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PalavrArdente

SILVES, outrora capital do Algarve, hoje, capital da Palavra Ardente 

Sábado, Junho 25, 2005

8:19 PM -





O SAL DA LÍNGUA


Escuta, escuta:
tenho ainda uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.

Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.


Eugénio de Andrade

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5:42 PM - Hélio Rola & Floriano Martins





Por que o inesperado sempre chega pelo outro lado? Cresce em nós a floração do visível. Um vício de números como o anúncio de um parto. Dirás agora o estímulo planejado. A espera aos poucos desagrega tua equação existencial. A custo reparas que a circulação de ansiedade já não decifra o simples efeito físico da sombra. Já não sentes mais nada íntimo em ti. Apenas um dardo do acaso explora o cansaço em tuas veias. Refluis para onde não há mais escrita, talvez movida pela crença de que o mundo é uma coisa mental. Esta metafísica de fácil combustão emperrou o desejo, que agora se recusa a corporificar qualquer idéia. Grafites se espalham pelas ruas: infinito é o que não pode ser escrito. Já não chegas em ti por lado algum.

arte: hélio rola / poema: floriano martins
fortaleza é nossa debilidade

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3:34 PM -


Silves

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3:05 PM - minarete


em Silves vejo o meu amor.
as amendoeiras
vestem-se de branco-rosa
e o almuadem anuncia
com o muezin
a passagem do vento em flor.

os olhos azeitona
trazem o vinho no meu coração
e em bebedeiras de azul
vejo-te gazela
pulando entre as gavelas
a alegria do campo.

ó os deuses são tão pródigos.
o linho descobre-te
e anuncia o prato das delícias.

josé félix*
(inédito) 17.06.2005


* natural de Angola, nascido em 1946, em Luanda. Licenciado em História pela F.C.S.H. da Universidade Nova de Lisboa. Promove a frequência de listas de discussão poética na Rede, tendo criado a lista Escritas suportada pela página literária pessoal. Encontro de Escritas, com entrevistas, divulgação de poemas e novos poetas de língua portuguesa. Análise, crítica literária, ensaio, trabalhos feitos por alguns associados para um grupo de cerca de 200 autores / leitores de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.
Obra literária:
Geografia da Árvore (a reinvenção da memória), Col. Poéticas de Lav(r)a, Múchia Publicações, Lda., Funchal, Outubro de 2003
Antologias:
Antologia Horizontes do PD-Literatura, Brasil, 1999 Poiesis II, Poiesis III da Editorial Minerva (MNA), Portugal, 1999, 2000 Antologia "Incomensurável" - Poesia a treze, Editorial Minerva, Portugal, 2000 "Inspiração Erótica" - Antologia da Associação Cultural de Jundiaí, Brasil, 2000 ”Espelhos da Língua” da Sociedade de Escritores de Blumenau, Brasil, 2001 “Quatro Poetas da Net”, Edições Sete Sílabas, Setembro, Lisboa, 2002 ”Prosa & Verso”, Projecto Palavra Azuis, Vol.2, da Sociedade de Escritores de Blumenau. ”Encontro de Escritas” – Antologia nº1, Lisboa, 2004 Encontro de Escritas - Antologia Nº2, Lisboa, 2005


Prefaciou os livros de José Gil, Don Lackewood e Constantino Alves.“Laços & Lazos”, um livro bilingue, de José Gil e Sónia Regina“De cada poro um poema” de Antoniel Campos“Catavento” de Everardo Torrez Getz, autor mexicano.”Esfinge Lunar” de Goulart Gomes, poeta da Bahia, Brasil

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2:50 PM -

(...)
A pintura afundar-se-á. A fotografia despojou-a de muitos dos seus atractivos. A futilidade ou a idiotice despojou-a de quase tudo o resto. O que sobrou tem sido saqueado por coleccionadores americanos. Um grande quadro é sinal de algo que um americano rico deseja comprar porque outras pessoas gostariam de o fazer, se pudessem. Deste modo, os quadros são postos em paralelo, não com poemas ou romances, mas com as primeiras edições de certos poemas e romances. O museu passa a assemelhar-se , não à biblioteca, mas à biblioteca de um bibliófilo. A valorização da pintura torna-se não paralela à valorização da literatura, mas à valorização das edições. A crítica da arte cai gradualmente nas mãos dos antiquários.
A arquitectura torna-se um aspecto secundário da engenharia civil.
Só a música e a literatura ficam.
A literatura é a forma intelectual de dispensar todas as artes. Um poema, que é um quadro musical de ideias, dá-nos a liberdade, através da compreensão que dele tivermos, de ver e ouvir o que queremos. Todas as estátuas e pinturas, todas as canções e sinfonias, são tirânicas em comparação com isto. Num poema, temos de compreender o que o poeta pretende, mas podemos sentir o que quisermos.
Um passeio por um museu torna-se, não uma contribuição para a cultura, mas um estímulo para a inveja, como olhar de cima dos nossos pés cansados para o automóvel de um homem rico.

Fernando Pessoa


in " Heróstrato E A Busca Da Imortalidade", *37, pag. 84,85
edição assírio & alvim
trad. Manuela Rocha

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Quinta-feira, Junho 23, 2005

3:18 PM - " Pintura"


Autor: Júlio Reis Pereira (1902 - 1983)

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3:02 PM - O Poeta



Vão dizer que não existo propriamente dito.
Que sou um ente sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação para ninguém.
Meu pai costumava me alertar:

Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras
Ou é ninguém ou zoró.
Eu teria treze anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei o meu primeiro verso:

Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra para minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir as suas
irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.



Manoel de Barros

" O Encantandor de Palavras", pag.34
Edições Quasi

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Terça-feira, Junho 21, 2005

7:25 PM -





ARTE POÉTICA


(a Charles Morice)



Antes de qualquer coisa, música

e, para isso, prefere o Ímpar
mais vago e mais solúvel no ar,
sem nada que pese ou que pouse.
E preciso também que não vás nunca
escolher tuas palavras em ambiguidade:
nada mais caro que a canção cinzenta
onde o Indeciso se junta ao Preciso.
São belos olhos atrás dos véus,
é o grande dia trémulo de meio-dia,
é, através do céu morno de outono,
o azul desordenado das claras estrelas!
Porque nós ainda queremos o Matiz,
nada de Cor, nada a não ser o matiz!
Oh! O matiz único que liga
o sonho ao sonho e a flauta à trompa.
Foge para longe da Piada assassina,
do Espírito cruel e do Riso impuro
que fazem chorar os olhos do Azul
e todo esse alho de baixa cozinha!
Toma a eloquência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começaste,
em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?
Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
nos forjou esta jóia barata
que soa oca e falsa sob a lima?
Ainda e sempre, música!
Que teu verso seja um bom acontecimento
esparso no vento crispado da manhã
que vai florindo a hortelã e o timo...
E tudo o mais é só literatura.



Paul Verlaine*

(tradução de Carlindo Lellis)

*poeta francês, (França, 1884-1896) de vida considerada atribulada e escandalosa, cujapoesia reflecte a contradição entre uma conduta deplorável e um ideal quase primitivo de pureza e misticismo.Verlaine nasceu em Metz e fez seus estudos secundários em Paris, entrando depois, como funcionário,para a Prefeitura. Já nessa época, frequentava a boémia dos cafés parisienses, sendo um funcionário relapso e pouco assíduo. É então que descobre a poesia. Poèmes Saturniens ("Poemas Saturninos, 1866) é sua primeira coletânea publicada. Verlaine professa de início a impassibilidade parnasiana, mas já seuinstinto poético o conduz a dar maior agilidade ao alexandrino, a utilizar os ritmos ímpares a sugerir vagosestados por estrofes vaporosas. Poucas obras na história da poesia francesa são mais sinceras e comoventes.

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5:00 PM - Pragmático

As coisas que existiam antes de tu morreres
e as coisas que surgiram depois:

Ás primeiras pertencem, antes do mais,
as tuas roupas, as jóias e as fotografias
e o nome da mulher que te deu o nome
e também morreu jovem…
Mas também um par de receitas, o arranjo
de um certo canto na sala,
uma camisa que me passaste a ferro
e que guardo cuidadosamente
debaixo da minha resma de camisas,
Algumas peças de música, e o cão
sarnento que por aí anda
Com um sorriso estúpido, como se ainda aqui estivesses.

Às últimas pertencem a minha caneta,
um perfume conhecido
na pele de uma mulher que mal conheço
e as novas lâmpadas que pus no candeeiro do quarto
que iluminam o que leio acerca de ti
em todos os livros que leio.

As primeiras recordam-me que exististe,
as últimas que já não existes.
Que sejam quase indistinguíveis
é o mais difícil de suportar.



Henrik Nordbrandt (Dinamarca,1945)

Trad. de José Alberto Oliveira
in A Rosa do Mundo.Assírio e Alvim

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Domingo, Junho 19, 2005

8:12 PM - FRIEDRICH SCHILLER




OS DEUSES DA GRÉCIA


Quando ainda era o vosso reino o mundo belo,
Pela vossa mão, o homem era conduzido para a alegria,
Em estirpes bem-aventuradas,
Belos seres do mundo das fábulas.
Porque o vosso culto então resplandecia
Era tudo tão diferente, era tudo um outro tempo,
De flores, Vénus Amatúsia, ainda se coroava
o teu templo!

As vestes mágicas da Poesia ainda se inclinavam
Docemente para a verdade,
A criação irradiava o sentido para a vida,
Sentia-se como nunca se houvera sentido.
Para a inscrever no seio do amor,
Deu-se as mais altas asas à natureza,
Em tudo havia marcas sagradas,
Em tudo havia vestígios de um deus.

Onde agora, na nossa forma de ver,
Apenas se move uma bola de fogo sem alma,
Conduzia então o seu carro dourado,
Hélio, na sua majestade calma.
Os cumes dos montes eram habitados por Oréades,
Em cada árvore habitava uma Dríade,
Dos ataúdes de belas Náiades
Saltitavam fios de espuma prateada.

Em cada loureiro, houve, um dia, um pedido de ajuda
A filha de Tântalo escondeu-se atrás de uma pedra,
O lamento da siringe ecoou pelos canaviais,
Um bosque escutou a dor de Filomela.
E cada ribeiro engrossou, com o pranto que Deméter
Por Perséfone, um dia, derramou.
Destas colinas, Cítereia pelo seu belo amigo
Ah, foi em vão que chamou.

Às bodas de Deucalião subiram, um dia, os Imortais,
Para conquistar a bela filha de Pirro,
Tomou em suas mãos, o filho de Latona,
O seu bordão de pastor.
Entre homens, deuses e heróis, teceu Amor
Um belo laço,
Em Amatonte, prestaram culto os mortais,
Ao lado de deuses e heróis.

Gravidade sombria e renúncia triste
Estavam banidas do vosso caloroso culto,
Felizes podiam os corações pulsar,
Porque só os venturosos vos estavam consagrados.
Nada era mais louvado que a beleza,
De nenhuma alegria se devia envergonhar um deus,
Nem do que fazia a casta Camena corar,
Nem do que as Graças tinham para dar.

Ria-se, nos vossos templos, como nos palácios.
Dignos eram os vossos jogos heróicos,
Nas festas do Istmo, recamadas de flores,
Quando os carros trovejavam para a meta,
Entre danças expressivas, que circulavam
Em volta do vosso resplandecente altar.
Das coroas da vitória se adornava o vosso sono,
De grinaldas, o vosso cabelo fragrante.

O Evoé das alegres bramidoras do tirso
E a magnífica parelha puxada por panteras
Anunciava o maior arauto da alegria.
Faunos e sátiros cambaleavam à sua frente.
À sua volta surgiam frenéticas Ménades,
As suas danças louvavam o vinho,
E a face trigueira do estalajadeiro
Convidava a beber divertidamente.

Não havia então qualquer carcaça temível
Para atemorizar o leito dos moribundos.
Um beijo esvoaçava dos lábios, num último alento,
No seu interior, escondia-se um génio.
Até a severa balança do Orco
Assegurava um poeta ao moribundo.
E perante as queixas clamorosas do Trácio,
Comoveram-se as Erínias.

As alegrias encontravam de novo as sombras
Aprazíveis, nos Campos Elísios.
O amor verdadeiro encontrava o seu fiel par,
O condutor do carro, o seu caminho.
O instrumento de Lino entova as canções de sempre.
Nos braços de Alceste afundava-se Admeto,
Orestes reconhecia o seu amigo,
E a sua seta encontrava Filoctetes.

Elevadas honrarias fortaleciam o lutador,
Incitando-o à virtude dos caminhos valorosos.
Grandes feitos, magníficos vencedores
Elevavam-se até aos Imortais.
Diante de todo aquele que desafiava a Morte,
Inclinavam-se os deuses, numa vénia.
Pelas marés alumiava o piloto,
Do Olimpo o par de gémeos.

Mundo belo, que é feito de ti? Regressa,
Abençoada idade florida da natureza!
Só na terra das fadas, das canções,
Vive ainda o teu vestígio fabuloso.
Definhados e tristes, estão agora os campos,
Porque nenhuma divindade se oferece
ao meu olhar.
Desses quadros palpitantes de vida,
Apenas nos resta a sua sombra.

Todas essas flores foram tombadas pelo vento
Frígido do norte.
Para adorar Um entre todos, teve que perecer
Este mundo de deuses.
Triste, procuro-te no arco-íris, a ti, Selene.
Não te encontro mais.
Grito, através das ondas, das florestas,
E só um eco vazio me responde!

Alheios à alegria que ela oferece,
Sem entusiasmo pela sua majestade,
Sem a protecção do espírito que ela encerra,
Sem a consagração da minha espiritualidade,
Insensíveis à sua honra de artista,
Assemelhando-se ao bater das horas mortas,
Dobra-se servilmente à lei da espada,
A natureza endeusada.

Para amanhã de novo ser dispensada,
Para si própria constrói agora o próprio túmulo.
Sobre um fuso sempre igual, para cima e para baixo,
Por si próprios se movimentam os astros.
Ociosos, voltaram para a poesia,
Para a sua casa, os deuses, desnecessários
Ao mundo que, pela sua mão nascido,
No seu próprio peso se sustenta.

Sim, eles regressaram à sua casa e levaram consigo
Tudo o que era grande e belo consigo,
Todas as cores e todos os matizes da vida.
Ficou-nos a palavra empobrecida.
Retirados das vagas do tempo, pairam,
A salvo, nos cumes do Pindo.
O que permanece imortal, no canto,
Tem que perecer, na vida.


FRIEDRICH SCHILLER*


Tradução de Maria do Sameiro Barroso


*Johann Christoph Friedrich Schiller nasceu a 10 de Novembro de 1759 e morreu a 9 de Maio de 1805, antes de completar 46 anos. Poeta, dramaturgo, filósofo, historiador, é, juntamente com Goethe, uma das figuras cimeiras da literatura alemã. Duzentos anos após a sua morte, é homenageado, neste ano de 2005

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7:43 PM -



(...)
[Olha: eu queria saber em que parte
se morre, para ter uma flor e com ela
atravessar vozes velozes e ardentes e crimes
sem roupa. Existe nas ilhas um silêncio para
a poeira tremer, e o teu rosto se voltar lentamente cheio
de febre para o lado de uma canção
[terrível e fria.

Herberto Helder


excerto de "canção despovoada"
in " ou o poema contínuo" , pag 247
edição, assírio & alvim

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Sábado, Junho 18, 2005

10:48 PM - Requiem a Pier Paolo Pasolini


Pier Paolo Pasolini [n. 5 Março de 1922, f.1975]


"Eu pouco sei de ti mas este crime
torna a morte ainda mais insuportável
....

O assassino, esse seguirá dia após dia
a insultar o amargo coração da vida;
....

O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Salò, não se importariam de assinar.
Seja qual for a razão, e muitas há
que o Capital a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto.
A farsa, a nojenta farsa, essa continua"

S.Lázaro, Novembro de 1975

Eugénio de Andrade

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11:16 AM -




" Poesia é voar fora das asas"

Manoel de Barros

(n.1916, Cuiabá - MT)

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11:03 AM -




"À primeira vista, parece mais fácil de fazer do que o regular. Mas é engano. Basta dizer que no verso livre o poeta tem de criar o seu ritmo sem auxílio de fora. É como o sujeito que solto no recesso da floresta deva achar o seu caminho sem bússola, sem vozes que de longe o orientem, sem os grãozinhos de feijão da história de João e Maria. Sem dúvida, não custa nada escrever um trecho de prosa e depois distribuí-lo em linhas irregulares, obedecendo tão-somente às pausas do pensamento. Mas isto nunca foi um verso livre. O modernismo teve isto de catastrófico: trazendo para a nossa língua o verso livre, deu a todo mundo a ilusão de que uma série de linhas desiguais é poema".


Manuel Bandeira (1886/1968)

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10:46 AM -





"a palavra é a amante e o amigo do poeta, seu pai e sua mãe, seu deus e seu diabo, seu martelo e sua almofada. Também é seu inimigo: seu espelho".

..../....


"Cada poema é único. Em cada obra lateja, com maior ou menor intensidade, toda a poesia. Portanto, a leitura de um só poema nos revelará, com maior certeza do que qualquer investigação histórica ou filológica, o que é a poesia ".

Octávio Paz

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1:12 AM -





"Poetry is man's rebellion against being what he is."

"A poesia é a revolta do homem contra ser aquilo que é. "

James Branch Cabell ( e.u.a, 1879-1958)

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Sexta-feira, Junho 17, 2005

1:24 PM - Vento


A casa esteve toda a noite lá longe, no mar,
o bosque quebrando entre a escuridão, os montes troando,
o vento fustigando os campos sob as janelas,
também ele escuro nos seus volteios, cego e molhado,

até ao nascer do dia. Então, sob um céu alaranjado,
viam-se nesses montes lugares novos, o vento trazia
uma luz cortante, luminosidade negra e esmeralda
a ondular como se vista pelas lentes de uns olhos loucos.

Pelo meio-dia trepei por uma das paredes da casa
até à porta do depósito de carvão. Ousei olhar mais para cima:
por entre a força do vento que amolgava os meus olhos
os montes pareciam tendas a ressoar, retesadas nas cordas,

os campos estremeciam e via-se um esgar na linha do horizonte,
na iminência de rebentar e desaparecer com mais uma chicotada:
o vento arrancava dali uma pega e um alcatraz
de cauda preta a dobrar-se devagar como uma barra de ferro. A casa

retinia como se fosse uma fina taça verde prestes
a estilhaçar-se a qualquer momento. Enfiados
nas cadeiras frente ao lume, aperta-se-nos
o coração e não há livro ou pensamento que nos distraia nem somos

capazes de nos distrair uns com os Outros. Olhamos o fogo a arder
e sentimos tremer os alicerces da casa,mas permanecemos sentados
vendo a janela a abanar, quase a cair para dentro,
ouvindo o grito das pedras sob o horizonte.

Ted Hughes*

"O Fazer da Poesia"
trad. de Helder Moura Pereira


*Ted Hughes (1930-98) nasceu em Yorkshire, no interior da Inglaterra. Publicou mais de vinte livros de poesia e, como prosador, voltou-se principalmente para o público infanto-juvenil. Ganhou alguns dos prêmios literários mais importantes da Europa, como o Whitbread. Em 1984, recebeu o título de Poeta Laureado do Reino Unido.

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2:46 AM - A Piaf





Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do «ça ira»,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida.
Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
o desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.

6/10/1964

Jorge de Sena

(Arte de Música,Poesia II, Edições 70, 1988.)

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Quinta-feira, Junho 16, 2005

3:29 PM -





(...)
E no centro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e todos os teus gestos são uma sinalização em direcção à morte - embora seja sempre absurdo morrer.
Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no regresso. Possuo para sempre tudo o que perdi. E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. Penso em ti. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto. - aqui sentado junto à janela fechada. Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor do mundo que nos foge.


Sines/ S. Pedro de Moel, 1988

Al Berto*

(in "Lunário", pag161
edição assírio & alvim)


*pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares (1948-1997), nasceu em Coimbra e faleceu em Lisboa. Nas primeiras obras poéticas, Al Berto seguiu de perto a linha surrealista, especialmente a que emana de Herberto Hélder. Posteriormente, funde a poesia na prosa, criando uma espécie de deambulações fragmentárias. Foi distinguido em 1988 com Prémio Pen Club de Poesia pela obra O Medo.

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2:51 PM - O Visionário ou som e cor, III


Caricatura de Gomes Leal em " Projecto Vercial"



o vermelho deve ser como
o som de uma trombeta...
um cego


Alucina-me a Cor!- A Rosa é como a Lira,
A lira pelo tempo há muito engrinaldada,
E já é velha a união sagrada,
Entre a cor que nos prende e a nota que suspira.

Se, a terra, às vezes, brota a flor que não inspira,
A teatral camélia, a branca enfastiada,
Muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
Como a perdida cor dalguma flor que expira...

Há planta ideais dum cântico divino,
Irmãs do oboé, gémeas do violino,
Há gemidos no azul, gritos no carmesim...

A magnólia é uma harpa etérea e perfumada,
E o cacto, a larga flor, vermelha, ensaguentada,
- Tem notas marciais, soa como um clarim.

Gomes Leal*


in " Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa"
de Eugénio de Andrade
edição campos das letras



*António Duarte Gomes Leal (1848-1921) nasceu em Lisboa, filho ilegítimo de um funcionário do Estado. Frequentou o Curso Superior de Letras, não chegando a terminá-lo. Ao ler as obras de Marx, Darwin, Renan e Proudhon, entusiasma-se com o socialismo, aproximando-se ideologicamente de Antero de Quental e Oliveira Martins. Poeta e jornalista, caiu na miséria nos últimos anos da sua vida, sobrevivendo da caridade alheia. Escreveu: O Tributo de Sangue (1873), A Canalha (1873), Claridades do Sul (1875), A Fome de Camões (1880), A Traição (1881), O Renegado (1881), História de Jesus (1883), O Anti-Cristo (1886), Fim de Um Mundo (1900), A Mulher de Luto (1902), A Senhora da Melancolia (1910).

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2:29 PM - " trilogia da chuva"para Eugénio de Andrade


"White Rose" de Michael Banks




I



em todos os edifícios

da urbe/

ouvirei o teu centro/

como a rosa

para

abrigo/



II



há mortes que não sabem/que a morte

é um verso/ que deixa

destroços/



como um grande naufrágio



III



um pássaro

há pouco

recebia os teus versos/ em

telepáticas línguas/



chove muito

muito/



a chuva arrasta o teu nome na boca




maria azenha
2005,junho,13,lisboa

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11:53 AM - ARTE POÉTICA

Que o verso seja como chave
que abra mil portas.
Uma folha cai, algo passa voando;
quanto os olhos fitam criado seja,
e a alma do ouvinte fique palpitando.

Inventa novos mundos, cuida da palavra;
o adjectivo quando não dá vida, mata.

Estamos no céu dos nervos.
O músculo pende,
Como recordação, nos museus;
mas nem por isso temos menos força:
o vigor verdadeiro
reside na cabeça.

Porque cantais a rosa, poetas?
fazei-a florir no poema.
Só para nós
vivem sob o sol as coisas todas.
O poeta é um pequeno Deus.


Vicente Huidobro (1893-1948)
poeta chileno

(Tradução de Jorge de Sena, em Poesia do Século XX, 3ª Ed., Asa, Porto, 2003.)

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Quarta-feira, Junho 15, 2005

3:51 PM -




DA DIVINA COMÉDIA (excerto)



Se belo foi como é agora bruto

e contra quem o fez o olhar lhe brilha,
bem deve proceder só dele o luto.
Oh, quanto me pareceu grã maravilha
quando três faces vi em sua testa!
A da frente vermelha se encorrilha;
e cada uma das outras, junta a esta,
em meio a cada ombro se encavala,
e as três se vão juntar na crista infesta:
e amarelece a destra em branco rala;
a sinistra de ver era tal, quais
os que o Nilo percorrem vala a vala.
De cada uma sai par de asas tais,
quanto o pássaro há-de carecê-lo:
velas do mar assim não vi jamais.
Não tinham penas, mas a modo o pêlo
seria de morcego; e as agitava,
do que três ventos dava em atropelo:
e já Cocito todo enregelava.
Com seis olhos chorava e aos mentós rente
baba sangrenta é ranho gotejava.
De cada boca esfacelava a dente
um pecador, ripando-lhe a medula,
e a cada um de três punha dolente.
Era ao da frente a mordedura nula
à esfola comparada, que a carne
sem pele em carne viva toda ondula.
«É a alma que há no cimo maior pena»,

o mestre diz, «Judas Iscariote:
cabeça dentro, as pernas desordena.
Das duas que debaixo têm garrote,
Bruto pende do negro focinhudo —
vê como ele se estorce! E não dá mote! —;

e é Cássio o que parece tão membrudo.
Mas a noite regressa e hora se faz

de partirmos, porquanto vimos tudo.»

Dante Alighieri*

in:A Divina Comédia, O Inferno, canto XXXIV e último,
versos 36 a 69, Trad. de Vasco da Graça Moura


* (Florença, 1265 - Ravena, 1321).
Escritor italiano. Estuda Teologia e Filosofia e conhece profundamente os clássicos latinos e os filósofos escolásticos. Pertencente ao Partido Guelfo, luta na Batalha de Campaldino contra os Gibelinos. Cerca de 1300 inicia a carreira diplomática e, em 1302, é encarcerado por causa das suas actividades políticas. Inicia-se então a segunda etapa da sua vida: o exílio definitivo, pois não dá acolhimento às amnistias de 1311 e 1315. Afastado de Florença, vive em Verona e em Lunigiana. Posteriormente, e seguindo as vicissitudes da política dos principados italianos, reside também em Ravena, onde morre. Apesar de ser casado, Beatriz, dama florentina, é o seu amor platónico e a personagem central da sua obra.
A Vida Nova é uma colecção de sonetos e canções dedicada à sua dama idealizada, Beatriz. Mas a grande obra de Dante é a Divina Comédia, grandioso poema alegórico, filosófico e moral que resume a cultura cristã medieval. A sua estrutura reproduz as concepções cosmológicas e teológicas da época. É uma obra de rica simbologia mística: Beatriz, convertida em ideia espiritual após a sua morte, personifica a teologia ou sabedoria divina, com a qual a alma percorre as vias da razão até alcançar a graça e a união com Deus. Mas tudo isso está impregnado das ideias e crenças de Dante, das suas recordações e esperanças, dos seus amores e ódios, da poderosa inspiração e da personalidade deste formidável escritor.
( in Vidas Lusofonas)







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3:14 PM - "Poema da Rua Maria Antónia"


Por sobre o muro
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.

Renata Pallottini*

In: PALLOTTINI, Renata. Coração americano.
Pref. Luiz Carlos Cardoso. Il. Aldemir Martins.
2.ed. São Paulo: Feira de Poesia, 1979

NOTA: "Poema da Rua Maria Antonia" é a quarta parte do poema "Simposium", composto de 10 partes


*Cursou Direito na Universidade de São Paulo (USP) entre 1949 e 1953, onde publicou seus primeiros poemas, nas revistas da faculdade. Também fez o Curso de Filosofia Pura na Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), concluído em 1951. No ano seguinte publicou Acalanto, seu primeiro livro de poesia. Em 1960 ocorreu a montagem de sua peça A Lâmpada, com direção de Teresa Aguiar, em Campinas SP. Lecionou História do Teatro Brasileiro na Escola de Arte Dramática da USP, em 1964. Um ano depois foi encenada sua peça O Crime da Cabra, sob direção de Carlos Murtinho, sua estréia no teatro profissional. Entre 1969 e 1982 publicou oito peças de teatro, foi roteirista do programa infantil Vila Sésamo e diretora da Escola de Arte Dramática da USP.(...)Publicou livros de contos, poesia infantil e ensaios. Em 1997 recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Sua obra poética inclui os livros A Faca e a Pedra (1962), Os Arcos da Memória (1971), Noite Afora (1978), Esse Vinho Vadio (1988) e A Menina que Queria Ser Anja (1987). A poesia de Renata Pallatini vincula-se à terceira geração do Modernismo.

in Itau Cultural ( panorama poesia e crónica)

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2:27 PM -


"Praia das Maçãs" - Autor José Malhoa (1855-1933)

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2:16 PM - Cena de Primavera


As flores o seu vermelho perdem, frágil,
Os damascos são pequenos, e verdes.
Esvoaçam andorinhas,
E verde a água rodeia uma das casas.
Dos ramos voaram já, uma vez mais,
Muitos dos amentos de salgueiro.
Onde é que não haverá, na terra, ervas fragrantes?

Dentro do muro, um baloiço de jardim; fora, uma rua.
Fora do muro, um transeunte.
Lá dentro, um riso - de rapariga bonita,
Que a pouco e pouco se extingue.
E agora um coração em fúria, o dela
Contra quem mostrou não ter nenhum.

Su Dongpo (SuShi) - 1036-1101

Uma Antologia da Poesia Chinesa por Gil de Carvalho

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1:54 PM -




S'io credesse che mia riposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa flamma staria senza più scosse
Ma per cìo che giammai di questo fondo
Non tornò viva alcun s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia, ti rispondo.

(Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66)


Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são refúgio de vozes murmuradas
De noites sem repouso em hotéis baratos de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável...
Oh, não perguntes «Qual será?.»
Vem lá comigo fazer a tal visita.

T.S. Eliot*
A Canção de Amor de J. Alfred Prufock
(tradução de João Almeida Flor)


*Poeta, crítico e dramaturgo norte-americano naturalizado inglês (1888-1965). Considerado um dos principais nomes da poesia moderna de língua inglesa. Seu nome completo é Thomas Stearns Eliot. Em 1915, desencantado com a vida cultural dos EUA, muda-se para Londres, onde trabalha no Lloyds Bank durante sete anos. Em 1917 publica A Canção de Amor de John Alfred Prufrock, de influência simbolista. Seus ensaios em The Sacred Wood (1920) iniciam uma revolução nos critérios da análise literária. O sucesso e o reconhecimento internacional chegam com o lançamento de A Terra Devastada (1922), sua obra-prima. É uma longa descrição poética da Europa desolada do pós-guerra e uma síntese dos grandes momentos da civilização ocidental. Além dos simbolistas franceses, o escritor italiano Dante Alighieri influencia sua obra, que explora os mecanismos da consciência contemporânea. Em 1927, naturaliza-se inglês e converte-se ao anglicanismo. Recebe o Prêmio Nobel de Literatura em 1948, pelo livro Four Quartets (1943). Escreve as peças Murder in the Cathedral (1935), The Family Reunion (1939) e The Elder Statestman (1958), entre outras.




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Terça-feira, Junho 14, 2005

5:00 PM - Fotobiografias


CaravaggioPosted by Hello
[É o tempo que marca as imagens. Vemos os rostos aproximarem-se da memória que guardamos dos nomes...Há rostos extraordinários, sinais de uma obra, apelos emocionais ou projecções espectrais de "almas a arder..."]
Revista Ler ( 56 ), "fotobiografias/ Eugénio de Andrade"

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4:20 PM - Eugénio de Andrade - O Amigo Mais Íntimo do Sol


Eugénio de Andrade Posted by Hello
Mais até do que o corpo, é o rosto do poeta quem serve de cicerone nesta recolha iconográfica de uma vida íntima de sol. O rosto de Eugénio de Andrade ( 1923-2005 ) surge recortado contra as paisagens do seu percurso: as da natureza como as das circunstâncias, com destaque para as viagens. O rosto encontra-se em lugares como o Fundão, Castelo Branco, Lisboa, Coimbra, Alentejo e, sobretudo, no Porto. Poucas as fotos da infância e quase nenhumas as da família. O olhar está consciente da máquina, desafiando-a a encontrar intimidades para além da pose. A partir de certa altura, riscam-se no mapa percursos mais longos, da Grécia à China, de Marrocos a Itália, do México aos EUA. Aqui se cumpre o ritual de apanhar o viajante com a coisa viajada. O rosto tem por vezes a companhia de outros rostos, quase sempre poetas ( Sena, Sophia, Pascoaes ), trocando sorrisos, até que, avançadas as datas, surgem outras faces em circunspectas homenagens. O ritmo solto das imagens vai sendo marcado por um manuscrito, um texto, um poema, que ora tentam aceder aos mistérios da criação, ou afirmam acontecimentos ( o nascimento do afilhado, por exemplo ) e lugares: "O Porto é uma certa maneira de me refugiar na tarde, forrar-me de silêncio e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a insurreição do olhar". Ou justificam asa invocações: a natureza, a música, a pintura, a Grécia. Também nos são dados os rostos dos livros. E não é apenas a luz a desenhar o rosto do poeta, tantos os artistas que o tocaram com traço, cor e matéria: Pomar, Resende, Mário Botas, Emerenciano, Álvaro Siza ou Fernando Lanhas, entre muitos outros. Mais rostos nos vêm fitar, são ainda de poetas. "Os grandes encontros são sempre encontros de juventude: Pessanha, Pessoa, Rimbaud, Lorca, Rilke, Whitman". Não há mais enquadramento do que os "principais elementos biográficos" no final e as apresentações de Luís Miguel Nava e Ángel Crespo, em tom de ensaio. Qualquer leitura, para atém da fruição simples das imagens, é grandemente prejudicada pela discutível opção de colocar o conjunto das legendas na parte final...
José da Cruz Santos, "Fotobiografias", in Ler/56

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4:14 PM -


Eugénio de Andrade Posted by Hello
"o acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação"

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1:10 PM - O Crepúsculo da Manhã

Tocava o despertar nos pátios das casernas
E o vento da manhã soprava nas lanternas.
Era a hora em que enxames de sonhos violentos
Torcem nos travesseiros os adolescentes;
Em que, como um sangrento olho que palpita,
Um candeeiro mancha de vermelho o dia;
E em que, sob o pesado e esquivo corpo, a alma
Reproduz esse jogo entre as luzes rivais.
Como um rosto que chora e que as brisas enxugam,
Vibra o ar no arrepio de mil coisas em fuga
E as mulheres já não amam e os homens não escrevem.
Aqui e além, agora, as casas já fumegam.
Com as bocas abertas e as pálpebras lívidas,
O seu estúpido sono as rameiras dormiam;
Coitadas, arrastando os seios frios e magros,
Sempre nos seus tições e nos dedos sopravam.
Era a hora em que por entre o frio e a mesquinhez
Se agravavam nos partos as dores das mulheres;
Num lamento quebrado por sangue espumoso,
Longe, o galo a cantar rasgava o ar brumoso;
Um mar de nevoeiros banahava edifícios
E os agonizantes, dentro dos hospícios,
O estertor derradeiro a custo soluçavam.
Já cansados da farra, os devassos voltavam.
A tiritante aurora, em trajo rosa e verde,
Sobre o Sena deserto ia avançando lenta
E o sombrio Paris, ainda a esfregar os olhos,
Empunhava as alfaias, velho laborioso.
Charles Baudelaire, "As Flores do Mal"
( Tradução de Fernando Pinto do Amaral )

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1:06 PM -


Les Fleurs du Mal. Charles Baudelaire Posted by Hello

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12:37 PM - O Gato


Charles Pierre Baudelaire ( 1821-1867 )Posted by Hello
poeta francês precursor do Simbolismo, escreveu, em 1857, "Les Fleurs du Mal", obra que o imortaliza. Com versos rigorosamente metrificados e rimados e que prefiguram o parnasianismo, Baudeleire aborda temas, do sublime ao escabroso, assumindo-se liricamente contra as convenções morais que caracterizavam a sociedade francesa dos meados do séc. XIX.
in Dicionário de Literatura ( adapatado )
Lindo gato, vem cá, vem ao meu colo;
Encolhe as unhas dessa pata,
E deixa que eu mergulhe nos teus olhos,
Um misto de metal e ágata.
Quando os meus dedos, à vontade, afagam
O dorso elástico, a cabeça,
E a mão se me inebria de prazer
No corpo eléctrico, a apalpá-lo,
Vejo a minha mulher. O seu olhar,
Tal como o teu, querido animal,
Frio e profundo, fende-nos qual dardo,
E da cabeça até aos pés
Um ar subtil, um perfume perigoso
Nadam em torno do seu corpo.
Charles Baudelaire, "As Flores do Mal"

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12:19 PM - Flor do Lácio/Rumo ao Sumo

Disfarça, tem gente olhando
Uns, olham pro alto,
cornetas, luas, galáxias.
Outros, olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.
Outros olham para baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.
Paulo Leminski, "La vie en close"

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12:16 PM -


Medium. Picasso Posted by Hello

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Segunda-feira, Junho 13, 2005

6:45 PM -



(...)
Dizer numa simples linha "o que pensam os olhos"(1) é a tarefa do pintor. Louvemos em tempo de catástrofe e de cólera, o que nos resta de limpo sobre a terra - parecem dizer-nos estes traços, estas cores -, louvemos a terra e as suas criaturas. Cada artista é assim uma espécie de S. Francisco cantando, por sua conta e risco, um hino à criação. " Cantar é ser" diz o poeta dos
Sonetos a Orfeu, e " ser é expor-se, na nudez mais completa, só e sem amparo", diz por sua vez o nosso pintor. Só e sem amparo, é verdade. E contudo é dessa solidão que nasce esta maravilha que temos na mão: numa folha de escassos centímetros quadrados surgem dois ou três acordes cromáticos, duas ou três casas baixas, como as da minha infância, uma delas cor de rosa, a outra cor de trigo, e uma árvore de um verde mediterrâneo; à sua roda respira-se melhor, há no ar uma música subtil, ascensional, e tudo é leve, tudo é bom.(2)
(...)



Eugénio de Andrade
in " à sombra da memória"
pag 97, 98
edição fundação eugénio de andrade



(1) Cézane
(2) Nietzche " tudo o que é bom é leve"

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5:54 PM - "A Arte, o Artista e a Sociedade"*



"A imaginação artística dos povos envolve gerações, num quase inimaginável longo processo criativo, que, mantendo vivas mesmo que não evidentes as origens, as enriquece e traduz com elementos e valores estéticos novos." (p.111)

"Arte é liberdade. É imaginação, é fantasia, é descoberta e é sonho. É criação e recriação da beleza pelo ser humano e não apenas imitação da beleza que o ser humano considera descobrir na realidade que o cerca."(p.201)

"(...)É bom que jamais percam a necessidade e o gosto de escrever, de pintar, de tocar um instrumento, de mesmo em silêncio, sem assim se chamarem, continuarem a ser artistas."(p.202)

Álvaro Cunhal
*Editorial Caminho, Lisboa, 1996

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5:42 PM -


Aguarela de Júlio Resende,
in "Cancioneirinho de Coimbra"
de Eugénio de AndradePosted by Hello

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5:38 PM -

Que trabalho exasperado, o da língua,
essa que dizes com mão insegura
desvios, desacertos, desalinhos.
De pequeno formato, de Eugénio de Andrade

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5:36 PM -


Desenho de Álvaro Cunhal




Quem me dera

(Alberto Caieiro heterônimo de Fernando Pessoa)

Quem me dera
que eu fosse o pó da estrada

E que os pés dos pobres
me estivessem pisando...
Quem me dera
que eu fosse os rios que correm

E que as lavadeiras
estivessem à minha beira...
Quem me dera
que eu fosse os choupos
à margem do rio

E tivesse só o céu por cima
e a água por baixo...
Quem me dera
que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse
e me estimasse...
Antes isso que ser
o que atravessa a vida

Olhando para trás de si
e tendo pena...

Alberto Caieiro

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5:22 PM -



desenho de Álvaro Cunhal
n. Sé Nova, Coimbra, a 10 de Novembro de 1913
f. Lisboa, a 13 de Junho de 2005

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4:36 PM - Elegia de Coimbra/Teixeira de Pascoaes

...Para Coimbra parti, depois, em certo dia
De escurecido Inverno,
Doente de saudade e de melancolia...
E, numa pobrezinha sepultura,
Deixei magoada rosa de ternura,
A desfolhar-se num adeus eterno...
Em mim, já despontava, em ermo sonho absorto,
este espectro que sou e me permite ver,
Em vida, à luz do Sol, o que hei-de ser,
Em sombra, à luz do luar, depois de morto,
Em mim, quem se comove e canta, num delírio,
Na palidez das mãos, trazendo um roxo lírio,
A trança desprendida e, sobre o branco rosto,
Mais sombras e orações que as horas do sol posto?
Ah, quem reza comigo à tarde e me abençoa?
Quem me fala de amor e me perdoa?
Quem é que nos meus sonhos me revela
Misteriosa estrela:
Alegria de luz que me trespassa
E, dentro em mim, acende etérea graça,
Um rasto de oração por Deus ouvida,
Um luar que me beija a alma adormecida?
Quem, nos meus olhos, põe uns olhos de piedade?
És tu, Amor, Espectro, Divindade!
Criado em altos sítios de granito,
Na vizinhança agreste do Infinito,
Demorei-me, bem trite, a contemplar
Uma velha cidade, em mármor' tumular,
Numa paisagem doce e anémica, esboçando
Sorrisos de verdura, junto de água...
O mais é medieva, etérea Mágoa
Em coloridos campos alastrando...
Ora, subindo em íngremes colinas,
Que têm gestos velhinhos de ruínas,
Ermos pinhais saudosos...
Ora, descendo em vales penumbrosos,
Elegias de Deus...
E, filho duma Estrela, o Rio legendário,
No crepúsculo enfermo, é líquido sudário
Com a efígie dramática dos céus.

E em todo o vago ambiente, à luz da aurora,
Na sombra da tardinha,
É vivo, como outrora,
O fantasma de Inês vestida de Rainha.
Sobre o Mondego e as margens florescidas,
é névoa que flutua...
De noite, à luz da Lua,
Nos ermos olivedos,
É zéfiro abatendo as asas falecidas,
Vulto esvaído em murmúrios segredos...
Espectro desgrenhado,
Em gemidos de louco sentimento,
Nas ruínas, à chuva, dum convento,
Já quase subterrado...
E nas tardes de Outubro,
Quando o poente, macerado e rubro,
Nos salgueiros do rio,
Põe gangrenas de morte e roxos tons de frio,
- Vê-se o enterro de Inês, fantástico, passar!
Duas filas sem fim de luzes amarelas,
E os sinos, que há no mundo, aos ventos, a dobrar
E, entre o luto do povo, o choro das donzelas!
Coimbra é a lenda, o luar, a evocação...
A tristeza, medieva, a sombra dos pinhais;
O canto pastoril, Camões, a solidão,
A elegia da terra, em misteriosos ais...
É João de Deus e Antero:
O infinito mimo e o grande desespero!
(...)
Antologia da Poesia Moderna sobre Coimbra, in "Cancioneirinho de Coimbra",
de Eugénio de Andrade

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4:31 PM -


Coimbra 62. Posted by Hello

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4:05 PM - Apelo/Miguel Torga. Elegia de Coimbra/Carlos de Oliveira. Coimbra/António Manuel Pires Cabral


Cancioneiro de Coimbra.
Eugénio de Andrade Posted by Hello
Com a tarde a cair cheia de cor,
-Folhas de Outono no Choupal deserto -
Olha-te de outra maneira o meu amor,
E o teu coração pulsa mais perto...
Como que pede vida nesta hora
Uma força que em nós nos era alheia...
Uma onda que vem pelo mar fora
À procura de paz na sua areia...
Nada que seja a flor duma impureza;
É qualquer coisa de mais belo e fundo:
- Sugestão do adeus da natureza
A pedir fé no mundo.
*
A cidade lembra os defuntos,
à sorte e à noite que a tolheu,
enterrada numa urna de choupos
sob a lousa do céu.
Gela a lua de março nos telhados
e à luz adormecida
choram as casas e os homens
nas colinas da vida.
Correm as lágrimas ao rio,
a esse vale das dores passadas,
mas choram as paredes e as almas
outras dores que não foram perdoadas.

Aos que virão depois de mim
caiba em sorte outra herança:
o ouro depositado
nas margens da lembrança
*
A cidade, nós sabemos,
atinge muitas vezes limites penosos,
pontos de fusão, paralisias,
o desequilíbrio formal, as
tantas formas de submersão.
Muito drástico o dia,
(o)fendido, moribundo.
Há réstias? Há um filtro,
um influxo sensato de jovens
sentimentos: pelos quais
nos sentamos decididos sobre as bermas;
pelos quais antecipamos, evitando
a coronha com fugas maquinais.
Ginástica. É verão, eu vo-lo juro.
Antologia da Poesia Moderna , in Cancioneirinho de Coimbra,
de Eugénio de Andrade

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10:26 AM -

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9:59 AM - 19 Janeiro de 1923 / 13 de Junho 2005



(...)

Eis o que tenho a pedir-vos nos meus oitenta anos: plantem nesse lugar um plátano, onde o vento enroladinho no sono possa dormir sem sobressaltos; ou uma oliveira, ou um chorão, e à sua roda ponham uma sebe da flor doce e musical de espinheiro branco. Embora tenha pouca ou nenhuma fé seja no que for, a terra ficará mais habitável. Um poema ou uma árvore podem ainda salvar o mundo.

(17.1.2003)


Eugénio de Andrade*

( excerto de Palavras em Serrúbia)

*José Fontinhas (nome verdadeiro de Eugénio de Andrade) nasceu a 19 de Janeiro de 1923, faleceu hoje na cidade do Porto.

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9:57 AM - Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.


Eugénio de Andrade

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2:37 AM - O Menino de sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
– Duas, de lado a lado –,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!

(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
É boa a cigarreira,
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada

Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:

"Que volte cedo, e bem!
"(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa


Obra Poética e em Prosa,
ed. António Quadros. Porto, Lello & Irmão, 1986.

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2:17 AM - 13 de Junho de 1888/ 30 de Novembro de 1935






«Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,não há nada mais simples.Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.Entre uma e outra todos os dias são meus.»

Alberto Caeiro


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1:56 AM -





Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

in "Livro do Desassossego" por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa.

(Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha.
Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

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Domingo, Junho 12, 2005

6:21 PM -


Ode ao vento e às ondasPosted by Hello

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6:03 PM - O Meu "Livrário"

Na sanzala há húmidas vergonhas.
Húmidas vergonhas! Veja lá o que é isso.
Dizem que são cabelos revoltados
do meu pensamento coeso.
Andei na Universidade a evoluir o
pensamento.
Dizem que a Universidade é hoje a
única casa de Deus.
Mas quando ali passo, na minha sanzala,
rebuscam-me as veias. Dizem-me:
São da vida e dos nossos passos,
o teu percurso.
Como é que não fizeste
uma campa para o teu pai
em cima destas árvores?
Ali! Aquele dinheiro que geme
nos meus bolsos!
Na verdade não hão-de os pássaros cantar
mês a mês a noite do meu sangue.
João Tala, de "A Forma dos Desejos", 1997
Antologia da Nova Poesia Angolana, edição INCM, 2001
Biografia
Publicou "A Forma dos Desejos" ( 1997 )

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6:01 PM -


Útero. Maximo Liparulo Posted by Hello

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5:42 PM - A Magnólia


magnólia Posted by Hello
A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
do meu resplendor.
Um diminutivo berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se escoa e resvala.
A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
e um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.
Luiza Neto Jorge

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5:34 PM - Pois

o respeitoso membro de azevedo e silva
nunca perpenetrou nas intenções de elisa
que eram as melhores. Assim tudo ficou
em balbúrdias de língua cabriolas de mão.
Assim tudo ficou até que não.
Azevedo e Silva ao volante do mini
vê a elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
e pensa pensa com os seus travões
Ah cabra eram tão puras as minhas intenções.
E a elisa rindo dentadura aos clarões.
Alexandre O'Neill

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5:31 PM -


elisa Posted by Hello

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5:08 PM - Bicicleta

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais -
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.
O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volume e derrapa
no instante da graça.
De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardinais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria morte
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração
pela imagem da rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.
Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
Herberto Helder , in "Cinco Canções Lagunares",
ou "O Poema Contínuo", 2004.

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4:46 PM - Escrever


(fotografia do arquivo do Diário de Notícias)



Se eu pudesse havia de... de...
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressoante!
Sem música, como um gesto,
uma pancada brusca e sóbria.
Para quê,
mas para quê todo o artifício
da composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não... ou sim.
E, como isto continuando...

E gostava
para as infinitamente delicadas coisas do espírito
(quais? mas quais?)
em oposição com braveza
do jogo da pedrada,
da pontaria às coisas certas e negadas,
gostava...
de escrever com um fio de água!
um fio que nada traçasse...
fino e sem cor...medroso...
Ó infinitamente delicadas coisas do espírito...
Amor que se não tem,
desejo dispersivo,
sofrimento indefinido,
ideia incontornada,
apreços, gostos fugitivos...
Ai o fio da água,
o próprio fio da água poderia
sobre vós passar, transparentemente...
ou seguir-vos, humilde e tranquilo?

Irene Lisboa*


" Antologia pessoal da poesia portuguesa"
pag, 386, 387. ( Eugénio de Andrade)
edição campo das letras


*Irene do Céu Vieira Lisboa (1892-1958) nasceu no Casal da Murzinheira, Arruda dos Vinhos, e faleceu em Lisboa. Formou-se pela EScola Normal Primária de Lisboa e fez estudos de especialização pedagógica em Genebra, tendo contactou com Piaget. Era amiga de José Rodrigues Miguéis. Obras poéticas: Um dia e outro dia (1936), Outono Havias de Vir (1937), Versos Amargos (inéditos incluídos no vol. I das Obras Completas, Presença, 1991). Várias: Solidão (1939), Treze contarelos (1926), Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma (1955), O pouco e o muito (1956), Voltar atrás para quê? (1956), Queres ouvir? Eu conto (1958), Título qualquer serve (1958), Crónicas da Serra (1962), Solidão II (1974), Esta Cidade! (1942), Um dia e outro dia – Diário de uma mulher (1936), Título qualquer serve para novelas e noveletas (1958), Crónicas da Serra (1958).*

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3:40 PM - Canto e lamentação da cidade ocupada


foto de Kay Denton,American, b.1939



"Qué la vida que vivimos
en estos anos de morte"
Nicolas Guillén


1.


Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida

Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma
em praças ruas becos e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria -Ateia imaculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz

Ei-la resplandecente de amor teoria
e prática nocturna mistério acontecido
doce havitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor até à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos dos jardins
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo

Ei-la a cidade prometida
esperamos por ela tanto tempo
que tememos o seu olhar exacto
flor da raiz que somos
meu amor.


...


Daniel Filipe*
em " A invenção do amor e outros poemas"
Editorial Presença)

*Em 1925 nasceu Daniel Damásio Ascensão Filipe na ilha da Boavista, em Cabo Verde. Ainda criança, veio para Portugal onde fez os estudos liceais. Poeta, foi colaborador nas revistas Seara Nova e Távola Redonda, entre outras publicações literárias. Combateu a ditadura salazarista, sendo perseguido e torturado pela PIDE. Num curto espaço de tempo, a sua poesia evoluiu desde a temática africana aos valores neo-realistas e a um intimismo original que versa o indivíduo e a cidade, o amor e a solidão. Faleceu em 1964 em Cabo Verde.

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2:15 PM - Sylvia Plath




(...)

Terceira voz:
Ela é uma pequena ilha adormecida e pacífica.
E eu um navio branco clamando: Adeus, Adeus.
O dia está em brasa. É deplorável.
As flores neste quarto são vermelhas e tropicais.
Viveram toda a sua vida protegida pelo vidro, foram
ternamente cuidadas.
Enfrentam agora um inverno de brancos lençóis, faces
brancas.
Tenho muito pouco para meter na minha mala.

Aqui estão as roupas de uma mulher gorda que não
conheço.
Aqui está o meu pente e a minha escova Aqui está um vazio.
De repente sinto-me tão vulnerável.
Sou uma ferida aberta que caminha para fora do hospital
Sou uma ferida aberta que eles deixam passar.
Deixo aqui a minha vitalidade. Deixo alguém.
Que se colaria a mim: arranco de mim os seus dedos como
adesivos. E saio.

(...)

Sylvia Plath*

*A obra e vida de Sylvia Plath ( 1932-1963), particularmente após a sua dramática morte em Fevereiro de 1963, têm vindo a gerar uma impresisonante lista de ensaios escritos, monografias, dissertaçõess académicas, traduções, etc. As raízes do " mito Plath" na formulação de Sandra Gilbert (1), confundem-se no caracter de excepção da sua obra e na sua não menos excepcional vida, na qual, por vezes, se fundem paradoxalmente a divergência da norma e a estreita normalidade.

(1) Sandra M. Gilbert, " A Fine , White Flyng Mith": Confessions of a Plath Adict", in Syvia Plat, ed. Harold Bloom, Chelsea House, New Yor, Philadelfia, 1998, pag 52.


excerto de "Poema a três vozes "
trad. Ana Gabriela Macedo
Edição Relógio D'Água

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Sábado, Junho 11, 2005

4:35 PM -


Atlas 21. Ray Respall Posted by Hello

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4:08 PM - Romance XL ou Do Alferes Vitoriano


Camelo Posted by Hello
- Aonde é que vais, Vitoriano,
nem bem amanhece o dia?
Andarás de contrabando,
serra abaixo, serra acima,
das areias de Ouro Branco
às sombras do Vila Rica?
( Esporeava o seu cavalo,
pela estrada mal segura.
- Vitoriano, tem cuidado,
de hora em hora a sorte muda!
Quanto mais o tempo é falso,
mais aparecem denúncias...)
- Eu, senhor,vou nesta pressa
para as bandas de Mariana.
Nem vos direi quem me espera
nem vos direi quem me manda.
Subo e desço pela serra
que nem o vento me alcança!
( Tinha no bolso uma carta,
e um recado na cabeça.
Puxa o lenço, limpa a cara,
cai-lhe o papel, vê-se a letra.
- Vitoriano, se te agarram,
terás de cumprir sentença! )
- Eu senhor, digo a verdade:
vinha da Ponta do Morro,
mandado por meu compadre,
Coronel Francisco Antônio.
Mas, para o que vinha, é tarde:
e ele ou está preso ou está morto...
( E no alto da serra brava
dobrou sobre o seu caminho
o alfaiate, alferes, cabra,
- sem ter chegado ao destino
para servir a um amigo. )
- Ai Vitoriano Veloso,
como o tempo era nublado!
Partires com tal denodo,
voltares com tal cansaço!
- E depois, - o calabouço?
E, depois, - o cadafalso?
( Não houve quem o livrasse
de dar três voltas à forca;
de gemer pela cidade
pena de açoites sem conta;
nem de partir para a viagem
de degredo, amarga e longa. )
( E a carta nem fora entregue!
Nem fora o recado escrito!
- No seu cavalo, tão leve!
- Na masmorra, tão perdido...
Que imensas lágrimas bebe,
por ter prestado um serviço! )
Cecília Meireles, Romanceiro da Inconfidência

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3:55 PM -


Mulher Posted by Hello

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3:33 PM - Romance XXXI ou De Mais Tropeiros


Montaria Posted by Hello
Por aqui passava um homem
- e como o povo se ria!-
que reformava este mundo
de cima da montaria.
Tinha um machinho rosilho.
Tinha um machinho castanho.
Dizia: "Não se conhece
país tamanho!"
"Doc Caeté a Vila Rica,
tudo ouro e cobre!
O que é nosso, vão levando...
E o povo aqui sempre pobre!"
Por aqui passava um homem
- e como o povo se ria!-
que não passava de alferes
de cavalaria!
"Quando eu voltar - afirmava -
outro haverá que comande.
Tudo isto vai levar volta,
e eu serei grande!
"Faremos a mesma coisa
que fez a América Inglesa!"
E bradava: "Há-de ser nossa
tanta riqueza!"
Por aqui passava um homem
- e como o povo se ria! -
"Liberdade ainda que tarde"
nos prometia.
E cavalgava o machinho.
E a marcha era tão segura
que uns diziam: "Que coragem!"
E outros: "Que loucura!"
Lá se foi por estes montes,
o homem de olhos espantados,
a derramar esperanças
por todos os lados.
Por isso passa um homem
- e como o povo se ria! -
e, atrás, a sorte corria...
Dizem que agora foi preso,
não se sabe onde.
( Por umas cartas entregues
ao Vice-Rei e ao Visconde. )
Pois parecia loucura,
mas era mesmo verdade.
Quem pode ser verdadeiro
sem que desagrade?
Por aqui passava um homem...
- e como o povo se ria! -
No entanto, à sua passagem,
tudo era como alegria.
Mas ninguém mais se está rindo,
pois talvez ainda aconteça
que ele por aqui não volte,
ou que volte sem cabeça...
( Pobre daquele que sonha
fazer bem - grande ousadia -
quando não passa de alferes
de cavalaria! )
Por aqui passava um homem...
- e o povo todo se ria.
Cecília Meireles, "Romanceiro da Inconfidência"

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1:48 PM -


Velho Posted by Hello

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1:25 PM - Quando Eu Morrer

Quando eu morrer
eu quero que o N'Gola Ritmos
vá tocar no meu enterro.
Como Sidney Bechet
como Amstrong
eu gostarei de saber
que vocês
tocaram no meu enterro
Lá no céu também há "angelitos negros"
e eu gostarei de saber
que vocês
me tocaram no enterro.
Se não puder ser
deixem lá
tocarão noutro lado qualquer
com lágrimas nos olhos
como naquela noite
em casa do Araújo
lembrarão o companheiro
das noites de Luanda
das noites de boémia
das tardes de moamba.
Ah! Quando eu morrer
já sabem
quero que o meu caixão
vá no maximbombo da linha do Cemitério
quero que toquem
a Cidralha
ou convidem a Marcha dos Invejados.
É assim que eu quero ir
acompanhado da vossa alegria
bebedeiras seguindo o enterro
as velhas carpideiras de panos escuros
quero um kombarritokué dos antigos
que vai ser muito falado.
Não convidem mulatas
que sempre estragam tudo
Se vierem
não lhes vou rejeitar.
Cantem apenas
alguns dos meus poemas
até enrouquecer.
Ah! Quando eu morrer
eu quero o N'Gola Ritmos
tocando no meu enterro.
Ernesto Lara Filho, Angola, 1932-1997

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Sexta-feira, Junho 10, 2005

10:16 PM - "História Trágico-Marítima"



Autor: Maria Helena Vieira da Silva (1908 - 1992)

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7:16 PM - Ficam as sombras...


Não. Não podeis levar tudo.
Depois do corpo,
E da alma,
E do nome,
E da terra da própria sepultura,
Fica a memória de uma criatura
Que viveu,
E sofreu,
E amou,
E cantou,
E nunca se dobrou
À dura tirania que a venceu.

Fica dentro de vós a consciência
De que ali onde o mundo é mais vazio
Havia um homem.
E sabeis que se comem
Os frutos acres da recordação...
Fantasmas invisíveis que atormentam
O sono leve dos que se alimentam
Da liberdade de qualquer irmão.

Miguel Torga


In " Antologia Poética", pg 125,
Publicações D. Quixote

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7:06 PM -


Coimbra no séc. XVI




Eu cantei já, e agora vou chorando
O tempo que cantei tão confiado;
Parece que no canto já passado
Se estavam minhas lágrimas criando.
Cantei; mas se alguém pergunta quando,
Não sei; que também fui nisso enganado.
É tão triste este meu presente estado,
Que o passado por ledo estou julgando.
Fizeram-me cantar, manhosamente,
Contentamentos não, mas confianças;
Cantava, mas já era ao som dos ferros.
De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças,
Onde a fortuna injusta é mais do que os erros?

Luis Vaz de Camões


(in " Lírica", pag.201
edição circulo de leitores)

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5:26 PM - O Mote de Camões




Exausto
de insónias
peço ajuda ao bom
Luís Vaz de Camões.

O então malquisto exilado português de Muipiti
senhor de ínclitos dotes na arte do soneto
generoso empresta-me seu método
de falar com os bruxos
no ambíguo tempo
dos homens.

Ele
o grão-sonhador que lambeu
suas crostas
imperfilado
em verso
deu-me
o mote:

Efémeros são os oiros dos biltres.
Vãos os poderes da espada e da pólvora.
Louvada seja a Dinamene
e Maria louvada seja também.

E ambos entoamos.


José Craveirinha
( prémio Camões 1991, Moçambique)

in " Maria"
Editorial Caminho

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4:59 PM - Canção VII


(desenho de Júlio Pomar)



Manda-me Amor que cante docemente
o que ele já em minh' alma tem impresso
com pressuposto de desabafar-me;
e por que com meu mal seja contente,
diz que ser de tão lindos olhos preso,
contá-lo bastaria a contentar-me.
Este excelente modo de enganar-me
tomara eu só de Amor por interesse,
se não se arrependesse,
coa pena o engenho escurecendo.
Porém a mais me atrevo,
em virtude do gesto de que escrevo;
e se é mais o que canto que o que entendo,
invoco o lindo aspeito,
que pode mais que Amor em meu defeito.


Sem conhecer Amor viver soía,
seu arco e seus enganos desprezando,
quando vivendo deles me mantinha.
O Amor enganoso, que fingia
mil vontades alheias enganando,
me fazia zombar de quem o tinha.
No Touro entrava Febo, e Progne vinha;
o corno de Aquelôo Flora entornava,
quando o Amor soltava
os fios de ouro, as tranças encrespadas
ao doce vento esquivas,
dos olhos rutilando chamas vivas,
e as rosas antre a neve semeadas,
co riso tão galante
que um peito desfizera de diamante.


Um não sei quê, suave, respirando,
causava um admirado e novo espanto,
que as cousas insensíveis o sentiam.
E as gárrulas aves levantando
vozes desordenadas em seu canto,
como em meu desejo se encendiam.
As fontes cristalinas não corriam,
inflamadas na linda vista pura;
florescia a verdura
que, andando, cos divinos pés tocava;
os ramos se abaixavam,
tendo enveja das ervas que pisavam
- ou porque tudo ante ela se abaixava -.
Não houve cousa, enfim,
que não pasmasse dela, e eu de mim.


Porque quando vi dar entendimento
às cousas que o não tinham, o temor
me fez cuidar que efeito em mim faria.
Conheci-me não ter conhecimento;
e nisto só o tive, porque Amor
mo deixou, por que visse o que podia.
Tanta vingança Amor de mim queria
que mudava a humana natureza:
os montes e a dureza
deles, em mim, por troca, traspassava.
Oh, que gentil partido:
trocar o ser do monte sem sentido
pelo que num juízo humano estava!
Olhai que doce engano:
tirar comum proveito de meu dano!


Assi que, indo perdendo o sentimento
a parte racional, me entristecia
vê-la a um apetite sometida;
mas dentro n' alma o fim do pensamento
por tão sublime causa me dezia
que era razão ser a razão vencida.
Assi que, quando a via ser perdida,
a mesma perdição a restaurava;
e em mansa paz estava
cada um com seu contrário num sujeito.
Oh, grão concerto este!
Quem será que não julgue por celeste
a causa donde vem tamanho efeito,
que faz num coração
que venha o apetite a ser razão?


Aqui senti de Amor a mor fineza,
como foi ver sentir o insensível,
e o ver a mim de mim mesmo perder-me.
Enfim, senti negar-se a natureza;
por onde cri que tudo era possível
aos lindos olhos seus, senão querer-me.
Despois que já senti desfalecer-me,
em lugar do sentido que perdia,
não sei que me escrevia
dentro n' alma, coas letras da memória,
o mais deste processo
co claro gesto juntamente impresso
que foi a causa de tão longa história.
Se bem a declarei,
eu não a escrevo, da alma a trasladei.
Canção, se quem te ler
não crer dos olhos lindos o que dizes,
pelo que em si escondem,

Não podem dos divinos ser juízes
- Os sentidos humanos - lhe respondem -

[Senão um pensamento
Que a falta supra a fé do entendimento]


Luís Vaz de Camões

(in "Lírica"
edição círculo de leitores)





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3:46 PM - A Luís de Camões


«A Morte de Camões». Desenho de Domingos Sequeira
( Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)




Sem lástima e sem ira o tempo arromba
As heróicas espadas.
Pobre e triste
À tua pátria nostálgica voltaste,
Ó capitão, para nela morrer
E com ela. No mágico deserto
Tinha-se a flor de Portugal perdido
E o áspero espanhol, antes vencido,
Ameaçava o seu costado aberto.
Quero saber se aquém da ribeira
Última compreendeste humildemente
Que tudo o perdido, o Ocidente
E o Oriente, o aço e a bandeira,
Perduraria (alheio a toda a humana
Mutação) na tua Eneida lusitana.

Jorge Luis Borges

«O Fazedor». Lisboa, Difel, 1985

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2:31 PM -




...

- "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
Cüa aura popular que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

" Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!

Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória Soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!

A quem novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que fama lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos? que palmas? que vitórias?

...

[canto IV, 95 a 97]


"Os Lusíadas"

Luiz Vaz de Camões*


(edição círculo de leitores)

* terá nascido em Lisboa por volta de 1524, de uma família do Norte (Chaves). Viveu algum tempo em Coimbra onde terá frequentado aulas de Humanidades no Mosteiro de Santa Cruz onde tinha um tio padre. Regressou a Lisboa, levando aí uma vida de boémia. Em 1553, depois de ter sido preso devido a uma rixa, parte para a Índia. Fixou-se na cidade de Goa onde terá escrito grande parte da sua obra. Regressa a Portugal em 1569, pobre e doente . Faleceu em Lisboa no dia 10 de Junho de 1580. É considerado o maior poeta português, situando-se a sua obra entre o Classicismo e o Maneirismo. Obras: Os Lusíadas (1572), Rimas (1595), El-Rei Seleuco (1587), Auto de Filodemo (1587) e Anfitriões (1587).

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1:35 PM -





Alvará Régio da Edição de 1572*

Eu el Rey faço saber aos que este Aluara virem que eu ey por bem & me praz dar licença a Luis de Camões pera que possa fazer imprimir nesta cidade de Lisboa, hüa obra em Octava rima chamada Os Lusiadas, que contem dez cantos perfeitos, na qual por ordem poética em versos de declarão os principais feitos dos Portugueses nas partes da India depois que se descobrio a nauegação pera ellas por mãdado del Rey dom Manoel meu visauo que sancta gloria aja, & isto com privilegio pera que em tempo de dez anos que se começarão do dia que se a dita obra acabar de emprimir, em diãte, se não possa imprimir në vender em meus reinos & senhorios nem trazer a elles de fora, nem leuar aas ditas partes da India pera se vender sem licënça do dito Luis de Camões ou da pessoa que pera isso seu poder tiuer sob de quë o contrario fizer pagar cinquoenta cruzados & perder os volumes que imprimir, ou vender, a metade para o dito Luis de Camões, & a outra metade para quem os acusar. E antes de se a dita obra vender lhe sera posto o preço na mesa do despacho dos meus Desembargadores do paço, o qual se declarará & porá impresso na primeira folha dita obra pera ser a todos notorio, & antes de se imprimir sera vista examinada na mesa do conselho geral do santo offício da Inquisição pera cõ sua licença se auer de imprimir, & se o dito Luis de Camões tiuer acrecentados mais algüs Cantos, tambem se imprimirão auendo pera isso licença do santo offício, como acima he dito. E este meu se imprimirá outrosi no principio de dita obra, o qual ey por bem que valha e tenha força & vigor, como se fosse carta feita em meu nome, por mim assinada & passada por minha Chancelaria em embargo do ordenação do segundo liuro, tit.XX, que diz que as cousas cujo effeito ouuer de durar mais que hum ano passem per cartas, & passando por aluaras não valhão. Gaspar de Seixas o fiz em Lisboa, a XXIII de Setembro de MDLXXI. Iorge da Costa o fiz escrever .*

....



No mar tanta tormenta e tanto dano,
tantas vezes a morte apercebida;
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?


[Canto I, 106]

Luiz Vaz de Camões

edição círculo de leitores

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Quinta-feira, Junho 09, 2005

11:11 PM -


6º Postal - Ruy Belo,
( da Colecção )
"Silves Capital da Palavra Ardente"Posted by Hello

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10:53 PM - Idola Fori

Eu sei diversas coisas
saber é afinal a minha única ocupação
Sei pouco de manhãs
mas talvez possa dizer de mim que amei o mar
e cada árvore que me viu passar
e insistir na vida como uma canção em voga
Quem mais que eu
quem foi esqueceu?
estamos mal feitos pronto
Para quê a doçura no olhar
de uma mulher certos dias?
O morno calor do sol rasante pelas tardes
de setembro na senhora da guia
senti-lo em abril numa sala voltada ao poente
de súbito sabendo de todos os papéis
ou outra eternidade que não essa
Talvez ouvir egmont sentindo-me importante de repente
ou então conversar sobre o poeta à beira de água
chegar a mangualde ao pôr do sol
ou a duas igrejas na semana santa
ouvir os sinos na matriz vizinha
cheirar madeira nova nas gavetas
fechar a porta sobre todos os cuidados
cantar a triunfante juventude
Não mais andar perdido de ano em ano
Não mais a morte questão para ociosos
à tarde no café dos reformados
Oh quem me dera ser católico
ou pelo menos morar alguma vez
em lisboa ou nos arredores de lisboa
Não há remédio nenhum
esqueci-me de tanta coisa
Sei que isto não é grande coisa
mas nenhuma outra coisa me é dada
O que é preciso é que não doa muito
Depois que me escondam na terra como uma vergonha.
Ruy Belo, "Todos os Poemas"

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10:46 PM -


Ruy Belo ( 1933-1978 ) Posted by Hello

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10:37 PM -


A Media Voz. Escultura de Brancusi Posted by Hello

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10:24 PM - Um mover de mão

toco agora o que poderia ser uma amêndoa quente,
ou a maturidade do outono se nos abríssemos ao meio,
clara e demoradamente, com essa demora que é própria das chuvas.
noto que não sei ao certo se um mover de mão tem um ritmo seu,
um ritmo que não partilhe com o espaço que atravessa,
uma intenção distinta da de uma folha que se lança à terra.
quero crer que tudo se faz de um só ventre, que tudo ocupa o tempo
sem diferença, que uma só voz pronuncia todas as palavras desde sempre.
quero crer que se gritar bem alto uma canção ressoará num ouvido,
que se disser "nasci da imaginaçaõ de um lírio" meus pés firmarão
raízes no azul dos rios e rebolarei a eternidade no leito dos campos,
internamente, como se não me fosse estranha a vida da seiva.
Vasco Gato, "Um Mover de Mão"

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6:33 PM -


Trio Posted by Hello

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6:14 PM - D. João Segundo/Olhando o Tejo/Soneto

Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra -
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra.
Seu formidável vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu,
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.
*
Rebanhos além monte ela guardava,
Seu canto me vem no vento trazido,
E uma ânsia pela sua mágoa
Enche o que em é definido.
Lagos de espírito murados de rochas
Dormem no vazio da sua toada.
A sua nudez ali se demora
A reflectir na sombra salpicada.
Mas o que há de real em tudo isto
É a minha alma, a tarde, o cais somente
E, como sombra dos meus sonhos disto,
A dor em mim de nova dor se sente.
Mas o que é ela que traz o pesar?
E o que há nela que o pesar desvanece?
Que rasto de amor é este bem-estar
Que segue o seu trilho, se desaparece.
Lírios há entre corações e mãos.
A vida é pequena ao pé do luar.
Mas movam-se um pouco as árvores que estão
E logo se espera que ela vá voltar.
*
Pudesse o que penso exprimir e dizer
Cada pensamento oculto e silente,
Levar meu sentir moldado na mente
A ser natural perante o viver;
Pudesse a alma verter, confessar
Os segredos íntimos em seu ser;
Grande eu seria, mas não pude aprender
Uma língua bem, que expresse o pesar.
Assim, dia e noite novo sussurrar,
E noite e dia sussurros que vão...
Oh! A palavra ou frase em que atirar
O que penso e sinto, acordando então
O mundo; mas, mudo, não sei cantar,
Mudo com as nuvens antes do trovão.
Fernando Pessoa, nasceu no dia 13 de Junho de 1888 e faleceu no dia 30 de Novembro de 1935.
"Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus."
Alberto Caeiro ( um dos heterónimos de Fernando Pessoa )

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6:12 PM -


Apolo perseguindo Dafne Posted by Hello

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5:50 PM -

Leram-me hoje S. Francisco de Assis.
Leram-me e pasmei.
Como é que um homem que gostava tanto das cousas
Nunca olhava para elas, não sabia o que elas eram?
Porque hei-de chamar minha irmã à água, se ela não é minha irmã?
Para sentir melhor?
Sinto-a melhor bebendo-a do que chamando-lhe qualquer cousa -
Irmã, ou mãe, ou filha.
A água é a água e é bela por isso.
Se eu lhe chamar minha irmã,
Ao chamar-lhe minha irmã, vejo que o não é
E que se ela é a água o melhor é chamar-lhe água;
Ou, melhor ainda, não lhe chamar cousa nenhuma,
Mas bebê-la, senti-la nos pulsos, olhar para ela
E tudo isto sem nome nenhum.
*
A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe,
Sabe como é que as cousas existem, que é que existem,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto.
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
*
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória as naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde vem.
E, por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Alberto Caeiro

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5:48 PM -


Aldeia. Camille Pissarro Posted by Hello

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5:31 PM - .../Ode/...

Não porque os deuses findaram, alva Lídia, choro...
Mas porque nas bocas de hoje os nomes sobrevivem
Mortos apenas, como nomes em pedras sepulcrais.
Por isso, Lídia, lamento
Que Vénus em bocas cristãs seja uma palavra dita,
Que Apolo seja um nome que usam quantos
Sequentes de Cristo - e a crença lúcida
Nos deuses puramente deuses,
Tenha passado e ficado, cinza do que era fogo,
lama do que era água reflectindo as árvores,
Tronco morto do que dava fruto e florescia,
Mas se choro, não creio
menos que ainda existo, como existem os deuses.
*
Já sobre a fronte vã se me acinzenta
O cabelo do jovem que perdi.
Meus olhos brilham menos.
Já mão tem jus a beijos minha boca.
Se me aindas amas, por amor não ames:
Traíras-me comigo.
*
Prazer, mas devagar,
Lídia, que a sorte àqueles não é grata
Que lhe das mãos arrancam.
Furtivos retiremos do horto mundo
Os depredandos pomos.
Não despertemos, onde dorme, a erinis
Que cada gozo trava.
Como um regato, mudos passageiros,
Gozemos escondidos.
A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos.
Ricardo Reis

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5:26 PM -


Birth of Venus - Botticelli Posted by Hello

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4:12 PM - Ah, Um soneto.../Escrito num livro abandonado em viagem/...

Meu coração é um almirante louco
Que abandonou a profissão do mar
E que a vai relembrando pouco a pouco
Em casa a passear, a passear...
No movimento ( eu mesmo me desloco
Nesta cadeira, só de o imaginar )
O mar abandonado fica em foco
Nos músculos cansados de parar.
Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.
Mas- esta é boa! - era do coração
Que eu falava...e onde diabo estou eu agora
Com almirante em vez de sensação?...


*

Venho dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.
Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem do passado nem do futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram.
*
Lisboa com sua casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
de várias cores,
Lisboa com suas casas de várias cores...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.
Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra ( porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho ),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.
Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
À força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.
Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa de suas casas
De várias cores.
Álvaro de Campos, Ficções de Interlúdio

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4:06 PM -


Txatxorras-Cube 222.CAPa Posted by Hello

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3:54 PM - Dobrada à Moda do Porto

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que preferia quente,
Que a dobrada ( e era à moda do Porto ) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
( Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje ).
Sei isso muitas vezes.
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Álvaro de Campos

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1:03 PM -




"O estilo de um grande artista, ele próprio não o sabe. Como a sua voz. Ou os seus gestos. Ou a mímica do seu rosto quando fala. Porque quando o souber tê-lo-ia já perdido. "

Vergílio Ferreira (1916-1997)

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12:38 PM - António Aleixo



....

À gente que não precisa,
às pessoas importantes...
às vezes os sem camisa
dizem coisas interessantes.

Os poetas e os heróis,
que entre nós são destacados,
são tal qual os rouxinóis:
não precisam cultivados.

Num arranco de loucura,
filha desta confusão,
vai todo o mundo à procura
daquilo que tem na mão.

Direi mal, daqui não saio.
apenas canto o que é meu,
não sou como o papagaio
que só diz o que aprendeu.

Bate a fome à porta deles
e lá é mais mal recebida
do que na casa daqueles
que a sofreram toda a vida.

Quantas sedas aí vão,
quantos colarinhos brancos,
são pedacinhos de pão
roubados aos pobrezinhos!

Aqui não valho um vintém,
longe daqui sou dif'rente;
se vou onde vai alguém
às vezes pareço gente.

Eu já não sei o que faça
p'ra juntar algum dinheiro;
se se vendesse a desgraça
já hoje eu era banqueiro.

Tu não me emprestas dinheiro
porque não tenho um vintém;
mas se to pede um banqueiro
quer vinte, ofereces-lhe cem.

Um homem quando tem notas,
pode parecer perverso:
todos lhe engraxam as botas
- se as não têm, anda descalço.

Nas quadras que a gente vê
quase sempre o mais bonito
está guardado para quem lê
o que lá não 'stá escrito.

Mentes, mas nem caso faço
das piadas que me atiras,
porque no mundo há espaço
p'ra biliões de mentiras.
....

És um rapaz instruído,
és um doutor; em resumo;
és um limão que espremido,
não dá caroço nem sumo.
.....

Tem a música o poder
de tornar o homem f'liz;
nem há quem saiba dizer
tanto quanto ela nos diz.



António Aleixo
(1899-1949)

in " Este livro que vos deixo"
pag 39 a 42
Edição de Vitalino M. Aleixo( filho do poeta)

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12:18 PM - Desquite


Mário de Sá-Carneiro Posted by Hello
Dispam-me o Ouro e o Luar,
Rasguem as minhas togas de astros -
Quebrem os ónix e alabastros
Do meu não querer igualar.
Que faço só na grande Praça
Que o meu orgulho rodeou -
Estátua, ascensão do que não sou,
Perfil prolixo de que ameaça?...
...E o sol... ah, o sol do acaso,
Perturbação de fosco e Império -
A solidão dum ermitério
Na impaciência dum atraso...
O cavaleiro que partiu,
E não voltou nem deu notícias -
Tão belas foram as primícias,
Depois só luto o anel cingiu...
A grande festa anunciada
As galas e elmos principescos,
Apenas foi executada
A guinchos e esgares simiescos...
Ânsia de Rosa e braços nús,
Findou de enleios ou de enjoos...
- Que desbaratos os meus voos;
Ai, que espantalho a minha cruz...
Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa em 19 de Maio de 1890, e, morreu em Paris a 26 de Abril de 1916. De infância e adolescência difíceis, marcadas pela angústia e a solidão, em 1912, partiu para Paris, onde pretendeu estudar Direito. Frequentando o curso irregularmente, jamais chegou a formar-se. Às dificuldades emocionais somaram-se as financeiras. O único amigo que tinha era Fernando Pessoa que, em Lisboa, e, em 1913, o introduziu entre os modernistas da revista Orfeu. Na correspondêencia trocada com Pessoa, nota-se o ritmo crescente dos seus problemas, o seu desespero, até ao suicídio no hotel, em Nice.
Personalidade dissociada, corroída pela neurose, agitando-se numa acuidade sensorial levada ao paradoxo, Sá-Carneiro encarna, como ninguém, as frustrações e os pesadelos do seu país, dividido entre a nostalgia da glória, do luxo, do cristal e ouro do passado, e a atracção pela modernidade e pelas luzes da renovação europeias. Tudo nele é angústia pessoal e filtração de angústias colectivas. Nesse sentido, quando mais narcisista se debruça sobre si mesmo, dilacerado entre o fascínio e a repugnância, mais ainda - e sem que jamais o saiba - traduz os factos de Portugal.
Publicou os seguintes livros "Amizade" ( com Tomaz Cabreira Júnior ), 1912; "Dispersão", 1914; "A Confissão de Lúcio", 1914; "Céu em Fogo", 1915.
Deixou inéditos "Índícios de Ouro", poemas; e o primeiro capítulo de uma novela intitulada "Mundo Interior".
Mário de Sá-Carneiro deixou a Fernando Pessoa a indicação de publicar a sua obra, onde, quando e como lhe parecesse melhor.

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12:06 PM - Elegia

Minha presença de cetim
Toda bordada a cor-de-rosa,
Que foste sempre um adeus em mim
Por uma tarde silenciosa...
Ó dedos longos que toquei,
Mas se os toquei desapareceram...
Ó minhas bocas que esperei
E nunca mais se me estenderam...
Meus boulevards de Europa e beijos
Onde fui só um espectador...
- Que sono lasso, o meu amor;
Que poeira de ouro, os meus desejos...
Há mãos pendidas de amuradas
No meu anseio a vaguear...
Em mim findou todo o luar
Da lua dum conto de fadas.
Eu fui alguém que se enganou
E achou mais belo ter errado...
Mantenho o trono mascarado
onde me sagrei Pierrot.
Minhas tristezas de cristal,
Meus débeis arrependimentos
São hoje os velhos paramentos
Duma pesada Catedral.
Pobres enleios de carmim
Que reservara pra algum dia...
A sombra loira, fugidia,
Jamais se abeirará de mim...
(...)
Mário de Sá-Carneiro, "Poemas Completos"

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12:05 PM -


Elegia Posted by Hello

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Quarta-feira, Junho 08, 2005

10:28 PM - III - Inter-Sonho

Numa incerta melodia
Toda a minh'alma se esconde.
Reminiscências de Aonde
Perturbam-me em nostalgia...
Manhã d'armas! Manhã d'armas!
Romaria! Romaria!
.................................................
Tacteio...dobro...resvalo
.................................................
Que pesadelo tão bom...
.................................................
pressinto um grande intervalo,
Deliro todas as cores,
Vivo em roxo e morro em som...
Mário Sá-Carneiro, "Poesias Completas"

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9:42 PM - Quasi

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão...Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d'espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quasi vivido...
Quasi o amor, quasi o triunfo e a chama,
Quasi o princípio e o fim - quasi a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo...e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E as mãos d'herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
(...)
Mário de Sá-Carneiro, "Poemas Completos"

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6:38 PM -


Pôr de Sol Posted by Hello

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6:19 PM - Romance XXXVIII ou do Embuçado


Embuçado Posted by Hello
Homem ou mulher? Quem soube?
Tinha o chapéu desabado.
A capa embrulhava-se todo:
era o Embuçado.
Fidalgo? Escravo? Quem era?
De quem trazia o recado?
Foi no quintal? Foi no muro?
Mas de que lado?
Passou por aquela ponte?
Entrou naquele sobrado?
Vinha de perto ou de longe?
Era o Embuçado.
Trazia chaves pendentes?
Bateu com o punho apressado?
Viu a dona com o menino?
Ficou calado?
A casa não era aquela?
Notou que estava enganado?
Ficou chorando o menino?
Era o Embuçado.
"Fugi. Fugi, que vem tropa,
que sereis preso e enforcado..."
Isso foi tudo o que disse
o mascarado?
Subiu por aquele morro?
Entrou naquele valado?
Desapareceu na fonte?
Era o Embuçado.
Homem ou mulher? Quem soube?
Veio por si? Foi mandado?
A que horas foi? De que noite?
Visto ou sonhado?
Era a morte, que corria?
Era o Amor, com seu cuidado?
Era o Amigo? Era o Inimigo?
Era o Embuçado.
Cecília Meireles, "Romanceiro da Inconfidência"

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6:03 PM - Romance XXXVI ou das Sentinelas


De noite e de dia Posted by Hello
De noite e de dia,
por todos os lados,
caminham dois homens,
que vão disfarçados,
pois são granadeiros
e - sendo soldados -
alguém lhes permite
bigodes rapados.
Ai, pobre do Alferes,
que gira inocente,
sonhando outro mundo,
amando outra gente...
Vai jogando sonhos:
-lúdica semente!-
brotam sentinelas,
miseravelmente...
Ao sair das portas,
diante dos sobrados,
em qualquer esquina,
sempre ali postados.
São dois? São duzentos?
São dois mil? Lavrados
em febre, parecem,
e multiplicados...
( Esses vultos que me seguem,
Joaquim Silvério, quem são?
Devem ser as sentinelas
que amanhã me prenderão?
Quem as pôs sobre os meus passos?
Quem comete essa traição?
Responde, Joaquim Silvério,
quem nos leva à perdição? )
Mas não há resposta,
- que o traidor prudente
desliza nas sombras,
não fala de frente...
A um deserto surdo
clama, inutilmente,
o animoso Alferes...
- Só ele - presente.
Cecília Meireles, "Romanceiro da Inconfidência"

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5:41 PM - Romance XXXV ou do Suspiroso Alferes


Minas Posted by Hello
Terra de tantas lagoas!
Terra de tantas colinas
No fundo das águas podres,
o turvo reino das febres...
"Ah! se eu me apanhasse em Minas..."
No palácio vãos fidalgos.
Santos vãos, pelas esquinas.
Pelas portas e janelas,
as bocas murmurandoras...
"Ah! se eu me apanhasse em Minas..."
Rios inchados de chuva,
serra fusca de neblinas...
Quem tivera uma canoa,
quem correra, quem remara...
"Ah! se eu me apanhasse em Minas..."
( Que vens tu fazer, Alferes,
com tuas loucas doutrinas?
Todos querem liberdade,
mas quem por ela trabalha? )
"Ah! se eu me apanhasse em Minas..."
( O humano resgaste custa
pesadas carnificinas!
Quem morre, para dar vida?
Quem quer arriscar seu sangue? )
"Ah! se eu me apanhasse em Minas..."
Minas das altas montanhas,
das infinitas campinas...
Quem galopara essa léguas!
Quem batera àquelas portas!
"Ah! se eu me apanhasse em Minas..."
Mas os traidores labutam
nas funestas oficinas:
vão e vêm as sentinelas,
passam cartas de denúncia...
"Ah! se eu me apanhasse em Minas..."
( E tudo é tão diferente
do que em saudade imaginas!
Onde estão os teus amigos?
Quem te ampara? Quem te salva,
mesmo em Minas? Mesmo em Minas? )
Cecília Meireles, "Romanceiro da Inconfidência"

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5:26 PM - Romance XXXIV ou de Joaquim Silveira


Tela 2 Posted by Hello
Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério:
que ele traiu Jesus Cristo,
tu trais um simples alferes.
Recebeu trinta dinheiros...
- e tu muitas coisas pedes:
pensão para toda a vida,
perdão para quanto deves,
comenda para o pescoço,
honras, glórias, privilégios.
E andas tão bem na cobrança
que quase tudo recebes!
Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério!
Pois ele encontra remorso,
coisa que não te acomete.
Ele topa uma figueira,
tu calmamente envelheces,
orgulhoso e impenitente,
com teus sombrios mistérios.
( Pelos caminhos do mundo,
nenhum destino se perde:
há os grandes sonhos dos homens,
e a surda força dos vermes. )
Cecília Meireles, "Romanceiro da Inconfidência"

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5:11 PM - Minha Grande Ternura

Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos;
Pelas pequeninas aranhas.
Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias;
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de o ser.
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.
Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.
Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.
Minha grande ternura
Pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite de um túmulo.
Manuel Bandeira

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4:58 PM -


A minha miúda Posted by Hello
a minha miúda é alta e de olhos duros e longos
assim de pé, com suas longas e duras mãos guardando
silêncio no seu vestido, bom para dormir
é o seu longo e duro corpo cheio de surpresas
qual branco arame electrificado, quando sorri
um duro e longo sorriso isso às vezes faz
crescer alegremente em mim ardentes comichões,
e o frágil ruído dos seus olhos facilmente aguça
a minha impaciência até à ponta - a minha miúda é alta
e tesa, com pernas finas tal qual uma trepadeira
que passou a vida inteira num muro de jardim,
e vai morrer. Quando carrancudos amos para a cama
com estas pernas começa a lançar-se e a enroscar-se
à minha volta, e a beijar-me o rosto e a cabeça.
E.E.Cummings, "XIX Poemas", 1998

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4:48 PM -

Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se de uma outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.
Ela só viu lágrimas em fio,
que de uns e de outros derivadas
se acrescentaram em grande e largo rio.
Ela viu as palavras magoadas

que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso às almas condenadas.
Luís de Camões, séc. XVI

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4:45 PM -


Fogo frio Posted by Hello

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4:32 PM -

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
tam fora d'esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
João Roiz de Castel-Branco, séc. XV

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11:11 AM -





..................................................

Dos séculos me chegam estas vozes
e de tantos países!
Quando cantam,
uns falam dos mistérios da natura;
outros me acordam para a vida e a morte;
ou cantam de altos feitos, recordando
as eras já passadas; outros brincam,
esqueço a tristeza, fazem-me sorrir.
Alguns há que me ensinam a sofrer,
a não sentir saudade, a conhecer-me.
Mestres me são da guerra e paz, do esforço
posto em criar, e de arte no dizer,
e de viagens sobre o mar profundo.


.......................................


Petrarca ( 1304-1374)
Epístola Latina a Giacomo Colonna
in " Poesia de 26 séculos"
antologia de Jorge de Sena
Edições Asa

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Terça-feira, Junho 07, 2005

8:51 PM - Salmo à Sabedoria ( Biblioteca de Qumran)

[...]
Inflamei por ela meu coração
sem desviar o olhar.
Por ela ardi em desejo
em suas alturas não vacilava.
Minha mão abriu (suas portas)
e compreendi sua nudez.

Purifica agora minha mão.[...]


SALMOS APÓCRIFOS (SEC. I A.C.)

(tradução de José Tolentino de Mendonça)

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4:30 PM - " De Sancta Maria"


Autor: André Gonçalves (1686 - 1762)



O frondens virga,
in tua nobilitate stans
sicut aurora procedit.
Nunc gaude et laetare
et nos debiles dignare
a mala consuetudine liberare,
atque manum tuam porrige
ad erigendum nos.

*
Ó frondosa vara,
que majestosa te elevas
aurora quando desponta.
A ti o gáudio e a alegria
a nós débeis digna-te
livrar do costume mau,
tua mão estende
para elevar-nos.


Hildegard von Bingen - (1098-1179)
(abadessa, escritora, música, visionária, pintora)


in: "Flor Brilhante" - Assírio & Alvim - 2004
tradução de Joaquim Félix de Carvalho e
de José Tolentino Mendonça


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3:09 PM - Poema Zulu ( África do Sul)




Há quanto tempo, quando o país estava devastado, durante a
guerra entre Umatiwane e Umpagazita, as pás chocalharam enquanto
as pessoas cavavam. Elas olharam e as pás disseram: Estão a olhar para
onde? Somos só nós, as pás. Depois um cão sentou-se e disse:
Madhladhla! não tens
pena do meu tesouro.
Canta comigo, Pai
sobre o filho de Ulxadhlakadhala
o seu filho único!
As pessoas disseram, ao ouvir a cantiga do cão: Este país está
perdido.


(tradução de José Bento Oliveira)

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2:28 AM - !


Porque vivemos o que vivemos
porque vemos o que vemos
porque fazemos o que fazemos
passarei a pente fino todas as folhas
jornais, poemas, artigos, cartas
boletins,discursos
e eliminarei deles
todos os pontos de exclamação.


Murid Al-Barghouti (poeta palestiniano)

Trad. de Albano Martins

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Segunda-feira, Junho 06, 2005

4:47 PM - Marc Chagall




só é meu
o país que trago dentro da alma.
entro nele sem passaporte
como em minha casa.
ele vê a minha tristeza
e a minha solidão.
me acalanta.
me cobre com uma pedra perfumada.
dentro de mim florescem jardins.
minhas flores são inventadas.
as ruas me pertencem
mas não há casas nas ruas.
as casas foram destruídas desde a minha infância.
os seus habitantes vagueiam no espaço
à procura de um lar.
instalam-se em minha alma.
eis por que sorrio
quando mal brilha o meu sol.
ou choro
como uma chuva leve
na noite.
houve tempo em que eu tinha duas cabeças.
houve tempo em que essas duas caras
se cobriam de um orvalho amoroso.
se fundiam como o perfume de uma rosa.
hoje em dia me parece
que até quando recuo
estou avançando
para uma alta portada
atrás da qual se estendem altas muralhas
onde dormem trovões extintos
e relâmpagos partidos.
só é meu
o mundo que trago dentro da alma.

Marc Chagall*

(tradução: manuel bandeira)

*nasceu em 1887 na Rússia Czarista. Filho mais velho de uma família pobre, educou-se em um ambiente de perseguição aos judeus. Em 1910, mudou-se para Paris, onde viveu até 1914 e onde teve contacto com as sucessivas vanguardas do mundo das artes plásticas.Inicialmente aceite pelo regime soviético, em 1922 afastou-se dele e regressou a França. Durante a Segunda Guerra Mundial viveu nos Estados Unidos. Múltiplo artista, cultivou, além da pintura, a cenografia, os vitrais, os mosaicos, etc. O seu mundo pictórico desligou-se em certo modo das vanguardas e tornou-se profundamente pessoal, contendo elementos cubistas e surrealistas, assim como símbolos judaicos e russos. O caráter onírico, a variedade cromática, um aparente infantilismo e a facilidade decorativa repetem-se incessantemente na sua pintura. Reconhecido como um dos principais pintores do século XX, Marc Chagall morreu em 1985 em França.

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Domingo, Junho 05, 2005

2:14 PM - Colapso





Tudo está
eternamente
escrito
(Spinosa)

Tudo está
eternamente
em Quito
( uma Rosa)

Mário Cesariny*
( in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, Eugénio de Andrade
edição Campo das Letras)

*'nasceu no dia 9 de Agosto de 1923 em Lisboa. Freqüentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e estudou música com o compositor Fernando Lopes Graça. Considerado o mais importante representante poeta português da escola Surrealista, encontra-se em 1947 com André Breton, fato determinante no desenvolvimento de seu trabalho literário. Ainda nesse ano participa, junto com Alexandre O'neill, Antônio Pedro etc., do Grupo Surrealista de Lisboa. Algum tempo depois, por não concordar com a linha ideológica do grupo, afasta-se de maneira polêmica e funda o "Grupo Surrealista Dissidente".
Principal representante do Surrealismo português, Mario Cesariny, no início de sua produção literária, mostra-se influenciado por Cesário Verde e pelo Futurismo de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Ao integrar-se ao Grupo Surrealista, muda o seu estilo, trazendo para sua obra o "absurdo", o "insólito" e o "o inverossímil". Além de poeta, romancista, ensaísta e dramaturgo, também dedicou-se a às artes plásticas, sobretudo à pintura. '
( in MUNDOCULTURAL)

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Sábado, Junho 04, 2005

3:59 PM -

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3:46 PM - Barcos




"Nha terra e' quel piquinino
E' Sao Vicente e' que di meu"


Nas praias
Da minha infancia
Morrem barcos
Desmantelados.
Fantasmas

De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.
E eu sou a mesma

Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio...
A embarcação
Para o mar!
É para o mar!...
E o pobre barco

O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...

YOLANDA MORAZZO
(Mindelo, Ilha de S.Vicente, Cabo Verde, 16/12/1928)

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2:32 PM - Mensagem à Poesia





Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí.
Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la.
A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim.
Vivo do desejo de revê-Ia
Num mundo em paz.
Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo.
Talvez eu deva
Morrer sem vê-la mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia.
Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia.
Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.



Vinicius de Moraes
(in "Poesia completa e prosa: "O encontro do cotidiano" )

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Sexta-feira, Junho 03, 2005

9:41 PM - Mani-festa-acção/Teatro da Estrada





Um: Por um Teatro de Actores
Dois: Por um Teatro Socialmente Consciente
Três: Por um Teatro Não Mercantilizado
Quatro: Por um Teatro Comunitário
Cinco: Por um Teatro Festa
Seis: Por um Teatro Ritual e Crú
Sete: Por um Teatro Visual
Oito: Por um Teatro Simbólico
Nove: Por um Teatro Poético
Dez: Por um Teatro Vivo

Onze: POR UM TEATRO centrado no Actor, consciente do seu papel social, fora da lógica economicista, centrado na comunidade e nas suas manifestações festivas e rituais, de volta ao valor simbólico onde a linguagem poética marque a VIDA de tudo e de todos.

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9:38 PM -

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3:08 PM - Caminhemos Serenos


fotografia de Misha Gordin



Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
caminhemos serenos.

de mãos dadas
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade
caminhemos serenos

sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões do fogo
dos que nem com a morte podem vencer-nos
caminhemos serenos.

o que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia connosco vai.
e já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável
que temer, ó minha querida?
caminhemos serenos

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
caminhemos serenos.



Papiano Carlos ( 1918)

( sonhar a terra livre e Insubmissa)
em "800 anos de poesia portuguesa"
edição circulo de leitores, 1973

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12:46 PM - ( MINHA CABEÇA ESTREMECE COM TODO O ESQUECIMENTO)




Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no meu esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.

Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocada
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

Herberto Helder

(in «Ou o Poema Contínuo»,Súmula,Assírio & Alvim, 2001)

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Quinta-feira, Junho 02, 2005

9:39 PM - Canção de uma Sombra





Ah! se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela, onde me vou
Debruçar para ouvir a voz das coisas,
- Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte que chorava
E como nós cantava, e que secou...
E este sol, que eu comungo de joelhos,
- Eu não era o que sou.

Ah! se não fosse este luar, que chama
Os espectros à vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
- Eu não era o que sou.

E, se a estrela da tarde não brilhasse,
E, se não fosse o vento, que embalou
Meu coração e as nuvens, nos meus braços,
- Eu não era o que sou.

Ah! se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombras povoou,
E de vozes sombrias meus ouvidos,
- Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio,
Que ergue as asas e sobe em claro voo;
Sem estes ermos-montes e arvoredos,
- Eu não era o que sou.


Teixeira de Pascoaes (1867-1952)
in As Sombras.

Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, que adoptou o pseudónimo literário de Teixeira de Pascoaes, nasceu em Amarante em 1877 e aí faleceu em 1952.Fez estudos secundários em Amarante, tendo publicado em 1895, Embriões. Estudou Direito em Coimbra, onde se .licenciou em 1901.Durante os seus estudos universitário publicou Bello (1ªparte, 1896; 2ªparte, 1897), Sempre (1898) e Terra Proibida (1899). Após a conclusão do seu curso exerceu a advocacia em Amarante e no Porto; posteriormente, foi juiz substituto em Amarante, mas, dez anos depois, em 1913, deu por concluída a sua carreira jurídica. Entretanto, entre 1912 e 1916 dirigiu A Águia, revista e porta-voz do movimento da Renascença Portuguesa. Aí divulgou as suas teorias sobre o Saudosismo que, mais tarde, em 1915, retomaria no volume Arte de Ser Português e noutros volumes de ensaios.A sua vida continuou no seu habitat natural, a Serra do Marão, em recolhimento contemplativo, recebendo amigos e admiradores e produzindo a sua vasta obra.

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9:24 PM - Poema Ancestral



Lembra os dias antigos
Em que cantavas a pureza
Na nudez dos teus passos e gestos
Ou dançavas na inocente vaidade
Ao som dos «babadok».
Relembra as trevas da tua inquietação
E o silêncio das tuas expectativas,
As chuvas, as memórias heróicas,
Os milagres telúricos,
Os fantasmas e os temores.
Tenta lembrar a herança milenar dos teus avós
Traduzida em sabedoria
E verdade de todos.
Recorda a festa das colheitas,
A harmonia dos teus Ritos,
A lição antiga da liberdade,
Filha da natureza.
Recorda a tua fé guerreira,
A lealdade,
E a ternura do teu lar sem limites,
Nos caminhos do inesperado
Ou no improviso da partilha definitiva.
Lembra pela última vez
Que a história da tua ancestralidade
É a história da tua Terra Mãe...

Crisódio T.Araújo
( activista da libertação e independência de Timor Leste)

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9:01 PM - A Ilha




A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas de abandono e medo.

No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.

Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba
e mortal das cobras.

Maria Manuela Margarido (S.Tomé e Príncipe)

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Quarta-feira, Junho 01, 2005

11:42 PM -


A Campos Posted by Hello

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11:21 PM - Poesia Matemática

Às folhas tantas
Do livro matemático
Um quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma incógnita
Olhou-se com um olhar inumerável
E viu, do ápice à base
Uma figura impar
Olhos ombóides, boca trapezóide
Corpo octogonal, seios esferóides
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela
Até se encontraram
No infinito
"Quem és tu?", indagou ele
Com ânsia radical
"Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa"
E de falarem descobriram quem eram
_O que, em aritmética, corresponde
a almas irmãs_
Primos entre si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa seta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas senoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam as convenções newtonianas e pitagóricas.
E, em fim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Uma perpendicular
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com a felicidade
Integral
E diferencial
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador dos círculos concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma grandeza absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum,
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava um todo
Uma unidade. Era um triângulo
tanto chamado amorosa
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade...
Millôr Fernandes

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5:27 PM -


Arte 2. Posted by Hello

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4:52 PM - A Fonte da Arte


Arte 1. Posted by Hello
Homenageio a tua primavera em flor
alma precocemente iluminada
que pões a salvação no mais profundo risco
o silêncio dos olhos sobranceiros
na predestinação da profecia
suavidade um dia em minha morte
com o olhar imerso em tristeza
Povoam pássaros a noite
tudo era pensamento para mim
e as palavras só vinham depois
Ó meu país longínquo donde venho
nessa nuvem de vida sobre a minha morte
Na manhã combalida do domingo
na primavera dolorosa dos teus passos ruy
ao tempo de uma má reputação
o metro tem a voz de um cordeiro triste
É isso apenas isso e o demais são
a morte e a nascença dos contrários a
fórmula da ternura e do sossego
abismos de ameaças nos seus olhos
regiões insondáveis e inacessíveis
pequeníssimas flores da memória
relâmpago dourado do olhar
os cheiros acres das redondas cavidades
a tua boca de ouro de onde voam palavras
animadas figuras do meu sonho
os peixes negros e dourados das recordações
olhos brilhantes de animais desconhecidos
coisas que por pensá-las eu as sinto
Os dias diminuem é outono
alguém alguma coisa me virá desse distante bosque
O que dirão de mim o castanheiro
os rostos múltiplos trazidos pela tarde num momento
a verde zebra que nos campos vibra ou
papoila rubra que no céu me sobra?
Mas como muito mais amo o bem e o mal
os campos no outono moribundo
no meio do inverno a casa acolhedora
estranha companheira dos meus dias
demónio de demência e desespero
ao longo do caminho no outono
O receio da morte é a fonte da arte
Eu amo a embriaguez vasta dos espaços
a canção inquieta do amor as
alturas coloridas do outono
Não se pode dizer muito melhor
na monstruosa veemência dos sentidos
e sinto-me perdido de tristeza
entre esses longos nomes das mulheres casadas
Houveram morte às minhas mãos as cartas
os aviões nos distribuem por países
saem de um centro partem nas mais várias direcções
farejam na distância os seus destinos
retalham-nos o espaço em sulcos provisórios
Por onde corre agora a fonte das suaves raparigas?
Ficou na casa o meu lugar vazio
levo a desgraça com um braço ao peito
e árvores ao vento neste dia
Queimam as folhas no parque del oeste
o tecto é baixo o sol está quase a pôr-se
tenho nas minhas mãos três notas do país amado
Esta manhã falavam-me de málaga
e de súbito no meio da névoa
abriu-se o céu de há anos no verão
Éramos tão jovens nesse tempo
que não sabíamos sequer que nos amávamos assim
e discutimos junto ao porto e regressámos separados
ao hostal onde estavamos aboletados
E tu de olhos no chão reflectias o vulto entre as águas
e não havia os filhos éramos os dois apenas
mas enfim foi há pouco posto que inda hoje brilha
a moeda nesse ano posta em circulação
e que acabo de ter nas minhas mãos no bar
Não me farto de contemplar
o braço esquerdo e a perna direita
que cortados de mim não me pertencem mais
Tu foste sempre reino sobre ti
e o meu desejo é seguir do alto o tejo
Que depressa se esfuma uma cidade no ar
não são sequer as nuvens nem o vasto espaço
basta um golpe de asas que roçando limpe
o pára-brisas próximo horizonte
Pensar é estar alguma coisa a mais
pensar é o que sobra da respiração
pensar é o que não nos leva às coisas
pensando se antecipa a própria morte
O receio da morte é a fonte da arte.
Ruy Belo

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4:45 PM -


Tela Posted by Hello

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4:17 PM - Serviço de abastecimento da palavra ao país


Encontro Posted by Hello
Vieram ter comigo dos lados do mar. Eram três, eram tês mil. Vi que era pão que procuravam ou que não era pão que procuravam. Pus-me a distribuir por eles as minhas palavras: árvore, pássaro, mar, criança, rapariga, mulher. A cada palavra minha eu ia-me esvaziando. Era a vida, a minha vida que se ia. Eles ficavam incendiados. Nunca tinham pensado que se pudesse comunicar assim coisas próprias. Vieram mais, muitos mais dos lados do mar. Disse-lhes: morte, Deus. E caí redondo no chão. Naquele dia ficou instituído o Serviço de abastecimento de palavras ao país. Ainda vieram ter comigo, dizendo para eu arranjar outra designação, que aquelas iniciais não podiam ser. Mas eu já habitava plenamente a minha morte, meu planeta desde tenra idade.
Ruy Belo

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2:59 PM -





Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Era um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!

Mar!
Enganosa sereia louca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!

Miguel Torga*
" Poemas Ibéricos" ( 1965)


*pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, nasceu em 1907 em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, Trás-os-Montes, e faleceu em 17 de Janeiro de 1995 em Coimbra. Emigrou para o Brasil ainda jovem e, quando regressou em 1925, matriculou-se na Universidade de Coimbra onde se formou em Medicina. Esteve de início literariamente próximo do grupo da Presença, sediado em Coimbra. Por volta de 1930, estava já afastado do grupo, fundando a revista Sinal. Funda pouco depois a revista Manisfesto. Começou a ser conhecido como poeta, tendo mais tarde ganho notoriedade com os seus contos ruralistas e os seus dezasseis volumes de Diário, estes publicados entre 1941-1995. Várias vezes nomeado para o Prémio Nobel da Literatura, tornou-se um dos mais conhecidos autores portugueses do século XX.

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1:40 PM -





Companheiros

quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
por que andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver

hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-me saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço
companheiros.


Mia Couto*

*Mia Couto nasceu na Beira, Moçambique, em 1955. Foi director da Agência de Informação de Moçambique, da revista Tempo e do jornal Notícias de Maputo.Tornou-se nestes últimos anos um dos ficcionistas mais conhecidos das literaturas de língua portuguesa. O seu trabalho sobre a língua permite-lhe obter uma grande expressividade, por meio da qual comunica aos leitores todo o drama da vida em Moçambique após a independência. Os seus livros estão traduzidos nomeadamente em francês, inglês, alemão, italiano e espanhol.

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1:03 PM -



(...)
Não sou eu! Não sou eu! Juro! Não me matem...
Asneiras, o barulho cansado do ar cansado nos peitos soprando com força da corrida, a raiva a bater, o medo, tudo sai, aproveitando na esquiva que a noite dá e rebenta o velho negro encostado na parede, se deixando escorregar, pisado no chão.
Na hora que Dina correu na confusão não pensou ainda nada. Sentiu só o bicho dentro dela a roer, parecido quando deitava no serviço com os tropas e os outros, só raiva é que saía no coração, trepava na cabeça, e se atirou no meio do monte de pessoas.
As unhas, os socos, os pontapés da mulher espantaram- um bocado, mas num instante mesmo, as mãos fortes lhe agarraram, brutas, e areia vermelha lhe entrou na boca, nos olhos sentiu o corpo pisado, muitos pés em cima dela, ainda o chorar do velho, as gargalhadas e, quando a cabeça parecia lhe ia fugir, um barulho de pés a correr e chicotadas de tiros outra vez: na rua vermelha do musseque, buzinando raivoso, o carro corria com seu grito atrás:
-Polícia!
Fechou todas as janelas e portas, amarrou raivas nos corações, pôs choros de lágrimas nos olhos. Só mesmo Dina é que ficou, levantando, sacudindo na poeira, no barro da boca e dos olhos, com essa dor grande que lhe dava alegria no mesmo tempo, a bater no peito pisado pelos sapatos. O carro limpou o escuro com os faróis e, na luz amarela que varreu o chão, o velho negro nasceu, os dentes arreganhados para o céu, a boca torcida para trás despejando sangue em cima dos cabelos brancos e a camisa aberta, mostrando o vermelho a correr no buraco do peito com a picareta sem cabo, espetada e suja..
Maluca de dor, xinguilando, a berrar, dentes para morder, Dina correu nos polícias, pelejando insultando:- Mataram-lhe! Eu vi, mataram-lhe! Filhos da puta!
Então, em cima dos seus olhos, uma noite mais negra que a noite que corria lhe tapou nas estrelas e o cassetete arrancou-lhe para longe, para o tempo onde nada lembra. (...)

José Luandino Vieira*
(" Dina"( 28-06-62) in Vidas Novas)



*José Vieira Mateus da Graça nasceu em Vila Nova de Ourém, Portugal, em 4 de Maio de 1935. Foi para Angola aos três anos de idade na companhia de seus pais que eram colonos portugueses. Foi preso em 1959. Voltou a ser preso em 1961 e condenado a 14 anos de reclusão. Solto em 1972, fixou residência em Lisboa, onde trabalhou numa editora. Regressou a Luanda em 1975. Cargos diretivos no MPLA. Presidente da Radiotelevisão Popular de Angola. Obra de ficção muito premiada. As suas poesias estão dispersas por publicações periódicas e representadas em várias antologias, das quais uma - No Reino de Caliban - reúne toda a sua obra poética.

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12:31 PM - Mundo Grande




Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho
cruamente nas livrarias: preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também na rua não cabem todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros,
carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem...sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...

Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos -voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam).

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante
exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
que o mundo, o grande mundo está
crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
-Ó, vida futura! Nós te criaremos!





Carlos Drummond de Andrade
( Nasceu em 31/10/1902 em Itabira do Mato Dentro- MG, faleceu em 17/08/1987 no Rio de Janeiro, Brasil)

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12:21 PM -


(fotografia deBeniamino Terraneo,Italian, b.1948 )


Nem só a cidade em que nascemos
é bela.

Assim ó poeta
rasga as saudades
do que é tão familiar
e parte...

Teu coração universal
deixa-o ubíquo vogar
( o mundo é grande!)

Longe
no marulhar das vozes
em infinitas ondas
há-de haver
timbre igual!

Parte pois ó poeta
enquanto é cedo
e não te mancha
ainda as mãos
uma espada...

Insepultas que estejam
as tuas estrofes
esquece
esquece
as pegadas do teu peso
hão-de permanecer
na areia...


Rui Augusto

("A lenda do chá", 1987
in Antologia da Nova Poesia Angolana
edição ENCM 2001)

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12:10 PM -

À beira da água


Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.


Eugénio de Andrade

(Os Sulcos da Sede,
Fundação Eugénio de Andrade, 2ª ed, Porto, 2001)

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12:05 PM - Pretexto


fotografia de Keith Carter



Por que não cai a noite, de uma vez?
- Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,

e o desenho de todos os portões.
Por que não cai a noite, de uma vez?
- Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam.

(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas.)


Maria Alberta Meneres
( Portugal)

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11:53 AM - José Craveirinha

"A terra treme, a areia salta, o suor escorre, as peles brilham e a voz do chigubo soa. São dois e o sangue à volta é o do chigubo. Os pés batem e o ritmo é bangue, o sangue esquece e só a dança fica, é sura e céu."

José Craveirinha
(Moçambique)
«Chigubo», Hamina e outros Contos

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11:44 AM - Uma língua e diferentes culturas




(...)
"Concordo com Steiner contra Chomsky: Cada língua é um acto de liberdade que permite a sobrevivência do homem. A multiplicidade e a complexidade das línguas é a única riqueza para os povos despojados de tudo o mais. Com cada língua que morre apaga-se a possibilidade ontológica de ser. Cada língua é algo que tem a ver com aquilo a que Blake chamou o "sagrado do particular". (...)

Uma língua e diferentes culturas. É essa a nossa riqueza. Somos diferentes na mesma língua. Uma língua em que as vogais não têm todas a mesma cor. O A de Craveirinha não tem a cor do A de Sophia, o E de João Cabral de Melo Neto não é o de Ramos Rosa, o O dos angolanos Rui Duarte de Carvalho e Manuel Rui não é o de Cursino Fortes nem o de Eugénio de Andrade. Não falo sequer da cor das vogais portuguesas a certas horas na Foz de Arelho, que é a minha praia. Direi apenas que nenhuma é branca. E em todas, desde Camões até Camilo Pessanha, há sempre um tom de verde que é o tom do Atlântico. Para já não entrar nas consoantes que, em Portugal, como se sabe, assobiam, na África cantam e no Brasil dançam. Temos um língua com vogais multicolores e consoantes sibilantes, ondeantes e até serpenteantes.

Uma língua onde há um música de fundo comum, o mar. O mar dos nossos encontros, desencontros e reencontros. Mar de uma língua e diferentes culturas. Viagem de nós para nós. Viagem de nós para o mundo."


Manuel Alegre
(excerto de Comunicação Apresentada em Madrid no quadro do Programa Cultural da Expolíngua, Março de 2003)

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