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SILVES, outrora capital do Algarve, hoje, capital da Palavra Ardente 

terça-feira, julho 05, 2005

11:51 da tarde - Carta do combatente arrependido a sua mãe

Escrevo-te, Mãe, nesta tarde imensa, neste amanhecer.
Não me nasce o mundo na boca dos sonhos
mas anoitece a vida, anoitece a esperança
mas amanhece a vida, amanhece a esperança.
Plantaram cardos nas bermas dos caminhos
e os meus pés feriram-se de rosas
levaram-me pela mão para aquele longe
e eu fiquei aqui amarrado Àquela
que me disse agora, que me disse há pouco
já lá vão mil anos: "Vacila, mas não recues!"
E eu fiquei de pé em todos os sítios
com flores no lugar de cardos,
com crianças no lugar de flores.
Eles passaram sem olhar e olharam sem passar,
eles foram tanta estranheza.
E uma noite soavam as bandejas
soam no cair de moedas
e o criado trazia duas imperiais e um copo de leite
e eu vi a rua dentro de mim
e os canhões mataram dentro de mim.
Atirei de repente a uma rosa: os canhões emudeceram.
E o sol que iluminava e alegrava as crianças
na rua dentro de mim
foi iluminar lá fora todas as ruas do mundo
e todas as crianças do mundo.
Mas eu de novo estranheza
e uma busca de ser simples
e aquele desejo tão forte
de me evadir sem saber como
e aquele medo tão grande
dos dedos negros da mão de doença
que me abria as páginas dum livro de penumbras.
depois um galo cantou
vermelho no azul da aurora.
E nós ficámos quase quietos vendo as crianças voando
nas asas doces do vento que nascia do balouço
dos trigais que eram nossos
que eram nossos, só nossos.
E contudo, ó amizade,
havia mais de mil mãos
a dizer "minhas espigas".
E depois porque morreste
e depois porque nasceste
te mudaste de mil cores
vestido de bibe azul?
Tomaste vestes de morte
e em lugar de pomares
de hortas fartas e boas
eu me cavei de trincheiras,
voei no fumo da pólvora,
entrei em cada estilhaço
que semeou morte e vitória,
que semeou morte e derrota.
E morri feito em pedaços
na tinta azul da caneta
que mandou a minha morte
embrulhada de medalhas
para a frente dos jornais.
E fiz as crianças tremer
e os animais se esconderam
e acordaram já mortos
olhos feitos de mistério:
Fumarada! Fumarada!
que veio lá da granada.
Eu rimo aqui o poema
e ponho nele loucura.
Eu não caibo no café onde escrevo este poema.
Já parti todas as janelas
e abri fendas nos muros onde cabem dez mil homens.
Quiz pagar os estragos
mas o patrão chamou-me doido
que eu nada tinha destruído
nada tinha que pagar.
Mas eu sei que as minhas rosas
e a minha doce loucura
não cabem neste café,
não cabem neste país,
nesta Europa
neste mundo.
E disse assim ao criado:
- Traga "Café Amanhã"!
António Simões, in "Ainda, uma folha de poesia ilustrada"
número único, coimbra, 1958
( visto pela Comissão de Censura )


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