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PalavrArdente

SILVES, outrora capital do Algarve, hoje, capital da Palavra Ardente 

domingo, julho 31, 2005

10:20 da tarde - ... Carta /Poema a herberto

Herberto


sobre uma pista de raízes queimadas nas cavernas

do metropolitano tenteaste os degraus

onde as grandes

flores de loucura emudeciam - a cada passo a casa

erguia-se tecendo tramas de corredores

no frio de quartos e janelas

escancaradas à negra fixidez dos sóis

entre espelhos roídos pelos ventos de uma europa

que talvez fosse só juventude ( o que mora

no alto é igual

ao que em baixo mora) - porém na confusa

medianidade da visão está o tributo

a cada conhecimento se fecha o nó da dupla

solidão e cegos então cada coisa nos revela

o avesso como quando uma criança a ama

com o terror

que transforma a inocência em alegria

quando o desconhecido

te invade os dias Herberto esquece o seu nome a comovida

obscuridade da mulher e os rostos cruzarão

sorrisos e ansiedade na rua de repente indecifráveis

porque o desconhecido é um muro onde não se filtra o amor

nem a ferocidade dos gestos quotidianos (como

um círculo de beleza em expansão uma luz que plasma

desertos onde pousa) e é a festa de espinhos

um incêndio sacral assinalado a tua viagem com as cifras

menstruais já fim de uma infância perseguida

pelas visões - quem parte

deixa o corpo e entreabre a porta sobre as paisagens de sombra

até que se encante no ritmo a loucura encontrando

voz em cada meandro das fontes no meio das folhas

com olhos maternos de terra e os osso se vistam

de um sólido nevoeiro porque a morte é uma ponte

batida pelos passos de quem ousou conhecer tensa para unir

a ferida do abismo que nos lacera por dentro ( sem memória

de uma outra idade quando as mãos criavam palavras

para cada coisa desentranhada do silêncio de um tempo

ainda imóvel )

Herberto morremos e renascemos sós

não há companheiro que te possa vigiar o caminho

se o sono é um emaranhado de sarças pedras e vozes

enganadoras nem a mulher saberá decifrar os triunfos

da derrota - o viajante

estrangeiro voltará por entre os nomes esvaziados de cada vida

terá sílabas acesas por uma pasmada ternura

mas ninguém o escuta ( o medo fecha

ao imprevisto as fendas mais secretas ) ....

Carlos Vittorio Cattaneo in Três Solidões " Cartas - poemas para Mécia de Sena, Eugénio de Andrade e Herberto Helder- Contexto Editora, Roma 1981

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9:24 da tarde - ....


Fotagrafia de João Parassu

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sexta-feira, julho 29, 2005

7:50 da tarde -

Tal és mi poesía[...] arma cargada de futuro expansivo
Con que te apunto el pecho.
No és una poesia gota a gota pensada.
No és un bello producto. No es un fruto perfecto.
Son palabras[...] Son lo más necesario: lo que tiene nombre
Son gritos en el cielo, y en la terra actos.
[...] canto respirando.

Gabriel Celaya

in " nos joelhos do Silêncio"
( Heliodoro Baptista)
editorial Caminho

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7:42 da tarde - Do Cós da Agenda

1

Recordo o tanto mal que me fizeram
como se bebesse um misterioso vinho.
Até à última gota da garrafa.


2

Hoje, os cães passam e a caravana ladra.


3

Conheço homens e mulheres que, na água
afungentam até os maiores crocodilos.


4

Se os governos não decapitam o povo
é porque, sem ele, nem se designavam:
até os abutres bateriam em retirada.


5

Moçambique expatriou-se. É possível
encontrá-lo num mapa por fazer.
Ou, numa esquina do mundo, a tocar
viola com os dedos dos pés. Cortaram-lhe
os braços pela " sharia".



6

Ao Mia: o feminino de livro é.... livra?!


7


Se até a Lua perdeu a memória como
vou festejar o meu ramadan privado?



Beira, 1992
Heliodoro Bapista


in " Nos Joelhos do Silêncio"
Editorial Caminho

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11:24 da manhã - chuva

Fotografia de Miguel Lopes

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quarta-feira, julho 27, 2005

10:09 da tarde -

Chuva que tenta diluir
a progressão da sombra
nas janelas; inutilmente;
porque a tarde,
substância escura, inicou
o seu trabalho; contrastar
os anúncios de flúor; entregá-los
à noite ja legíveis;
musgo a crescer sem o suporte
das paredes; como se brotasse
num banho de vapor,
por entre névoa mentolada;
a luz há-de fluir,
compacta, no interior.

Carlos Oliveira in Trabalho Poético

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segunda-feira, julho 25, 2005

11:43 da manhã - Uma solitária nota musical para Hölderlin


Se eu perder a memória, que pureza.
Nas ameias azuis vai-se arrastando a tarde,
retém seu ouro em malhas distantíssimas,
filtra a luz por uma fenda última, estende-se, denuncia-me
como um arco que treme sobre o ar aceso
Que esperava o silêncio? Príncípes da tarde, que palácios
pisou o meu pé, que nuvens ou recifes, que país estrelado?
Durou mais do que nós aquela rosa morta.
Que doce, ao ouvido é o rumor com que giram os planetas da água.

Pere Gimferrer
in edição antologia da poesia espanhola contemporânea
trad. josé bento
edição assírio & alvim

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11:23 da manhã -


fotografia de Marino Parisotto in art.transindex.ro



Pôr-do-Sol


Sabes qual é o mais feroz tormento?
é o de um orador tornar-se mudo;
o de a um pintor, p'ra quem a forma é tudo,
tremer a mão; perder o seu talento

ante os néscios, e é, nesse momento
que em combate se torna mais rudo,
ficar só, sem lança sem escudo,
p'ra ao inimigo dar contentamento.

Ver-se envolto entre as nuvens do ocaso
em que enfim nosso sol desaparece
é pior que morrer. Terrível passo

sentir que nossa mente desfalece!
Nosso pecado é tão horrendo acaso
que o martírio de Luzbel assim merece?



Miguel de Unamuno

in edição antologia da poesia espanhola contemporânea
trad. josé bento
edição assírio & alvim



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domingo, julho 24, 2005

10:04 da tarde - ... Carta/Poema a Eugénio de Andrade....

Eugénio


quando já o tempo não agita a tua ânsia

de voo para um desconhecido de carne a vaentura

mas é sobre a pele um ácido mel

coagulando

nas rugas do amor desiludido ( já sem mãos

confinando aos olhos como grito na boca pregada)

- quando a àgua outrora límpida e dura é sempre

doutro rio e não há torre

que possa erguer-se nesta estagnação de charco

porque os mapas que querias evitar têm caminhos

entre desertos e ruínas - quando

sobre cabedelos onde o rio penetra o mar

te roça um amor adolescente e se perde

ignorando que nascentes de alegria

se demoram ainda em teus dedos na paciente

trama do desejo - quando uma voz de criança

traça pequenos círculos de luz no Jardim de S. Lázaro

e na sombra de folhas e veias

canta só eu

era o filho que me restava - Eugénio sentes

então a poeira tecendo no fundo de cada minuto

a vitória absurda do silêncio

- que esperança

pode esconder-se ainda no logro das palavras?

de nada servem as lembranças

se a àgua que buscavas é solidão de olhares

que não encontram um corpo se o fogo

se perdeu dos cardos eo solar impudor dos espinhos

não pode ferir ( que pastores

de outras margens ou marinheiros de outros mares poderiam

deixar marcas de inocência no desespero

dos anjos distraídos que te invadem as ruas?) repara

Eugénio na desdenhosa humildade de um cão que se deixa

morrer já sem dono - se o dono é o amor

é a sabedoria na fuga que nos lega ou uma áspera liberdade?

as palavras pesam eo ritmo obscuro dos simbolos

às vezes oprime

Até desocultar no sangue uma impensada

virgindade - mas no corpo está ausente

e calada a enredada melodia de músculos e alentos

que no verso fixamos quando já está perdida

( estava no desejo a poesia - como

matá-la? ) apenas

no amor somos mais sós que na solidão

Post scriptum :

- Agora a relva é branca como a loucura -

pássaros cegos batem contra os muros

e os rapazes matam-nos sem um sorriso sequer

( é o mundo que morre ou apenas um homem

no labirinto sem saída?) se o tempo

não tivesse esta fúria de nos correr em cima

se pudesse deter-se a descansar embalado

por esta ternura abandonada nas esquinas

da nossa vida talvez o fluir do mar

e dos dias

pudesse deixar um silêncio cheio de palavras

( o sulco luminoso que tem início e fim num corpo)

- mas não há incêndio no futuro para quem tudo queimou.

Carlo Vittorio Cattaneo in Três Solidões - " Cartas - poemas para Mécia de Sena, Eugénio de Andrade e Herberto Helder- Contexto Editora, Roma 1981

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sexta-feira, julho 22, 2005

4:49 da tarde -


fotografia de Lewis Hine in artphogallery.or


Improviso Com Sugestões Eliotianas


O tempo futuro que imaginais
Nas noites em claro dos que envelhecem,
Brotando subreptício por entre evasivas
Dos que da vida nada já podem provar,
Como erva por entre as pedras da calçada
Gasta pelos passos de quem passa
Indiferente ao tempo presente,
Amarrado ao tempo passado
Como mistura de água brotando da rocha
E vinho do cacho amadurecido
Por um derradeiro sol de Setembro
Que mal aquece a esperança
De quem viu o campo devastado
Pela medonha cavalgada.

Tomás Kim

in " cadernos de poesia
edição fac-similada dirigida por
Luis A. Carlos/ Joana Matos Frias

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3:50 da tarde - Ode à Beira- Nada




( tendo lido um poeta lírico armado em poeta heróico)


Eu leio estes poetas com imensa amargura.
É tão verdade que todos desejamos
( todos, menos quem deseja o sossego dos outros)
a liberdade mais perdida a cada sonho com ela
como flor tranquila vicejando algures
onde contemplá-la é só chilreio vago
do campo antigo!...Eu espero, eu vejo, eu quero,
mas há em tudo isto um travo exacto
a deslealdade, a fuga, a evasão, e não a luta,
um travo a imaginar que a outra humanidade
será melhor apenas para nós sermos os mesmos
com auditório melhor. Tudo será igual,
no fundo querem tudo igual, pois quando gritam
por este vácuo de universo e acaso,
delírio de estruturas consumindo-se
voltadas para um fim que não possuem,
pois quando gritam (e dizem nomes belos,
imprecações brilhantes, vocativos mágicos)
por este claro monstro que em mim trago,
de que não há cesariana que me salve,
não é por ele que chamam; não procuram
saber que existe, desconfiam, temem,
agarram-se uns aos outros, temerosos,
fingindo rir da ingenuidade aflita
dos que, outrora, se curvavam solícitos,
sonâmbulos, seguros, para a poeira do mundo,
nela beijando os sinais, patadas, marcas,
dos deuses que brincavam aos humanos,
como os humanos a imortais brincavam,
brincavam a invisíveis, a sem peso,
primeiro ainda orgulhosos de que as coisas
fossem a pedra com que faziam outras,
depois já tristes de que as pedras fossem
como o regresso ao ventre entressonhado,
mais tarde atentos à evidência de estar vivos,
e quase agora aflitos sem saber porquê.
Não, não, toda esta gente é ignóbil, miserável,
não posso deixar de os ler com imensa amargura.
Passam cantando inúmeros disfarces
contra a morte dos deuses e das leis, das classes,
de tudo o que por séculos inventou palavras
com que eles cantam; e, no calor do canto,
há um consolo atroz, gramatical, de sobrevida,
relento a vida viúva e mal lavada.
Não! tudo isso é falso! Acudam que é traição!
Ainda é tudo o mesmo, a mesma teatrada,
a margem da verdade que não é a verdade,
se não há razões, se nós, os que sabemos,
é que andamos cá por ver andar os outros?
Que fidelidade eu devo, mais que a de voluntário escravo,
a novas grades com que se preparem
para prender quem grite que não há uma causa,
que não há um fim, nem uma razão,
que de nos agarrarmos uns aos outros
não nasce outra razão além dos gestos?
Confessai, por uma vez, cobardes,
que até por corbadia particais heroismos!

confessai por uma vez, que não tendes coragem
para lutar alegremente e sem motivos!
confessai que não sabeis amar a vida,
que não a amais senão na dor dos outros!
Confessai, confessai, apenas uma vez!
E, se depois cantardes, se ainda então
o sexo a mais ou a menos que vos subiu à garganta
ainda for o pipilar das avezinhas,
por entre os ramos mentais de um arvoredo
que os montes não conhecem, nem os rios
reflectiram nunca, nem os homens viram,
então, sim, então podereis ser líricos.
Sereis só líricos sem máscara. Repipilareis
na doçura da tarde( ai como é doce!),
no silêncio da noite ( ai como é escura!),
no estalido róseo da madrugada próxima...
......................................................................


Alto! Alto aí! Não vos inspireis! Deixai nascer o Sol!...
Deixai que ele nasça, que, sem todos vós - el' nasce.


20/7/48

Jorge de Sena

in " cadernos de poesia"
Reprodução fac-similada dirigida por
Luís A. Carlso/ Joana Matos Frias
edição campos das letras

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quinta-feira, julho 21, 2005

11:56 da tarde - solitude












Fotografia de Celso Simões Mendes

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10:24 da tarde - ... a Mécia de Sena...

Mécia

procuro escrever-te dentro de uma noite cercada
(arreganharam-se-me os dentes) pelo frio que trouxe
a Roma um silêncio de neve ao longo das ruas
onde me perde o mar
(com um rosnar cavo na garganta) e pelas caveiras
- um exército quase - de amigos
versados ao assassínio (a rapariga de péssimas leituras
naquele dia o lobo solitário chamava-me) Mécia
também tu conheces o rasgão de alma quando
perdemos alguém ( e não só a morte nos traz lutos definitivos ) sabes das noites
rasgadas pela a ausência enquanto uivo não vem
libertar uma justa loucura mas pesa dentro
e cheio de unhas agarra-se àquele nevoeiro
onde nem o próprio sangue tem luz que possa evocar
sombras fermentes e máscaras

pergunto-te

mulher telúrica mãe de todo o filho sem mãe
onde encontras tu o amor no fundo
deste horror de lembranças? onde enterras as tuas incríveis raízes , não te mata a perda absoluta? encontraste a porta
para que o deserto te consinta
que sejam mortos a viver a tua vida? ( o sono que não chega e os fantasmas negros da ansiedade como
cachos de uvas da infância esperam
que descubramos existir) Mécia eu procuro
palavras irrazoáveis
para falar das mãos ainda pasmadas por um calor
mais confiança na entrega e fogo indefeso de olhares
do corpo carícias intimidades veladas
pelo hábito procuro exprimir o confuso
sentir-se em dois enquanto a solidão corrói
cada minuto na sombra que sobe nos quartos
onde trazemos os nossos gestos inutéis
se falta quem os fixava ao tempo
quase borboletas mortas por amor (aquele cão
branco, aquele cachorro com a mancha preta no focinho na festa de me ser filho
caía a cada degrau- eu era menino
e arrancaram-mo) Mécia
talvez seja orgulho escrever-te palavras quando
nem o próprio sonho pode quebrar-te tão sacudida por dentro
que perscrutas
cheia de ternura qual absurdo intervalo
entre dois nadas
nos é dado viver
é fome
só de enganos não domados este rosnar
que arreganha os dentes ou o júbilo terrível do lobo
sem alegria por ciência da morte? é a violência
do amor , eu creio que nos leva
para além do luto a esquecer as chaves da nossa
fragilidade e os outros equivocando-se vão abater
a suposta fortaleza para deixar nu
um simulacro - não sabem: o covil
( o último ) nos esconde com a antiga paciência
de quem se destrói a cada dia inventando-se um sorriso.

Carlo Vittorio Cattaneo In Três Solidões " Cartas / poemas para Mécia de Sena,Eugénio de Andrade e Herberto Helder " - Contexto Editora

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9:38 da tarde -

" dura d' ansioso la nuova solitudine e in alto
dentro la casa irrompe come un vento la poesia"
" dura de ansioso amor a nova solidão e ao alto
dentro da casa irrompe como um vento a poesia"

Carlo Vittorio Cattaneo in Três Solidões- Contexto Editora, Roma 1981

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2:16 da manhã - Alain Bosquet


(fotografia de Joel Meyerowitz)




E, por fim ...


Deus disse: "Se tal vos repugna,
não acrediteis em mim,
mas ficaria feliz
se encontrásseis algum encanto
num ou noutro ser da minha lavra:
o búzio, onde dorme a música,
o plátano, que cresce para lá das estrelas,
o mar, que diz cem vezes: "Eu sou o mar."

Sinto-me muito humilde:
o meu universo não é mais belo
do que um poema perdido."


"O Tormento de Deus" de Alain Bosquet

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quarta-feira, julho 20, 2005

5:47 da tarde -

(...)
O lugar de Cristo é entre os poetas. Toda a sua concepção da Humanidade foi concebida pela imaginação e só por ela pode ser compreendida. O que Deus foi para os panteístas, foi o homem para ele. Foi o primeiro a conceber as diferentes raças como uma unidade. Antes da sua época existiram deuses e homens. Só ele viu que nas colinas da vida apenas Deus e o Homem existiam, e sentindo pela harmonia do misticismo que ambos foram encarnados em si, a si mesmo se chama filho de Deus ou do Homem, consoante a sua disposição de espírito. Mais do que qualquer outra personagem da História, Cristo acorda em nós a disposição do maravilhoso para o qual o romance apela sempre. Ainda há para mim qualquer coisa de inacreditável na ideia de um jovem camponês da Galileia imaginar que podia suportar nos seus ombros o fardo do mundo: tudo o que já havia sido feito e sofrido, tudo o que havia ainda para fazer e sofrer; os pecados de Nero, de César Bórgia, de Alexandre VI, daquele que foi imperador de Roma e sacerdote do Sol, os sofrimentos cujo nome é Legião e habitam entre os túmulos nacionalidades oprimidas, crianças empregadas em fábricas, ladrões, prisioneiros, vagabundos, todos os que estão calados sob opressão e cujo silêncio só por Deus é ouvido. E não só imaginá-lo mas, na realidade, levá-lo a cabo, para que todos os que hoje comunicam com a sua personalidade, ainda que não se inclinem diante do altar ou ajoelhem perante um padre, de qualquer modo sintam que a fealdade dos seus pecados é afastada e revelada a beleza do sofrimento.
Eu disse que ele enfileirava com os poetas.(...)

Oscar Wilde
in " de profundis"
edição Relógio D'Água.

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2:45 da tarde - Ansel Adams



" White Branches, Momo Lake"

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1:54 da tarde - horizonte variável

Sobre o horizonte variável
que o sal assalta, restituindo
a tudo isto
a luz do início;
alcançam para lá da neve
uma aridez salinizada;
a atmosfera enruga.se
como os metais crispados,
sob fremito
mais corrosivo que o do vento;
a luz deixa de ser a mesma:
devora-se a si própria,
amarelece o retrato pouco a pouco;
enquanto o magnésio
entra no seu crepúsculo;
e a imagem,
exposta a um ácido excessivo,
começa a decompor-se.

Carlos de Oliveira in Trabalho Poético

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1:10 da tarde - A Festa - II

O corpo sabe ao cheiro das plantas vivas
limpíssimas de borco sob a chuva
e manhã cedo dança e bebe e canta
até ao escurecer e a noite ruma
a mais canto a mais vinho e a mais dança
ao despegar das vestes já molhadas
de tanto ardor e fresco fogo límpido
na pele colada à pele e a vida espalha
cintilações do sangue os reflexos
de quem chegou ao cume em extremos bardos

é quando o espaço quebra e o corpo ganha
na órbita de tudo a sua cor
e todo o olhar se espanta e não sossega
em súbita certeza de acordar:
como é possível sol se sol formal
se só sinal de tempo ou dia morto?

é quando o corpo dança e esse corpo
descobre a própria voz feliz retorno.



João Rui de Sousa

in " variações sobre um corpo"
antologia de poesia erótica contemporânea
editorial nova, porto

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10:08 da manhã - ... os nossos corpos...

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9:49 da manhã - [ Era a primeira vez...]

Era a primeira vez que nus os nossos corpos
apesar da penumbra à vontade se olhavam
surpresos de saber que tinham tantos olhos
que podiam ser luz de tantos candelabros
Era a primeira vez Cerrados os estores
só rumor do mar permanecera em casa
E sabias a sal E cheiravas a limos
que tivessem ouvido o canto das cigarras
Havia mais que céu no céu do teu sorriso
madrugava de tudo em tudo que sonhavas
Em teus braços tocar era tocar os ramos
que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo
É preciso afinal chegar aos cinquenta anos
para se ver aos vinte é que se teve tudo

David Mourão - Ferreira in O Algarve em Poemas - Ediçoes ASA, Junho 2003



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terça-feira, julho 19, 2005

10:40 da tarde - Mário Cesariny



"queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma."

Mário Cesariny

In " os poetas
entre nós e as palavras"
sony música ( portugal) lda
(edição assírio & alvim)

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10:02 da tarde -


Ton Dirven in art.transindex.ro

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9:31 da tarde - [ as primeiras coisas eram verdes ou azuis...]


as primeiras coisas eram verdes ou azuis, como água pela cintura;
duras esmeraldas umas, outras animais, vibrantes
quando lhes toca a luz; o mais das vezes encostados
à parede do estábulo, com grandes olhos húmidos
e um precipício ao fundo ( e as nuvens são o seu bafo).
e no entanto, visto à distância exacta, tudo se transforma:
o cenário do mundo é só um infinito espaço
cheios de coisa nenhuma, e a luz o puro efeito
de dois deuses menores que marcam o compasso.

é certo que, na chuva, o teu corpo anuncia
com seu distante olhar, um prazer que não cabe
na estreiteza da fábula; um céu, não duvidemos,
acolhe o terno gesto que não foi.
já na parede a meio branca traço, a contragosto,
o tempo mal passado que apodrece, e numinante encosto
ao tampo de água o bico ou pincel fosco
onde surgira, de repente, nada.

os portões oscilam, e a erva adiante, se nos aproximamos.
claramente vejo como te divides
num infinito número simultâneo de mundos.
as palavras celebram, mudas, a água na paisagem,
verde ou azul, conforme desejaste.
avanço imóvel, descalço sobre a erva,
e quando fecho os olhos invade-me a luz por dentro
compacta, completa, como as coisas primeiras.

António Franco Alexandre


in poemas ( "os poetas,
entre nós e as palavras"
assírio & alvim, 1997 sony música (Portugal) lda

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3:15 da tarde - A Água Plena...

Na beira mar, No molhe.
As mãos abertas para a chuva
cáustica.Tudo o que mortifca.
O que revivifica.
Chuviscos das nuvens do universo.
O corpo desce
atè à água plana.

Nada flutua na literatura.
Só o imaginário.
O som e a letra liquefazem-se.
Sinto a névoa fundente. O dia a dia funde.se. A fusão
é a minha paz.
A água e a alma.


Fiama Hasse Pais Brandão In âmago I ,Editora Limiar

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segunda-feira, julho 18, 2005

10:24 da tarde - Eros


Diego Uchitel in art.transidex.ro



O meu olhar descia como um íman
Ao centro mais ardente do t
eu corpo.

Alberto Lacerda


in "Variações sobre um corpo"
antologia de poesia erótica contemporânea
editorial nova, porto

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10:12 da tarde - Véspera

Seríamos dois faunos sobre a praia,
Batidos pelo vento e pelo sal,
Tendo por manto apenas a cambraia
Da espuma
E, por fronteira,
O areal.

Gémeos de corpo e alma,
Ver um era ver outro:
A mesma voz,
A mesma transparência,
A mesma calma
De búzio, intacto, em cada um de nós!

Felicidade?
Não!
Inconsciência!

E as nossas mãos brincavam com o lume
À beira da impaciência
Ou do ciúme

Pedro Homem de Mello


in " Variações sobre um corpo"
antologia de poesia erótica contemporânea
editorial nova, porto.

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10:02 da tarde -

De "Eléctrico"

( num carro para Campolide. Dia sexual)


Um mulher de carne azul,
semeadora de luas e de transes,
atravessou o vidro
e veio, voadora,
sentar-se no meu colo
na nudez reclinada
dum desdém de espelhos.

( Mas que bom! Ninguém suspeita
que levo uma mulher nua nos joelhos.)



José Gomes Ferreira


in Antologia " Variações sobre um corpo"
Antologia de Poesia erótica contemporânea
editorial nova, porto.

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10:00 da tarde -


David Hamilton in art.transidex.ro

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9:36 da tarde - Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drumond de Andrade in Jornal da Poesia

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domingo, julho 17, 2005

9:13 da tarde - Romance LXI ou Domingos do Alferes

Quando sua mãe sonhava,
como uma simples menina,
já falava nesse nome
DOMINGOS.
Domingos Xavier Fernandes,
que era o nome de seu pai.

Quando a menina dizia,
agora já mulher feita,
DOMINGOS,
- era Domingos da Silva
dos Santos. Outro Domingos.
Domingos com quem casou.

E quando, depois, sorria,
estudando para mãe,
DOMINGOS,
Domingos, - ia dizendo.
E assim ao primeiro filho
Domingos chamou, também.

Esse nome de Domingos
por toda parte o seguira.
DOMINGOS:
na infância ao longe deixada,
na adolescência perdia,
em todo tempo e lugar...

- Ah, Domingos de Abreu Viera,
quem batizará meu filho?
DOMINGOS,
meu amigo poderoso,
as coisas vão levar volta,
quem sabe o que vou passar!

Domingos sobre domingos
nas folhas dos calendários:
Domingos
- para a carta de Silvério,
para a subida à Cachoeira,
para a denúncia vocal...

Ai! de domingo em domingo,
chega ao caminho do Rio.
DOMINGOS!
Encontra Domingos Pires:
"Leva pólvora, Domingos,
que a venderá muito bem!"

Dominogs conta a Dominogs...
(É nome predestinado!)
DOMINGOS!
Já se desenrola a história...
Já vem da Vila à Cidade,
do Viscond ao Vice-Rei...

E, como vê sentinelas
sobre os seus passos rodarem,
DOMINGOS!
Sobe por aquela escada,
envolto na noite escura
como um criminoso vil.

E era a casa de Domingos,
na Rua dos Latoeiros:
DOMINGOS!
Entre as imagens de prata,
banquetas e crucifixos,
Domingos Fernandes Cruz.

Era a casa de Domingos...
e era em dia de domingos...
DOMINGOS!
- último dia de sonho,
que, agora, os domingos todos
são domingos de prisão.

Certa manhã tenebrosa,
no campo de São Domingos,
DOMINGOS!
(Sempre o nome de Domingos)
lhe apontaram a alta forca
de vinte e cinco degraus.

E num dia de domingo
seus quartos foram salgados.
DOMINGOS!
- despachados para os sítios
onde alguém o tinha ouvido
falar de conspiração...

Lá vai cortado em pedaços...
lá vai pela serra acima...
DOMINGOS!
Domingos Rodrigues Neves,
com os oficiais de justiça,
tranquilamente o conduz.


Cecília Meireles In Romanceiro da Inconfidência, Círculo do Livro S.A - 1975

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sábado, julho 16, 2005

8:15 da tarde -

Fotografia de Carlos Rocha Posted by Picasa

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7:32 da tarde - As Duas Chaves

doou-te duas chaves o encoberto
uma de prata secreta.................outra de ouro silente
uma de macho enroupada.................outra de fêmea despida
enrolada como serpes
ao membro erecto de Hermes
a de prata um pouco bruta.................é a emoção que estrilha
sem rédeas de compostura
e a outra.................limada.................em triângulo rebrilha
filhando ao ouro a perfeição
..........................................................nunca te vi tão radiante
assim contente de ti
a cara larga a escama apesar do rodermill
e os olhos.................................................esses vitrais
abrem rosáceas de fogo no carvão da pedra
Maria Estela Guedes, in "A Poesia serve-se fria!", 2005

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7:05 da tarde - Escada


Maria Estela Guedes, *
in
www.triplov.com Posted by Picasa
gota a gota
o mercúrio sobe a escada
ora se senta ora pára
as aladas pernas de ouro
cada vez mais chumbo
e chega lá
ao ovo
na febre do idioma
na ânsia de além
ao mais que a tudo soma
valor que não conhece bem
mas faz florir a escada
Fragmento de "heliotropolis.pt"


*nasceu em Britiande ( Lamego ). Escritora, investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa. Autora, entre outros, dos livros "Herberto Helder, Poeta Obscuro" ( 1979 ), "Eco, Pedras Rolantes" (1983 ) e "Carbonários: Operação Salamandra: Chiogloça Lusitanica Bocage, 1984", em colaboração com Nuno Marques Peiriço ( 1998 ).
Está, igualmente, presente na antologia "A Poesia serve-se fria!", II Bienal de Poesia de Silves( 2005 ).
www.triplov.org

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5:34 da tarde - O estrangeiro

- De quem gostas mais, diz lá, homem enigmático? de teu pai, de tua mãe, de tua irmã, ou de teu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Dos teus amigos?
- Eis uma expressão cujo sentido até hoje ignorei.
- Da tua pátria?- Não sei a latitude em que está situada.
- Da beleza?
- Amá-la-ia de boa vontade, divina e imortal.
- Do oiro?
- Odeio-o tanto como vós a Deus.
- Então que amas tu, singular estrangeiro?
- Amo as nuvens... as nuvens que passam... lá longe... as maravilhosas nuvens!

Charles Baudelaire


in " O Spleen de Paris -
pequenos poemas em prosa"

trad. António Pinheiro Guimarães.
edição Relógio D' Água

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sexta-feira, julho 15, 2005

10:43 da tarde - Explosão - 1975

Pintura de Clarice Lispector

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10:09 da tarde - Estrela Perigosa

Estrela perigosa
Rosto ao vento
Marulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.

No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:



excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.


Clarice Lispector in "Jornal da Poesia "

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9:51 da tarde - Quero escrever o borrão vermelho de sangue

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.


Clarice Lispector in " Jornal da Poesia"

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6:49 da tarde - Pássaros das Ilhas



( foto de Krysta ElLrik)



Pássaros das ilhas: no vosso voo
há uma vontade,
há uma arte secreta e uma divina ciência,
graça de eternidade.

As vossas evoluções, academia expressiva,
sinais sobre o azul,
levam ao Oriente fantasia, ao Ocidente ânsia viva,
paz ao Norte e ao Sul.

Eis perante os vossos olhos
a glória das rosas e a inocência dos lírios,
eis perante as vossas asas líricas as brisas de Ulisses,
os ventos de Jasão:

Almas doces e herméticas que ante o eterno problema
sois, em número veloz,
o mesmo que a rocha, o furacão, a gema,
o arco-íris e a voz.

Pássaros das ilhas, oh, pássaros do mar!
vossos voos, sendo
bênção, dos meus olhos, são problemas divinos
da minha meditação.

E com as asas puras do meu desejo abertas
para a imensidade,
imito os vossos círculos em busca das portas
da Verdade única.

Ruben Dario (Nicarágua, 1867-1916)

In, O Mar na Poesia da América Latina (Antologia)
tradução de José Agostinho Baptista

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6:41 da tarde - Contradições Habituais

As palavras – disse – as palavras silenciosas, nossa única companhia;
procuramo-las, prolongamo-las, prolongam-nos – a paisagem aprofunda-se;
descobres não só os ossos, mas também belos corpos, e asas –
veste-las, elas vestem-te; volatilizas-te; partes. Encontram-nos atrás das portas,
atrás de paredes altas, bolorentas. Tu sabe-lo –
este é o único meio de comunicação. O tabique de madeira
a separar os quartos transforma-se em vidro. Vês as palavras
cair sobre a mesa nua da cave com um ruído cavo
juntamente com os insectos da noite à volta da lâmpada clandestina.

Yannis Ritsos (Grécia- 1909-1990)

Trad. de Custódio Magueijo

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quinta-feira, julho 14, 2005

11:53 da tarde -


Esquife. Fotografia de Duarte Belo Posted by Picasa

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10:16 da tarde - Ano do Centenário de Erico Veríssimo


Erico LopesVerissimo nasceu em Cruz Alta, a 17 de Dezembro de 1905 e faleceu em Porto Alegre, em 28 de Novembro de 1975.
Filho de Sebastião Veríssimo da Fonseca e de Abegahy Lopes Veríssimo, estudou em Porto Alegre, tendo, mais tarde voltado a sua terra natal onde começou por trabalhar num banco e, mais tarde, como sócio, numa farmácia. Entre os remédios e o namoro com Mafalda Halfen Volpe, com quem acabaria por casar, em 1931, dedicava as horas vagas à leitura, principalmente, de Ibsen, Shakespeare, Georges Bernard Shaw, Oscar Wilde e Machado de Assis, que, em muito, influenciaram a sua formação literária.
Iniciou-se, em 1928, com o conto Ladrões de Gado , e, em 1932, com a edição de Fantoches começa a sua brilhante carreira literária que, em 1938, alcança repercussão nacional e, mais tarde, internacional.
Foi, porém, com Olhai os Lírios do Campo, em 1938, que o seu nome se tornou, verdadeiramente, popular.
Os seus livros encontram-se traduzidos e publicados em quase todo o mundo: EUA, Inglaterra, França, Itália, Alemanha, Áustria, México, URSS, Noruega, Holanda, Hungria, Roménia, Argentina,etc.
Recebeu variadíssimos prémios, nomeadamente, o Prémio Literário da Fundação Moinhos Santista ( 1973 ) pelo conjunto da sua obra.
Um dos seus trabalhos mais notáveis é o Tempo e o Vento, romance dividido em três partes O Continente, O Retrato e O Arquipélago - começado em 1949 e terminado em 1962.
Destacam-se, igualmente, o Senhor Embaixador ( 1965 ), O Prisioneiro ( 1967 ) e Incidente em Antares ( 1971 ). Faleceu qaundo escrevia o segundo volume de Solo de Clarinete, o seu livro de memórias Posted by Picasa

Poema de Carlos Drummond quando da morte de
Erico Verissimo

Falta alguma coisa no Brasil

depois da noite de Sexta-feira

Falta aquele homem no escritório

a tirar da máquina elétrica

o destino dos seres,

a explicação antiga da terra.

Falta uma tristeza de menino bom

caminando entre adultos

na esperança da justiça

que tarda - como tarda!

a clarear o mundo.

Falta um boné, aquele jeito manso,

aquela ternura contida, óleo

a derramar-se lentamente,

falta o casal passeando no trigal.

Falta um solo de clarineta.

( enviado por Rui Mendes )

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10:08 da tarde -


Ilha Posted by Picasa

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9:47 da tarde - Desabafo

Não espero amor nem glória de ninguém:
Espero terra e cinza,
Os blocos do abordar lá na doca esquecida,
E ao longe o rolo branco,
Livre e amargo do mar
Que traz com água e indiferença
O cadáver e o frasco azul do adeus marinho.
Como as gaivotas levo água e ferro no bico:
Por isso passo e fico.
Naquilo que outros vêem um vago talento e sorte,
Outros: "belas qualidades, mas purgativo, aquele magnésio..."
Levo coisas tão simples como o meu sonho e a minha morte:
O menino que eu fui, parado nos meus olhos,
O garoto que eu fui, e os sinos que rachei à pedra ainda a vibrar,
Minha mãe no que tenho de condescendente e feminino,
Meu pai na força e pressa do meu próprio coração.
Não espero amor nem glória de ninguém:
Espero a terra e a lisura
Da pá que ma estender,
Além de erva ou torrão de calcadura
E os filhos velhos, graves,
Com um bocado de pão, a minha memória e uma acha a arder
Tudo isto espero com a força e a determinação da esperança,
Com as lágrimas do fraco melodioso
Mas cheirando a esturro, a pulso,
Sozinho e perigoso.
Terei vestido e pão no mar e nos seus fundos
E nos peixes de cor as flâmulas de guerra;
Hei-de cravar Sol no meu destino,
Dar a Lua a roer aos que duvidaram de mim,
E transparente como as baías me verão,
Que, vendo-as mansas, me verão a mim.
Mas se acharem as baías bravas, que se aguentem!
Quando meu tio foi para Manaus, lá me aguentei!
Ah, baías salvadas e coléricas,
Açores de ronda ao vagalhão partido!
Morrer é bom quando se deixa
Algum pecado redimido.
Vitorino Nemésio, ( 1901-1978 )

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quarta-feira, julho 13, 2005

10:15 da tarde - CREATIO



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9:51 da tarde - CREATIO

Dia anterior ao primeiro............... tão escuro............ Ou estão cegos ainda os olhos?...............

Frias rosas de ferro duram lentas pela eternidade adentro

porque as levaste ao forno a fortificar....................... São estas mãos.............. prontas para animar
a


matéria primordial................. Treme cada uma em seu silêncio............ E depois a poderosa máquina


rodopia.......................... descendo e subindo pelos escadórios do caos


sozinha.............................................. sem saber os comandos a usar


para as coisas se sonharem e do sonho se erguerem...........................


reais.............................. Vejo daqui uma giesta com uma flecha nos dentes


é soberana ideada pelas palavras


e tantas como essa............ agachadas sob a ventania............... deixam cair casulos amarelos


quando se pensa nelas..................................... Daqui à morte é uma caminhada curta


dobra-se essa esquina num clique de câmara fotográfica.................................................


E então ficam elas a dizer adeus com lenços de fina escarlata


como qualquer amiga que à fonte levou e a talha deixou cair

ao ver vê-la o namorado......................... Pegas no boneco de barro e beijas-lhe a boca


elementarmente............. sem qualquer intenção procriadora................. apenas para que a palavra


se liberte por aquela vagina......................... É um sopro.............. Um cristal


em que se guarda a vida....................... No rosto profético......... os olhos rasgam-se


agora numa laguna de ignorância.............. Abismam-se no céu de carmim...................... Estão


deitados debaixo de bandos de flamingos que migram para azul..........................


Sábios os animais que migram..........as tartarugas marinhas......... então................


Como se orientam as palavras................ como sabem para onde ir e a que praia regressar


fechando o sentido do que nem se adivinha


na carta celeste em que ainda não nasceram os astros?


Não sabem................ Orientam-se sem saber como nem porquê......... essa é a sintaxe da sua


sabedoria............................ E nós também não............... embora escrevamos que sim


em imensos tratados que falam de dias para além do sétimo


sem termos saído ainda do primeiro................... Afora isso............ para que precisariam elas


de sair num sopro


as palavras............... se para sempre ficarão de respiração cortada.................


ardendo em beleza para cima....................


esplêndidas de procurarem o alto por em baixo não se acharem?


Ir para aqui ou para acolá........... quer dizer isto ou aquilo............. tanto faz............ se a mira


falha o sentido.......................... Nesta altura


a página geme sangue como qualquer ferida......... e o rato deixa atrás dele


um depósito de cristais salgados................ Quanto às abelhas............ as nascidas


no Reyno de Ys........... sibilam à volta do pensamento como um favo.................


Retornam ao dia anterior ao primeiro, esse em que nem caos havia.............. A ver como é


como germinavam as rosas...................................


Antes do primeiro dia havia um grande ímpeto de acção


desnorteado....................... À medida em que a acção ia desenhando


as formas que as coisas haviam de tomar


a bebedeira ia-se agarrando às suas fraldas..................................


Porque as palavras alucinam............ são assim................. um leite de estrelas................................


Deus ou Isso................ seja lá o que for target da questa............... falta como alimento


do espírito..............................


Só por dizê-lo

eis que se move sob as águas.................... É um faisão ciberal................. eléctrico............ um


espinho de ponta seca.......... o espírito........................


Deixa uma biblioteca de pixéis atrás, afogados em tintas visionárias..................


Escrevem textos claros como só as sibilas sabem ao contrário


quando observam folhas de chá, as entranhas dos pássaros............... ou o fumo interpretam


nos seus oitos de um cigarro fumado antes do outro............... E tudo isto tem a beleza


de uma cigana que na orelha tilinta


abalada por um raio................................. Entre a rosa e o perfume roda o tempo


redondo................................. seja em oito


ou em sete dias de desenvolvimento embrionário


antes que do ovo entre ervas aromáticas consumido


vejamos eclodir o monstro......................................... Porém há sempre o recomeçar


e entre nada e tudo a vida é esse pássaro


das cinzas volvido numa brasa............................ Eleva-se nos ares a estrela corredia


o pulso acelerado


pelo bafo da maresia........................ ascende....................movida por motor a jacto.....................


seja isso ou energia nuclear


a luz cavalga a treva como fêmea magnífica...................


É uma flama


uma bailarina de poeira vermelha no ventre e sob as asas...................................


Dão-lhe por isso o nome de flamenco...........................


Deus nessa poeira com água molda a pasta.................. morena com formas


de gente................ enquanto no céu branco um astro observa


As mãos tremulam abertas sobre os joelhos


sem saberem o que fazem.................... apenas impelidas como lamparinas....................


Suspiram por elevar uma árvore................ o voo.............. um poema ou paraíso


nesse lugar que habitam vasto.....................................


Esta história é muito antiga................


se a imaginação a beija nos dedos................... vê as paredes do amanhã...................


São de lua as suas portas, coa-se por elas uma canção molhada.............................


Onde melhor


correm as nuvens? Nas cavernas do oceano ou nas montanhas geladas?


Tudo tem um rascunho ou os nimbos desabariam nos terraços da gravidade.........................


Porque ter uma ave pousada na língua................... ou um girassol atraído por

Mercúrio.......................

abalaria as formas que se equilibram no arame


como tigre que o salto mal calculasse


despenhando a frágil carcaça a meio do espectáculo .................... Há assim um pensamento


antes de agir.............. A rosa calculou e usou régua e compasso................. traçou esquemas


como qualquer pássaro


que as asas abre e a cauda sumptuosa


quando com tanta jóia emplumada a companheira atrai.............. Os animais sonham tanto


como eu..................... É preciso dispor de uma fogueira interior


tanto faz que o calor desenhe curvas como rectas


preciso é que lance chamas.................................. Depois............ logo se verão os suaves


acidentes da pasta argilosa


ordenarem-se num perfil de anca...................... As noites tão estreitas para quem sonha


não é verdade? É para não deixarem fugir o vento por entre as mãos


que arquitectam casas................ muros...................... cidades..........................


paisagens ordenhadas como vacas


ali demorando sem pensarem em como são domésticas e turinas e malhadas............................


E os dias............. os dias sonâmbulos.............. andam pelos telhados de mãos à frente estendidas


sem saberem que as estendem para evitar obstáculos...................................


E os obstáculos..................... Oh................... os obstáculos têm a bondade às vezes


de se desviar dos sonâmbulos


assim como os borrachos são protegidos das ninfas


que sob eles enlaçam penas e ramos finos


para que possam docemente aterrar num ninho....................................


Toda a linguagem e seu sincero discurso a afastar-se e a aproximar-se do núcleo


que toda a promessa em si contém


foi antes dos sete dias profundamente sonhada........................ Arde até ao carbono puro


cinza de diamante............................ É agora flamingo


Phoenicopterus ruber roseus


em baptismo de nome cego............... com tanta luz embora


que as estrelas nascem numa toalha..........................


estela guedes in www.triplov.com

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8:44 da tarde -


Fotografia de Carlos Rocha Posted by Picasa

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8:33 da tarde - AS MÃOS E A CASA

As mãos tocam o frio
das paredes
deixam na casa
uma réstea de luz
a memória inexpugnável
de um gesto
Agora a casa
pode ruir
transformar-se de repente
numa lembrança
de pedra
de madeira rasgada
pelo vento
ou as mãos
regressarem à terra
a voz
perder-se nas arquivoltas
do coro
que nada
nem ninguém
apagará o silêncio desse gesto
o rasto discreto
de um tal signo
Luís Serrano, in "As casas pressentidas"

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8:01 da tarde - A Casa do Outono


Luís Serrano *
Arrefece
É apenas o outono
a escrita da água
sobre as folhas
o sol dormindo
sobre a curva aberta
dos telhados
se os dedos
perpassam
sobre a música
e o veludo escurece
sobre a pele
dos violoncelos
o ar está sereno
hão-de florir no vale
as avelaneiras
e há uma casa
que me espera
tranquila
entre árvores
e serra

*nasceu em Évora em 1938.
Foi um dos fundadores da revista de Poesia Êxodo.
Tem colaboração dispersa em diversas páginas literárias e nas Revistas Vértice e Letras e Letras.
Está presente em diversas Antologias.
Publicou "Poemas do Tempo Incerto"( 1983 ), "Entre Sono e Abandono"( 1990 ), "As Casas Pressentidas" ( obra premiada com o Prémio Nacional Guerra Junqueiro, 1999 ) e "Nas Colinas do Esquecimento" ( 2004 )
Está, igualmente, presente na antologia "A Poesia serve-se fria!", II Bienal de Poesia de Silves, 2005.Posted by Picasa

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