventos, a dobrar
E, entre o luto do povo, o choro das donzelas!
Coimbra é a lenda, o luar, a evocação...
A tristeza, medieva, a sombra dos pinhais;
O canto pastoril, Camões, a solidão,
A elegia da terra, em misteriosos ais...
É João de Deus e Antero:
O infinito mimo e o grande desespero!
(...)
Antologia da Poesia Moderna sobre Coimbra, in "Cancioneirinho de Coimbra",
de Eugénio de Andrade

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4:31 da tarde -


Coimbra 62. Posted by Hello

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4:05 da tarde - Apelo/Miguel Torga. Elegia de Coimbra/Carlos de Oliveira. Coimbra/António Manuel Pires Cabral


Cancioneiro de Coimbra.
Eugénio de Andrade Posted by Hello
Com a tarde a cair cheia de cor,
-Folhas de Outono no Choupal deserto -
Olha-te de outra maneira o meu amor,
E o teu coração pulsa mais perto...
Como que pede vida nesta hora
Uma força que em nós nos era alheia...
Uma onda que vem pelo mar fora
À procura de paz na sua areia...
Nada que seja a flor duma impureza;
É qualquer coisa de mais belo e fundo:
- Sugestão do adeus da natureza
A pedir fé no mundo.
*
A cidade lembra os defuntos,
à sorte e à noite que a tolheu,
enterrada numa urna de choupos
sob a lousa do céu.
Gela a lua de março nos telhados
e à luz adormecida
choram as casas e os homens
nas colinas da vida.
Correm as lágrimas ao rio,
a esse vale das dores passadas,
mas choram as paredes e as almas
outras dores que não foram perdoadas.

Aos que virão depois de mim
caiba em sorte outra herança:
o ouro depositado
nas margens da lembrança
*
A cidade, nós sabemos,
atinge muitas vezes limites penosos,
pontos de fusão, paralisias,
o desequilíbrio formal, as
tantas formas de submersão.
Muito drástico o dia,
(o)fendido, moribundo.
Há réstias? Há um filtro,
um influxo sensato de jovens
sentimentos: pelos quais
nos sentamos decididos sobre as bermas;
pelos quais antecipamos, evitando
a coronha com fugas maquinais.
Ginástica. É verão, eu vo-lo juro.
Antologia da Poesia Moderna , in Cancioneirinho de Coimbra,
de Eugénio de Andrade

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10:26 da manhã -

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9:59 da manhã - 19 Janeiro de 1923 / 13 de Junho 2005



(...)

Eis o que tenho a pedir-vos nos meus oitenta anos: plantem nesse lugar um plátano, onde o vento enroladinho no sono possa dormir sem sobressaltos; ou uma oliveira, ou um chorão, e à sua roda ponham uma sebe da flor doce e musical de espinheiro branco. Embora tenha pouca ou nenhuma fé seja no que for, a terra ficará mais habitável. Um poema ou uma árvore podem ainda salvar o mundo.

(17.1.2003)


Eugénio de Andrade*

( excerto de Palavras em Serrúbia)

*José Fontinhas (nome verdadeiro de Eugénio de Andrade) nasceu a 19 de Janeiro de 1923, faleceu hoje na cidade do Porto.

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9:57 da manhã - Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.


Eugénio de Andrade

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2:37 da manhã - O Menino de sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
– Duas, de lado a lado –,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!

(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
É boa a cigarreira,
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada

Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:

"Que volte cedo, e bem!
"(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa


Obra Poética e em Prosa,
ed. António Quadros. Porto, Lello & Irmão, 1986.

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2:17 da manhã - 13 de Junho de 1888/ 30 de Novembro de 1935






«Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,não há nada mais simples.Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.Entre uma e outra todos os dias são meus.»

Alberto Caeiro


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1:56 da manhã -





Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

in "Livro do Desassossego" por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa.

(Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha.
Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

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domingo, junho 12, 2005

6:21 da tarde -


Ode ao vento e às ondasPosted by Hello

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6:03 da tarde - O Meu "Livrário"

Na sanzala há húmidas vergonhas.
Húmidas vergonhas! Veja lá o que é isso.
Dizem que são cabelos revoltados
do meu pensamento coeso.
Andei na Universidade a evoluir o
pensamento.
Dizem que a Universidade é hoje a
única casa de Deus.
Mas quando ali passo, na minha sanzala,
rebuscam-me as veias. Dizem-me:
São da vida e dos nossos passos,
o teu percurso.
Como é que não fizeste
uma campa para o teu pai
em cima destas árvores?
Ali! Aquele dinheiro que geme
nos meus bolsos!
Na verdade não hão-de os pássaros cantar
mês a mês a noite do meu sangue.
João Tala, de "A Forma dos Desejos", 1997
Antologia da Nova Poesia Angolana, edição INCM, 2001
Biografia
Publicou "A Forma dos Desejos" ( 1997 )

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