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PalavrArdente

SILVES, outrora capital do Algarve, hoje, capital da Palavra Ardente 

segunda-feira, agosto 15, 2005

10:52 da manhã -






VI

É preciso falar baixo no sítio da primavera, junto
à terra nocturna. Junto à terra transfigurada.
Tudo ouve as minhas palavras talvez irremediáveis..
Infatigável perfume se acrescenta nos jacintos, fogo
sem fim circunda suas raízes leves.
É preciso não acordar do seu ofício a luz que inclina
os meus espinhos frios, a lua que inclina
meu sangue ligado e o sangue da terra nocturna.



Agora a primavera trabalha nas galerias mais antigas,
bate os seus martelos contra um milhão de estrelas.
É uma coisa estupenda a primavera que trabalha
nas caveiras dos cavalos enterrados.
E os cavalos ressuscitam pela noite adiante.
Inspiro-me na primavera com suas grutas de água
atenta, e amo a loucura -
a cabeça gelada sobre a corrente pura do terror.


Tenho medo de erguer a voz mais alto
que o meu coração, onde uma candeia
concentra um grande silêncio.
A primavera é algo prodigioso para o meu desbarato.
Que a tristeza me ajude, que me ajudem
os dentes da minha boca, os dedos das minhas mãos,
todos os mortos, todos os que amam
entre sangue no mundo, entre as águas das noites eternas.

Sinto os ossos ascenderem às cobras da cabeça -
e a obra está nas mãos.
Terra, terra preenchida. Enquanto os outros dormem,
fundo-me no verbo interior da primavera
como o vermelho se funde na flor futura.
Tu cantavas, sangue, a torrente translúcida da morte.
Cantavas o que já se não quebra com o uso
das vozes. Porque tu eras a minha
água salgada.

Fecho os olhos para ver como as acácias se iluminam
e a rutilação ascende pelas veias.
Tomo entre meus dedos a soturna amplidão dos mortos.
Primavera, como cresces.

Desespero ou alegria, como correm
nos membros reaparecidos.
Dizer devagar na humidade da carne, evocar
tuas colinas de sal, mistério.
Tudo em volta da primavera e da noite
com uma porta no coração para passar
num tremendo silêncio.

Ressuscitar uma vez com a cara extrema
junto a líquenes inocentes.
Entre os meses saber de um só que pede
a mudez aterradora.
A primavera cresce num núcleo de ideias, as cabras
evaporam-se, reaparecem em espírito
mastigando giestas. Primavera é uma palavra
numa língua demasiado estrangeira.
Uma coisa enorme, sem música.

Falo tão devagar que mal distingo
a noite sobre a terra
da minha garganta onde os animais passam
lentamente inspirados.
Só encosto a testa ao oculto fogo dos nomes,
e o sangue alimenta a loucura
devagar, devagar - como quem ressuscita.

VII

Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar.
Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois,
ressoando violentamente pelos corredores
e paredes e pátios desta própria casa
que eu sou. Que eu serei até não sei quando.
É uma doce pancada à porta, alguma coisa
que desfaz e refaz um homem. Uma pancada
breve, breve -
e eu estremeço como um archote. Eu diria
que cantam, depois de baterem, que a noite
se move um pouco para a frente, para a eternidade.
Eu diria que sangra um ponto secreto
do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente
ou se queima como uma face. Escuta:
que a noite vagarosamente se queima
como a minha face.

Essa criança tem boca, há tantas finas raízes
que sobem do meu sangue. Um novo instrumento,
uma taça situou-se na terra, e há tantas
finas raízes que sobem do meu sangue. E uma candeia,
uma flor, uma pequena lira,
podem erguer-se de um rio de sangue, sobre o mundo -
um novo instrumento rodeado de campânulas
inclinadas, por ligeiras pedras húmidas,
pelos animais que movem no seu calmo halo de fogo
as grandes cabeças sonhadoras.

Essa criança dorme sobre os meus lagos de treva.
Pensei algumas palavras para oferecer-lhe. Esqueço-me
tantas vezes dos mistérios dessa porta.
Porque então é muito estreita com os seus espelhos
detrás, com o vestíbulo frio.
Mas é tão belo uma criança ainda enevoada,
uma criança que ascende com uma
grande música
desta rede de ossos, deste espinho de sexo,
da confusa pungência, escuta: da pungente
confusão
de um homem restrito com a sua vida tão lenta.

Essa criança é uma coisa que está nos meus dedos;
às vezes debruço-me sobre as cisternas, e as vertigens,
e as virilhas em chama.
É a minha vida. Mas essa criança
é tão brusca, tão brusca, ela destrói e aumenta
o meu coração.
No outono eu olhava as águas lentas,
ou as pistas deixadas na neve
de fevereiro, ou a cor feroz,
ou a arcada do céu com um silêncio completo.
Misturava-se o vinho dentro de mim, misturava-se
a ciência da minha carne
atónita. Escuta: cada vez a minha vida
é mais hermética.
Essa criança tem os pés na minha boca
dolorosa.

Se ela um dia adormecer com cerejas junto à respiração
pequena, e sonhar
estes imensos arcos que os séculos vão colocando
sob os astros - e se de tudo
a sua cabeça estremecer como numa loucura,
com altos picos em volta, com enormes faróis
acendendo e apagando - escuta: se essa criança
imaginar, e todas as cordas se juntarem tensamente
para que ela invente o seu próprio rio
sem nome -
será ainda que do meu sangue se erguem finas
raízes, e o tenebroso tumulto das minhas sombras
está no fundo, no fundo da sua ingénua vida,
da sua terrível vida sem remédio.
Se ela morrer, escuta, será que a minha boca
diz lá em baixo
essas majestosas e violentas palavras
dos poemas.

Essa criança que aperta as veias que iluminam
a minha garganta. Ela dorme. Escuta:
a sua vida estala como uma brasa, a sua vida
deslumbrante estala e aumenta.
Se um dia os archotes incendiarem essa boca,
e as faúlhas cercarem
o silêncio tremendo dessa pequena boca, escuta:

a minha boca, lá em baixo, está coberta de fogo.



VIII
Ignoro quem dorme, a minha boca ressoa.

Despedir-se dos meses é uma nova tarefa, um ofício inquieto.
Às vezes na noite veja as casas pequenas, as rosas que se voltam
para o subterrâneo e subtilruído da seiva. Penso nas mulheres
de pálpebras descidas, no seu espírito
expansivo que repousa. Nas crianças que enlouquecem
silenciosamente dentro da sua inocência.
Às vezes na noite ainda jovem, mas
que principia a engolfar-se no seu doce
hermetismo - tantas vezes
penso na chuva, e nos corpos, e nas pontes onde
se encontra alguém
com as cegas mãos escorrendo para o fundo
o sangue de uma imensa
inspiração. Eu sei: despedir-se dos meses
é um ofício inquieto.

As luzes, as mesas, as armas antigas, os jardins debruçados
nas violas paradas. Não sei o que há
tão veloz e tão firme
na base de um homem. Às vezes vejo
que é uma invencível doçura, um espanto
colorido em redor de uma casa, uma raiva
generosa nas mãos iluminadas.
Mas no fundo, no fundo,
é a boca desmanchada que sangra devagar.
Ignoro quem dorme, é um ofício novo e louco,
uma tarefa perene do coração
sobre quanto se ignora. Minha boca ressoa.
Os próprios meses ressoam com espelhos ardentes,
como telhados, cúpulas, livros,
como objectos ardentes.

Sobre um rosto eu diria: é um rosto? Sobre
uma vida eu perguntaria se era
a força de uma vida. Porque os ossos e as veias
vão de corpo para corpo,
e despedir-se de tudo é um ofício inquieto.
Tudo isto é uma musa, um poder, uma pungente
sabedoria. As rosas que há
nas palavras, as palavras que estão
no alto como fungos luminosos, as palavras
que gravitam em baixo
no instável momento que avança e recua
ao pé da eternidade - as mãos
rodeando uma lâmpada, essas mãos
docemente cobertas de sangue - tudo isso
disposto para a inquietação de um ofício.

Eu sei: as vigas da cabeça estremecem um pouco.
Partem-se, aqui e ali,
alguns arcos secundários. Uma vida pode tremer
do princípio ao fim. É instantâneo,
eterno. Mas é o homem
que recebe a inspiração violenta.
Ignore quem dorme, a minha boca está no fundo,
móvel, coberta de sangue, a minha
boca ressoa como as cavernas de um barco,
a minha boca da minha vida
é um ofício. O meu ofício de despedir-me
um pouco engolfado na loucura.
A minha tarefa inquieta de pôr a vida
na sua oculta loucura.

Tudo isto canta na galeria dos meses
ornados de delgados mastros
acesos. E despedir-se dia a dia
desta torrente de pequenas imagens alucinadas e mansas
é um mester ainda jovem,
algo que se aprende lentamente com as mãos
e a garganta e a testa
e o marulho das águas que correm profundamente
em lugares inacessíveis,
sem nomes nem janelas por onde surja a cabeça
coroada de violinos.
É um violento ofício, e no fundo desse ofício
violento e puro,
a boca está coberta de um perturbado sangue
masculino.



HERBERTO HELDER
in OU O POEMA CONTÍNUO,
Setembro de 2004,
Assírio & Alvim.


Fotografias : Rui Nabais
Rui Vale de Sousa
Mario Pereira




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