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PalavrArdente

SILVES, outrora capital do Algarve, hoje, capital da Palavra Ardente 

Domingo, Julho 31, 2005

10:20 PM - ... Carta /Poema a herberto

Herberto


sobre uma pista de raízes queimadas nas cavernas

do metropolitano tenteaste os degraus

onde as grandes

flores de loucura emudeciam - a cada passo a casa

erguia-se tecendo tramas de corredores

no frio de quartos e janelas

escancaradas à negra fixidez dos sóis

entre espelhos roídos pelos ventos de uma europa

que talvez fosse só juventude ( o que mora

no alto é igual

ao que em baixo mora) - porém na confusa

medianidade da visão está o tributo

a cada conhecimento se fecha o nó da dupla

solidão e cegos então cada coisa nos revela

o avesso como quando uma criança a ama

com o terror

que transforma a inocência em alegria

quando o desconhecido

te invade os dias Herberto esquece o seu nome a comovida

obscuridade da mulher e os rostos cruzarão

sorrisos e ansiedade na rua de repente indecifráveis

porque o desconhecido é um muro onde não se filtra o amor

nem a ferocidade dos gestos quotidianos (como

um círculo de beleza em expansão uma luz que plasma

desertos onde pousa) e é a festa de espinhos

um incêndio sacral assinalado a tua viagem com as cifras

menstruais já fim de uma infância perseguida

pelas visões - quem parte

deixa o corpo e entreabre a porta sobre as paisagens de sombra

até que se encante no ritmo a loucura encontrando

voz em cada meandro das fontes no meio das folhas

com olhos maternos de terra e os osso se vistam

de um sólido nevoeiro porque a morte é uma ponte

batida pelos passos de quem ousou conhecer tensa para unir

a ferida do abismo que nos lacera por dentro ( sem memória

de uma outra idade quando as mãos criavam palavras

para cada coisa desentranhada do silêncio de um tempo

ainda imóvel )

Herberto morremos e renascemos sós

não há companheiro que te possa vigiar o caminho

se o sono é um emaranhado de sarças pedras e vozes

enganadoras nem a mulher saberá decifrar os triunfos

da derrota - o viajante

estrangeiro voltará por entre os nomes esvaziados de cada vida

terá sílabas acesas por uma pasmada ternura

mas ninguém o escuta ( o medo fecha

ao imprevisto as fendas mais secretas ) ....

Carlos Vittorio Cattaneo in Três Solidões " Cartas - poemas para Mécia de Sena, Eugénio de Andrade e Herberto Helder- Contexto Editora, Roma 1981

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9:24 PM - ....


Fotagrafia de João Parassu

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Sexta-feira, Julho 29, 2005

7:50 PM -

Tal és mi poesía[...] arma cargada de futuro expansivo
Con que te apunto el pecho.
No és una poesia gota a gota pensada.
No és un bello producto. No es un fruto perfecto.
Son palabras[...] Son lo más necesario: lo que tiene nombre
Son gritos en el cielo, y en la terra actos.
[...] canto respirando.

Gabriel Celaya

in " nos joelhos do Silêncio"
( Heliodoro Baptista)
editorial Caminho

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7:42 PM - Do Cós da Agenda

1

Recordo o tanto mal que me fizeram
como se bebesse um misterioso vinho.
Até à última gota da garrafa.


2

Hoje, os cães passam e a caravana ladra.


3

Conheço homens e mulheres que, na água
afungentam até os maiores crocodilos.


4

Se os governos não decapitam o povo
é porque, sem ele, nem se designavam:
até os abutres bateriam em retirada.


5

Moçambique expatriou-se. É possível
encontrá-lo num mapa por fazer.
Ou, numa esquina do mundo, a tocar
viola com os dedos dos pés. Cortaram-lhe
os braços pela " sharia".



6

Ao Mia: o feminino de livro é.... livra?!


7


Se até a Lua perdeu a memória como
vou festejar o meu ramadan privado?



Beira, 1992
Heliodoro Bapista


in " Nos Joelhos do Silêncio"
Editorial Caminho

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11:24 AM - chuva

Fotografia de Miguel Lopes

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Quarta-feira, Julho 27, 2005

10:09 PM -

Chuva que tenta diluir
a progressão da sombra
nas janelas; inutilmente;
porque a tarde,
substância escura, inicou
o seu trabalho; contrastar
os anúncios de flúor; entregá-los
à noite ja legíveis;
musgo a crescer sem o suporte
das paredes; como se brotasse
num banho de vapor,
por entre névoa mentolada;
a luz há-de fluir,
compacta, no interior.

Carlos Oliveira in Trabalho Poético

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Segunda-feira, Julho 25, 2005

11:43 AM - Uma solitária nota musical para Hölderlin


Se eu perder a memória, que pureza.
Nas ameias azuis vai-se arrastando a tarde,
retém seu ouro em malhas distantíssimas,
filtra a luz por uma fenda última, estende-se, denuncia-me
como um arco que treme sobre o ar aceso
Que esperava o silêncio? Príncípes da tarde, que palácios
pisou o meu pé, que nuvens ou recifes, que país estrelado?
Durou mais do que nós aquela rosa morta.
Que doce, ao ouvido é o rumor com que giram os planetas da água.

Pere Gimferrer
in edição antologia da poesia espanhola contemporânea
trad. josé bento
edição assírio & alvim

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11:23 AM -


fotografia de Marino Parisotto in art.transindex.ro



Pôr-do-Sol


Sabes qual é o mais feroz tormento?
é o de um orador tornar-se mudo;
o de a um pintor, p'ra quem a forma é tudo,
tremer a mão; perder o seu talento

ante os néscios, e é, nesse momento
que em combate se torna mais rudo,
ficar só, sem lança sem escudo,
p'ra ao inimigo dar contentamento.

Ver-se envolto entre as nuvens do ocaso
em que enfim nosso sol desaparece
é pior que morrer. Terrível passo

sentir que nossa mente desfalece!
Nosso pecado é tão horrendo acaso
que o martírio de Luzbel assim merece?



Miguel de Unamuno

in edição antologia da poesia espanhola contemporânea
trad. josé bento
edição assírio & alvim



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Domingo, Julho 24, 2005

10:04 PM - ... Carta/Poema a Eugénio de Andrade....

Eugénio


quando já o tempo não agita a tua ânsia

de voo para um desconhecido de carne a vaentura

mas é sobre a pele um ácido mel

coagulando

nas rugas do amor desiludido ( já sem mãos

confinando aos olhos como grito na boca pregada)

- quando a àgua outrora límpida e dura é sempre

doutro rio e não há torre

que possa erguer-se nesta estagnação de charco

porque os mapas que querias evitar têm caminhos

entre desertos e ruínas - quando

sobre cabedelos onde o rio penetra o mar

te roça um amor adolescente e se perde

ignorando que nascentes de alegria

se demoram ainda em teus dedos na paciente

trama do desejo - quando uma voz de criança

traça pequenos círculos de luz no Jardim de S. Lázaro

e na sombra de folhas e veias

canta só eu

era o filho que me restava - Eugénio sentes

então a poeira tecendo no fundo de cada minuto

a vitória absurda do silêncio

- que esperança

pode esconder-se ainda no logro das palavras?

de nada servem as lembranças

se a àgua que buscavas é solidão de olhares

que não encontram um corpo se o fogo

se perdeu dos cardos eo solar impudor dos espinhos

não pode ferir ( que pastores

de outras margens ou marinheiros de outros mares poderiam

deixar marcas de inocência no desespero

dos anjos distraídos que te invadem as ruas?) repara

Eugénio na desdenhosa humildade de um cão que se deixa

morrer já sem dono - se o dono é o amor

é a sabedoria na fuga que nos lega ou uma áspera liberdade?

as palavras pesam eo ritmo obscuro dos simbolos

às vezes oprime

Até desocultar no sangue uma impensada

virgindade - mas no corpo está ausente

e calada a enredada melodia de músculos e alentos

que no verso fixamos quando já está perdida

( estava no desejo a poesia - como

matá-la? ) apenas

no amor somos mais sós que na solidão

Post scriptum :

- Agora a relva é branca como a loucura -

pássaros cegos batem contra os muros

e os rapazes matam-nos sem um sorriso sequer

( é o mundo que morre ou apenas um homem

no labirinto sem saída?) se o tempo

não tivesse esta fúria de nos correr em cima

se pudesse deter-se a descansar embalado

por esta ternura abandonada nas esquinas

da nossa vida talvez o fluir do mar

e dos dias

pudesse deixar um silêncio cheio de palavras

( o sulco luminoso que tem início e fim num corpo)

- mas não há incêndio no futuro para quem tudo queimou.

Carlo Vittorio Cattaneo in Três Solidões - " Cartas - poemas para Mécia de Sena, Eugénio de Andrade e Herberto Helder- Contexto Editora, Roma 1981

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Sexta-feira, Julho 22, 2005

4:49 PM -


fotografia de Lewis Hine in artphogallery.or


Improviso Com Sugestões Eliotianas


O tempo futuro que imaginais
Nas noites em claro dos que envelhecem,
Brotando subreptício por entre evasivas
Dos que da vida nada já podem provar,
Como erva por entre as pedras da calçada
Gasta pelos passos de quem passa
Indiferente ao tempo presente,
Amarrado ao tempo passado
Como mistura de água brotando da rocha
E vinho do cacho amadurecido
Por um derradeiro sol de Setembro
Que mal aquece a esperança
De quem viu o campo devastado
Pela medonha cavalgada.

Tomás Kim

in " cadernos de poesia
edição fac-similada dirigida por
Luis A. Carlos/ Joana Matos Frias

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3:50 PM - Ode à Beira- Nada




( tendo lido um poeta lírico armado em poeta heróico)


Eu leio estes poetas com imensa amargura.
É tão verdade que todos desejamos
( todos, menos quem deseja o sossego dos outros)
a liberdade mais perdida a cada sonho com ela
como flor tranquila vicejando algures
onde contemplá-la é só chilreio vago
do campo antigo!...Eu espero, eu vejo, eu quero,
mas há em tudo isto um travo exacto
a deslealdade, a fuga, a evasão, e não a luta,
um travo a imaginar que a outra humanidade
será melhor apenas para nós sermos os mesmos
com auditório melhor. Tudo será igual,
no fundo querem tudo igual, pois quando gritam
por este vácuo de universo e acaso,
delírio de estruturas consumindo-se
voltadas para um fim que não possuem,
pois quando gritam (e dizem nomes belos,
imprecações brilhantes, vocativos mágicos)
por este claro monstro que em mim trago,
de que não há cesariana que me salve,
não é por ele que chamam; não procuram
saber que existe, desconfiam, temem,
agarram-se uns aos outros, temerosos,
fingindo rir da ingenuidade aflita
dos que, outrora, se curvavam solícitos,
sonâmbulos, seguros, para a poeira do mundo,
nela beijando os sinais, patadas, marcas,
dos deuses que brincavam aos humanos,
como os humanos a imortais brincavam,
brincavam a invisíveis, a sem peso,
primeiro ainda orgulhosos de que as coisas
fossem a pedra com que faziam outras,
depois já tristes de que as pedras fossem
como o regresso ao ventre entressonhado,
mais tarde atentos à evidência de estar vivos,
e quase agora aflitos sem saber porquê.
Não, não, toda esta gente é ignóbil, miserável,
não posso deixar de os ler com imensa amargura.
Passam cantando inúmeros disfarces
contra a morte dos deuses e das leis, das classes,
de tudo o que por séculos inventou palavras
com que eles cantam; e, no calor do canto,
há um consolo atroz, gramatical, de sobrevida,
relento a vida viúva e mal lavada.
Não! tudo isso é falso! Acudam que é traição!
Ainda é tudo o mesmo, a mesma teatrada,
a margem da verdade que não é a verdade,
se não há razões, se nós, os que sabemos,
é que andamos cá por ver andar os outros?
Que fidelidade eu devo, mais que a de voluntário escravo,
a novas grades com que se preparem
para prender quem grite que não há uma causa,
que não há um fim, nem uma razão,
que de nos agarrarmos uns aos outros
não nasce outra razão além dos gestos?
Confessai, por uma vez, cobardes,
que até por corbadia particais heroismos!

confessai por uma vez, que não tendes coragem
para lutar alegremente e sem motivos!
confessai que não sabeis amar a vida,
que não a amais senão na dor dos outros!
Confessai, confessai, apenas uma vez!
E, se depois cantardes, se ainda então
o sexo a mais ou a menos que vos subiu à garganta
ainda for o pipilar das avezinhas,
por entre os ramos mentais de um arvoredo
que os montes não conhecem, nem os rios
reflectiram nunca, nem os homens viram,
então, sim, então podereis ser líricos.
Sereis só líricos sem máscara. Repipilareis
na doçura da tarde( ai como é doce!),
no silêncio da noite ( ai como é escura!),
no estalido róseo da madrugada próxima...
......................................................................


Alto! Alto aí! Não vos inspireis! Deixai nascer o Sol!...
Deixai que ele nasça, que, sem todos vós - el' nasce.


20/7/48

Jorge de Sena

in " cadernos de poesia"
Reprodução fac-similada dirigida por
Luís A. Carlso/ Joana Matos Frias
edição campos das letras

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Quinta-feira, Julho 21, 2005

11:56 PM - solitude












Fotografia de Celso Simões Mendes

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10:24 PM - ... a Mécia de Sena...

Mécia

procuro escrever-te dentro de uma noite cercada
(arreganharam-se-me os dentes) pelo frio que trouxe
a Roma um silêncio de neve ao longo das ruas
onde me perde o mar
(com um rosnar cavo na garganta) e pelas caveiras
- um exército quase - de amigos
versados ao assassínio (a rapariga de péssimas leituras
naquele dia o lobo solitário chamava-me) Mécia
também tu conheces o rasgão de alma quando
perdemos alguém ( e não só a morte nos traz lutos definitivos ) sabes das noites
rasgadas pela a ausência enquanto uivo não vem
libertar uma justa loucura mas pesa dentro
e cheio de unhas agarra-se àquele nevoeiro
onde nem o próprio sangue tem luz que possa evocar
sombras fermentes e máscaras

pergunto-te

mulher telúrica mãe de todo o filho sem mãe
onde encontras tu o amor no fundo
deste horror de lembranças? onde enterras as tuas incríveis raízes , não te mata a perda absoluta? encontraste a porta
para que o deserto te consinta
que sejam mortos a viver a tua vida? ( o sono que não chega e os fantasmas negros da ansiedade como
cachos de uvas da infância esperam
que descubramos existir) Mécia eu procuro
palavras irrazoáveis
para falar das mãos ainda pasmadas por um calor
mais confiança na entrega e fogo indefeso de olhares
do corpo carícias intimidades veladas
pelo hábito procuro exprimir o confuso
sentir-se em dois enquanto a solidão corrói
cada minuto na sombra que sobe nos quartos
onde trazemos os nossos gestos inutéis
se falta quem os fixava ao tempo
quase borboletas mortas por amor (aquele cão
branco, aquele cachorro com a mancha preta no focinho na festa de me ser filho
caía a cada degrau- eu era menino
e arrancaram-mo) Mécia
talvez seja orgulho escrever-te palavras quando
nem o próprio sonho pode quebrar-te tão sacudida por dentro
que perscrutas
cheia de ternura qual absurdo intervalo
entre dois nadas
nos é dado viver
é fome
só de enganos não domados este rosnar
que arreganha os dentes ou o júbilo terrível do lobo
sem alegria por ciência da morte? é a violência
do amor , eu creio que nos leva
para além do luto a esquecer as chaves da nossa
fragilidade e os outros equivocando-se vão abater
a suposta fortaleza para deixar nu
um simulacro - não sabem: o covil
( o último ) nos esconde com a antiga paciência
de quem se destrói a cada dia inventando-se um sorriso.

Carlo Vittorio Cattaneo In Três Solidões " Cartas / poemas para Mécia de Sena,Eugénio de Andrade e Herberto Helder " - Contexto Editora

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9:38 PM -

" dura d' ansioso la nuova solitudine e in alto
dentro la casa irrompe come un vento la poesia"
" dura de ansioso amor a nova solidão e ao alto
dentro da casa irrompe como um vento a poesia"

Carlo Vittorio Cattaneo in Três Solidões- Contexto Editora, Roma 1981

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2:16 AM - Alain Bosquet


(fotografia de Joel Meyerowitz)




E, por fim ...


Deus disse: "Se tal vos repugna,
não acrediteis em mim,
mas ficaria feliz
se encontrásseis algum encanto
num ou noutro ser da minha lavra:
o búzio, onde dorme a música,
o plátano, que cresce para lá das estrelas,
o mar, que diz cem vezes: "Eu sou o mar."

Sinto-me muito humilde:
o meu universo não é mais belo
do que um poema perdido."


"O Tormento de Deus" de Alain Bosquet

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Quarta-feira, Julho 20, 2005

5:47 PM -

(...)
O lugar de Cristo é entre os poetas. Toda a sua concepção da Humanidade foi concebida pela imaginação e só por ela pode ser compreendida. O que Deus foi para os panteístas, foi o homem para ele. Foi o primeiro a conceber as diferentes raças como uma unidade. Antes da sua época existiram deuses e homens. Só ele viu que nas colinas da vida apenas Deus e o Homem existiam, e sentindo pela harmonia do misticismo que ambos foram encarnados em si, a si mesmo se chama filho de Deus ou do Homem, consoante a sua disposição de espírito. Mais do que qualquer outra personagem da História, Cristo acorda em nós a disposição do maravilhoso para o qual o romance apela sempre. Ainda há para mim qualquer coisa de inacreditável na ideia de um jovem camponês da Galileia imaginar que podia suportar nos seus ombros o fardo do mundo: tudo o que já havia sido feito e sofrido, tudo o que havia ainda para fazer e sofrer; os pecados de Nero, de César Bórgia, de Alexandre VI, daquele que foi imperador de Roma e sacerdote do Sol, os sofrimentos cujo nome é Legião e habitam entre os túmulos nacionalidades oprimidas, crianças empregadas em fábricas, ladrões, prisioneiros, vagabundos, todos os que estão calados sob opressão e cujo silêncio só por Deus é ouvido. E não só imaginá-lo mas, na realidade, levá-lo a cabo, para que todos os que hoje comunicam com a sua personalidade, ainda que não se inclinem diante do altar ou ajoelhem perante um padre, de qualquer modo sintam que a fealdade dos seus pecados é afastada e revelada a beleza do sofrimento.
Eu disse que ele enfileirava com os poetas.(...)

Oscar Wilde
in " de profundis"
edição Relógio D'Água.

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2:45 PM - Ansel Adams



" White Branches, Momo Lake"

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1:54 PM - horizonte variável

Sobre o horizonte variável
que o sal assalta, restituindo
a tudo isto
a luz do início;
alcançam para lá da neve
uma aridez salinizada;
a atmosfera enruga.se
como os metais crispados,
sob fremito
mais corrosivo que o do vento;
a luz deixa de ser a mesma:
devora-se a si própria,
amarelece o retrato pouco a pouco;
enquanto o magnésio
entra no seu crepúsculo;
e a imagem,
exposta a um ácido excessivo,
começa a decompor-se.

Carlos de Oliveira in Trabalho Poético

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1:10 PM - A Festa - II

O corpo sabe ao cheiro das plantas vivas
limpíssimas de borco sob a chuva
e manhã cedo dança e bebe e canta
até ao escurecer e a noite ruma
a mais canto a mais vinho e a mais dança
ao despegar das vestes já molhadas
de tanto ardor e fresco fogo límpido
na pele colada à pele e a vida espalha
cintilações do sangue os reflexos
de quem chegou ao cume em extremos bardos

é quando o espaço quebra e o corpo ganha
na órbita de tudo a sua cor
e todo o olhar se espanta e não sossega
em súbita certeza de acordar:
como é possível sol se sol formal
se só sinal de tempo ou dia morto?

é quando o corpo dança e esse corpo
descobre a própria voz feliz retorno.



João Rui de Sousa

in " variações sobre um corpo"
antologia de poesia erótica contemporânea
editorial nova, porto

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10:08 AM - ... os nossos corpos...

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9:49 AM - [ Era a primeira vez...]

Era a primeira vez que nus os nossos corpos
apesar da penumbra à vontade se olhavam
surpresos de saber que tinham tantos olhos
que podiam ser luz de tantos candelabros
Era a primeira vez Cerrados os estores
só rumor do mar permanecera em casa
E sabias a sal E cheiravas a limos
que tivessem ouvido o canto das cigarras
Havia mais que céu no céu do teu sorriso
madrugava de tudo em tudo que sonhavas
Em teus braços tocar era tocar os ramos
que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo
É preciso afinal chegar aos cinquenta anos
para se ver aos vinte é que se teve tudo

David Mourão - Ferreira in O Algarve em Poemas - Ediçoes ASA, Junho 2003



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Terça-feira, Julho 19, 2005

10:40 PM - Mário Cesariny



"queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma."

Mário Cesariny

In " os poetas
entre nós e as palavras"
sony música ( portugal) lda
(edição assírio & alvim)

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10:02 PM -


Ton Dirven in art.transindex.ro

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9:31 PM - [ as primeiras coisas eram verdes ou azuis...]


as primeiras coisas eram verdes ou azuis, como água pela cintura;
duras esmeraldas umas, outras animais, vibrantes
quando lhes toca a luz; o mais das vezes encostados
à parede do estábulo, com grandes olhos húmidos
e um precipício ao fundo ( e as nuvens são o seu bafo).
e no entanto, visto à distância exacta, tudo se transforma:
o cenário do mundo é só um infinito espaço
cheios de coisa nenhuma, e a luz o puro efeito
de dois deuses menores que marcam o compasso.

é certo que, na chuva, o teu corpo anuncia
com seu distante olhar, um prazer que não cabe
na estreiteza da fábula; um céu, não duvidemos,
acolhe o terno gesto que não foi.
já na parede a meio branca traço, a contragosto,
o tempo mal passado que apodrece, e numinante encosto
ao tampo de água o bico ou pincel fosco
onde surgira, de repente, nada.

os portões oscilam, e a erva adiante, se nos aproximamos.
claramente vejo como te divides
num infinito número simultâneo de mundos.
as palavras celebram, mudas, a água na paisagem,
verde ou azul, conforme desejaste.
avanço imóvel, descalço sobre a erva,
e quando fecho os olhos invade-me a luz por dentro
compacta, completa, como as coisas primeiras.

António Franco Alexandre


in poemas ( "os poetas,
entre nós e as palavras"
assírio & alvim, 1997 sony música (Portugal) lda

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3:15 PM - A Água Plena...

Na beira mar, No molhe.
As mãos abertas para a chuva
cáustica.Tudo o que mortifca.
O que revivifica.
Chuviscos das nuvens do universo.
O corpo desce
atè à água plana.

Nada flutua na literatura.
Só o imaginário.
O som e a letra liquefazem-se.
Sinto a névoa fundente. O dia a dia funde.se. A fusão
é a minha paz.
A água e a alma.


Fiama Hasse Pais Brandão In âmago I ,Editora Limiar

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Segunda-feira, Julho 18, 2005

10:24 PM - Eros


Diego Uchitel in art.transidex.ro



O meu olhar descia como um íman
Ao centro mais ardente do t
eu corpo.

Alberto Lacerda


in "Variações sobre um corpo"
antologia de poesia erótica contemporânea
editorial nova, porto

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10:12 PM - Véspera

Seríamos dois faunos sobre a praia,
Batidos pelo vento e pelo sal,
Tendo por manto apenas a cambraia
Da espuma
E, por fronteira,
O areal.

Gémeos de corpo e alma,
Ver um era ver outro:
A mesma voz,
A mesma transparência,
A mesma calma
De búzio, intacto, em cada um de nós!

Felicidade?
Não!
Inconsciência!

E as nossas mãos brincavam com o lume
À beira da impaciência
Ou do ciúme

Pedro Homem de Mello


in " Variações sobre um corpo"
antologia de poesia erótica contemporânea
editorial nova, porto.

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10:02 PM -

De "Eléctrico"

( num carro para Campolide. Dia sexual)


Um mulher de carne azul,
semeadora de luas e de transes,
atravessou o vidro
e veio, voadora,
sentar-se no meu colo
na nudez reclinada
dum desdém de espelhos.

( Mas que bom! Ninguém suspeita
que levo uma mulher nua nos joelhos.)



José Gomes Ferreira


in Antologia " Variações sobre um corpo"
Antologia de Poesia erótica contemporânea
editorial nova, porto.

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10:00 PM -


David Hamilton in art.transidex.ro

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9:36 PM - Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drumond de Andrade in Jornal da Poesia

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Domingo, Julho 17, 2005

9:13 PM - Romance LXI ou Domingos do Alferes

Quando sua mãe sonhava,
como uma simples menina,
já falava nesse nome
DOMINGOS.
Domingos Xavier Fernandes,
que era o nome de seu pai.

Quando a menina dizia,
agora já mulher feita,
DOMINGOS,
- era Domingos da Silva
dos Santos. Outro Domingos.
Domingos com quem casou.

E quando, depois, sorria,
estudando para mãe,
DOMINGOS,
Domingos, - ia dizendo.
E assim ao primeiro filho
Domingos chamou, também.

Esse nome de Domingos
por toda parte o seguira.
DOMINGOS:
na infância ao longe deixada,
na adolescência perdia,
em todo tempo e lugar...

- Ah, Domingos de Abreu Viera,
quem batizará meu filho?
DOMINGOS,
meu amigo poderoso,
as coisas vão levar volta,
quem sabe o que vou passar!

Domingos sobre domingos
nas folhas dos calendários:
Domingos
- para a carta de Silvério,
para a subida à Cachoeira,
para a denúncia vocal...

Ai! de domingo em domingo,
chega ao caminho do Rio.
DOMINGOS!
Encontra Domingos Pires:
"Leva pólvora, Domingos,
que a venderá muito bem!"

Dominogs conta a Dominogs...
(É nome predestinado!)
DOMINGOS!
Já se desenrola a história...
Já vem da Vila à Cidade,
do Viscond ao Vice-Rei...

E, como vê sentinelas
sobre os seus passos rodarem,
DOMINGOS!
Sobe por aquela escada,
envolto na noite escura
como um criminoso vil.

E era a casa de Domingos,
na Rua dos Latoeiros:
DOMINGOS!
Entre as imagens de prata,
banquetas e crucifixos,
Domingos Fernandes Cruz.

Era a casa de Domingos...
e era em dia de domingos...
DOMINGOS!
- último dia de sonho,
que, agora, os domingos todos
são domingos de prisão.

Certa manhã tenebrosa,
no campo de São Domingos,
DOMINGOS!
(Sempre o nome de Domingos)
lhe apontaram a alta forca
de vinte e cinco degraus.

E num dia de domingo
seus quartos foram salgados.
DOMINGOS!
- despachados para os sítios
onde alguém o tinha ouvido
falar de conspiração...

Lá vai cortado em pedaços...
lá vai pela serra acima...
DOMINGOS!
Domingos Rodrigues Neves,
com os oficiais de justiça,
tranquilamente o conduz.


Cecília Meireles In Romanceiro da Inconfidência, Círculo do Livro S.A - 1975

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Sábado, Julho 16, 2005

8:15 PM -

Fotografia de Carlos Rocha Posted by Picasa

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7:32 PM - As Duas Chaves

doou-te duas chaves o encoberto
uma de prata secreta.................outra de ouro silente
uma de macho enroupada.................outra de fêmea despida
enrolada como serpes
ao membro erecto de Hermes
a de prata um pouco bruta.................é a emoção que estrilha
sem rédeas de compostura
e a outra.................limada.................em triângulo rebrilha
filhando ao ouro a perfeição
..........................................................nunca te vi tão radiante
assim contente de ti
a cara larga a escama apesar do rodermill
e os olhos.................................................esses vitrais
abrem rosáceas de fogo no carvão da pedra
Maria Estela Guedes, in "A Poesia serve-se fria!", 2005

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7:05 PM - Escada


Maria Estela Guedes, *
in
www.triplov.com Posted by Picasa
gota a gota
o mercúrio sobe a escada
ora se senta ora pára
as aladas pernas de ouro
cada vez mais chumbo
e chega lá
ao ovo
na febre do idioma
na ânsia de além
ao mais que a tudo soma
valor que não conhece bem
mas faz florir a escada
Fragmento de "heliotropolis.pt"


*nasceu em Britiande ( Lamego ). Escritora, investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa. Autora, entre outros, dos livros "Herberto Helder, Poeta Obscuro" ( 1979 ), "Eco, Pedras Rolantes" (1983 ) e "Carbonários: Operação Salamandra: Chiogloça Lusitanica Bocage, 1984", em colaboração com Nuno Marques Peiriço ( 1998 ).
Está, igualmente, presente na antologia "A Poesia serve-se fria!", II Bienal de Poesia de Silves( 2005 ).
www.triplov.org

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5:34 PM - O estrangeiro

- De quem gostas mais, diz lá, homem enigmático? de teu pai, de tua mãe, de tua irmã, ou de teu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Dos teus amigos?
- Eis uma expressão cujo sentido até hoje ignorei.
- Da tua pátria?- Não sei a latitude em que está situada.
- Da beleza?
- Amá-la-ia de boa vontade, divina e imortal.
- Do oiro?
- Odeio-o tanto como vós a Deus.
- Então que amas tu, singular estrangeiro?
- Amo as nuvens... as nuvens que passam... lá longe... as maravilhosas nuvens!

Charles Baudelaire


in " O Spleen de Paris -
pequenos poemas em prosa"

trad. António Pinheiro Guimarães.
edição Relógio D' Água

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Sexta-feira, Julho 15, 2005

10:43 PM - Explosão - 1975

Pintura de Clarice Lispector

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10:09 PM - Estrela Perigosa

Estrela perigosa
Rosto ao vento
Marulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.

No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:



excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.


Clarice Lispector in "Jornal da Poesia "

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9:51 PM - Quero escrever o borrão vermelho de sangue

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.


Clarice Lispector in " Jornal da Poesia"

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6:49 PM - Pássaros das Ilhas



( foto de Krysta ElLrik)



Pássaros das ilhas: no vosso voo
há uma vontade,
há uma arte secreta e uma divina ciência,
graça de eternidade.

As vossas evoluções, academia expressiva,
sinais sobre o azul,
levam ao Oriente fantasia, ao Ocidente ânsia viva,
paz ao Norte e ao Sul.

Eis perante os vossos olhos
a glória das rosas e a inocência dos lírios,
eis perante as vossas asas líricas as brisas de Ulisses,
os ventos de Jasão:

Almas doces e herméticas que ante o eterno problema
sois, em número veloz,
o mesmo que a rocha, o furacão, a gema,
o arco-íris e a voz.

Pássaros das ilhas, oh, pássaros do mar!
vossos voos, sendo
bênção, dos meus olhos, são problemas divinos
da minha meditação.

E com as asas puras do meu desejo abertas
para a imensidade,
imito os vossos círculos em busca das portas
da Verdade única.

Ruben Dario (Nicarágua, 1867-1916)

In, O Mar na Poesia da América Latina (Antologia)
tradução de José Agostinho Baptista

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6:41 PM - Contradições Habituais

As palavras – disse – as palavras silenciosas, nossa única companhia;
procuramo-las, prolongamo-las, prolongam-nos – a paisagem aprofunda-se;
descobres não só os ossos, mas também belos corpos, e asas –
veste-las, elas vestem-te; volatilizas-te; partes. Encontram-nos atrás das portas,
atrás de paredes altas, bolorentas. Tu sabe-lo –
este é o único meio de comunicação. O tabique de madeira
a separar os quartos transforma-se em vidro. Vês as palavras
cair sobre a mesa nua da cave com um ruído cavo
juntamente com os insectos da noite à volta da lâmpada clandestina.

Yannis Ritsos (Grécia- 1909-1990)

Trad. de Custódio Magueijo

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Quinta-feira, Julho 14, 2005

11:53 PM -


Esquife. Fotografia de Duarte Belo Posted by Picasa

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10:16 PM - Ano do Centenário de Erico Veríssimo


Erico LopesVerissimo nasceu em Cruz Alta, a 17 de Dezembro de 1905 e faleceu em Porto Alegre, em 28 de Novembro de 1975.
Filho de Sebastião Veríssimo da Fonseca e de Abegahy Lopes Veríssimo, estudou em Porto Alegre, tendo, mais tarde voltado a sua terra natal onde começou por trabalhar num banco e, mais tarde, como sócio, numa farmácia. Entre os remédios e o namoro com Mafalda Halfen Volpe, com quem acabaria por casar, em 1931, dedicava as horas vagas à leitura, principalmente, de Ibsen, Shakespeare, Georges Bernard Shaw, Oscar Wilde e Machado de Assis, que, em muito, influenciaram a sua formação literária.
Iniciou-se, em 1928, com o conto Ladrões de Gado , e, em 1932, com a edição de Fantoches começa a sua brilhante carreira literária que, em 1938, alcança repercussão nacional e, mais tarde, internacional.
Foi, porém, com Olhai os Lírios do Campo, em 1938, que o seu nome se tornou, verdadeiramente, popular.
Os seus livros encontram-se traduzidos e publicados em quase todo o mundo: EUA, Inglaterra, França, Itália, Alemanha, Áustria, México, URSS, Noruega, Holanda, Hungria, Roménia, Argentina,etc.
Recebeu variadíssimos prémios, nomeadamente, o Prémio Literário da Fundação Moinhos Santista ( 1973 ) pelo conjunto da sua obra.
Um dos seus trabalhos mais notáveis é o Tempo e o Vento, romance dividido em três partes O Continente, O Retrato e O Arquipélago - começado em 1949 e terminado em 1962.
Destacam-se, igualmente, o Senhor Embaixador ( 1965 ), O Prisioneiro ( 1967 ) e Incidente em Antares ( 1971 ). Faleceu qaundo escrevia o segundo volume de Solo de Clarinete, o seu livro de memórias Posted by Picasa

Poema de Carlos Drummond quando da morte de
Erico Verissimo

Falta alguma coisa no Brasil

depois da noite de Sexta-feira

Falta aquele homem no escritório

a tirar da máquina elétrica

o destino dos seres,

a explicação antiga da terra.

Falta uma tristeza de menino bom

caminando entre adultos

na esperança da justiça

que tarda - como tarda!

a clarear o mundo.

Falta um boné, aquele jeito manso,

aquela ternura contida, óleo

a derramar-se lentamente,

falta o casal passeando no trigal.

Falta um solo de clarineta.

( enviado por Rui Mendes )

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10:08 PM -


Ilha Posted by Picasa

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9:47 PM - Desabafo

Não espero amor nem glória de ninguém:
Espero terra e cinza,
Os blocos do abordar lá na doca esquecida,
E ao longe o rolo branco,
Livre e amargo do mar
Que traz com água e indiferença
O cadáver e o frasco azul do adeus marinho.
Como as gaivotas levo água e ferro no bico:
Por isso passo e fico.
Naquilo que outros vêem um vago talento e sorte,
Outros: "belas qualidades, mas purgativo, aquele magnésio..."
Levo coisas tão simples como o meu sonho e a minha morte:
O menino que eu fui, parado nos meus olhos,
O garoto que eu fui, e os sinos que rachei à pedra ainda a vibrar,
Minha mãe no que tenho de condescendente e feminino,
Meu pai na força e pressa do meu próprio coração.
Não espero amor nem glória de ninguém:
Espero a terra e a lisura
Da pá que ma estender,
Além de erva ou torrão de calcadura
E os filhos velhos, graves,
Com um bocado de pão, a minha memória e uma acha a arder
Tudo isto espero com a força e a determinação da esperança,
Com as lágrimas do fraco melodioso
Mas cheirando a esturro, a pulso,
Sozinho e perigoso.
Terei vestido e pão no mar e nos seus fundos
E nos peixes de cor as flâmulas de guerra;
Hei-de cravar Sol no meu destino,
Dar a Lua a roer aos que duvidaram de mim,
E transparente como as baías me verão,
Que, vendo-as mansas, me verão a mim.
Mas se acharem as baías bravas, que se aguentem!
Quando meu tio foi para Manaus, lá me aguentei!
Ah, baías salvadas e coléricas,
Açores de ronda ao vagalhão partido!
Morrer é bom quando se deixa
Algum pecado redimido.
Vitorino Nemésio, ( 1901-1978 )

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Quarta-feira, Julho 13, 2005

10:15 PM - CREATIO



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9:51 PM - CREATIO

Dia anterior ao primeiro............... tão escuro............ Ou estão cegos ainda os olhos?...............

Frias rosas de ferro duram lentas pela eternidade adentro

porque as levaste ao forno a fortificar....................... São estas mãos.............. prontas para animar
a


matéria primordial................. Treme cada uma em seu silêncio............ E depois a poderosa máquina


rodopia.......................... descendo e subindo pelos escadórios do caos


sozinha.............................................. sem saber os comandos a usar


para as coisas se sonharem e do sonho se erguerem...........................


reais.............................. Vejo daqui uma giesta com uma flecha nos dentes


é soberana ideada pelas palavras


e tantas como essa............ agachadas sob a ventania............... deixam cair casulos amarelos


quando se pensa nelas..................................... Daqui à morte é uma caminhada curta


dobra-se essa esquina num clique de câmara fotográfica.................................................


E então ficam elas a dizer adeus com lenços de fina escarlata


como qualquer amiga que à fonte levou e a talha deixou cair

ao ver vê-la o namorado......................... Pegas no boneco de barro e beijas-lhe a boca


elementarmente............. sem qualquer intenção procriadora................. apenas para que a palavra


se liberte por aquela vagina......................... É um sopro.............. Um cristal


em que se guarda a vida....................... No rosto profético......... os olhos rasgam-se


agora numa laguna de ignorância.............. Abismam-se no céu de carmim...................... Estão


deitados debaixo de bandos de flamingos que migram para azul..........................


Sábios os animais que migram..........as tartarugas marinhas......... então................


Como se orientam as palavras................ como sabem para onde ir e a que praia regressar


fechando o sentido do que nem se adivinha


na carta celeste em que ainda não nasceram os astros?


Não sabem................ Orientam-se sem saber como nem porquê......... essa é a sintaxe da sua


sabedoria............................ E nós também não............... embora escrevamos que sim


em imensos tratados que falam de dias para além do sétimo


sem termos saído ainda do primeiro................... Afora isso............ para que precisariam elas


de sair num sopro


as palavras............... se para sempre ficarão de respiração cortada.................


ardendo em beleza para cima....................


esplêndidas de procurarem o alto por em baixo não se acharem?


Ir para aqui ou para acolá........... quer dizer isto ou aquilo............. tanto faz............ se a mira


falha o sentido.......................... Nesta altura


a página geme sangue como qualquer ferida......... e o rato deixa atrás dele


um depósito de cristais salgados................ Quanto às abelhas............ as nascidas


no Reyno de Ys........... sibilam à volta do pensamento como um favo.................


Retornam ao dia anterior ao primeiro, esse em que nem caos havia.............. A ver como é


como germinavam as rosas...................................


Antes do primeiro dia havia um grande ímpeto de acção


desnorteado....................... À medida em que a acção ia desenhando


as formas que as coisas haviam de tomar


a bebedeira ia-se agarrando às suas fraldas..................................


Porque as palavras alucinam............ são assim................. um leite de estrelas................................


Deus ou Isso................ seja lá o que for target da questa............... falta como alimento


do espírito..............................


Só por dizê-lo

eis que se move sob as águas.................... É um faisão ciberal................. eléctrico............ um


espinho de ponta seca.......... o espírito........................


Deixa uma biblioteca de pixéis atrás, afogados em tintas visionárias..................


Escrevem textos claros como só as sibilas sabem ao contrário


quando observam folhas de chá, as entranhas dos pássaros............... ou o fumo interpretam


nos seus oitos de um cigarro fumado antes do outro............... E tudo isto tem a beleza


de uma cigana que na orelha tilinta


abalada por um raio................................. Entre a rosa e o perfume roda o tempo


redondo................................. seja em oito


ou em sete dias de desenvolvimento embrionário


antes que do ovo entre ervas aromáticas consumido


vejamos eclodir o monstro......................................... Porém há sempre o recomeçar


e entre nada e tudo a vida é esse pássaro


das cinzas volvido numa brasa............................ Eleva-se nos ares a estrela corredia


o pulso acelerado


pelo bafo da maresia........................ ascende....................movida por motor a jacto.....................


seja isso ou energia nuclear


a luz cavalga a treva como fêmea magnífica...................


É uma flama


uma bailarina de poeira vermelha no ventre e sob as asas...................................


Dão-lhe por isso o nome de flamenco...........................


Deus nessa poeira com água molda a pasta.................. morena com formas


de gente................ enquanto no céu branco um astro observa


As mãos tremulam abertas sobre os joelhos


sem saberem o que fazem.................... apenas impelidas como lamparinas....................


Suspiram por elevar uma árvore................ o voo.............. um poema ou paraíso


nesse lugar que habitam vasto.....................................


Esta história é muito antiga................


se a imaginação a beija nos dedos................... vê as paredes do amanhã...................


São de lua as suas portas, coa-se por elas uma canção molhada.............................


Onde melhor


correm as nuvens? Nas cavernas do oceano ou nas montanhas geladas?


Tudo tem um rascunho ou os nimbos desabariam nos terraços da gravidade.........................


Porque ter uma ave pousada na língua................... ou um girassol atraído por

Mercúrio.......................

abalaria as formas que se equilibram no arame


como tigre que o salto mal calculasse


despenhando a frágil carcaça a meio do espectáculo .................... Há assim um pensamento


antes de agir.............. A rosa calculou e usou régua e compasso................. traçou esquemas


como qualquer pássaro


que as asas abre e a cauda sumptuosa


quando com tanta jóia emplumada a companheira atrai.............. Os animais sonham tanto


como eu..................... É preciso dispor de uma fogueira interior


tanto faz que o calor desenhe curvas como rectas


preciso é que lance chamas.................................. Depois............ logo se verão os suaves


acidentes da pasta argilosa


ordenarem-se num perfil de anca...................... As noites tão estreitas para quem sonha


não é verdade? É para não deixarem fugir o vento por entre as mãos


que arquitectam casas................ muros...................... cidades..........................


paisagens ordenhadas como vacas


ali demorando sem pensarem em como são domésticas e turinas e malhadas............................


E os dias............. os dias sonâmbulos.............. andam pelos telhados de mãos à frente estendidas


sem saberem que as estendem para evitar obstáculos...................................


E os obstáculos..................... Oh................... os obstáculos têm a bondade às vezes


de se desviar dos sonâmbulos


assim como os borrachos são protegidos das ninfas


que sob eles enlaçam penas e ramos finos


para que possam docemente aterrar num ninho....................................


Toda a linguagem e seu sincero discurso a afastar-se e a aproximar-se do núcleo


que toda a promessa em si contém


foi antes dos sete dias profundamente sonhada........................ Arde até ao carbono puro


cinza de diamante............................ É agora flamingo


Phoenicopterus ruber roseus


em baptismo de nome cego............... com tanta luz embora


que as estrelas nascem numa toalha..........................


estela guedes in www.triplov.com

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8:44 PM -


Fotografia de Carlos Rocha Posted by Picasa

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8:33 PM - AS MÃOS E A CASA

As mãos tocam o frio
das paredes
deixam na casa
uma réstea de luz
a memória inexpugnável
de um gesto
Agora a casa
pode ruir
transformar-se de repente
numa lembrança
de pedra
de madeira rasgada
pelo vento
ou as mãos
regressarem à terra
a voz
perder-se nas arquivoltas
do coro
que nada
nem ninguém
apagará o silêncio desse gesto
o rasto discreto
de um tal signo
Luís Serrano, in "As casas pressentidas"

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8:01 PM - A Casa do Outono


Luís Serrano *
Arrefece
É apenas o outono
a escrita da água
sobre as folhas
o sol dormindo
sobre a curva aberta
dos telhados
se os dedos
perpassam
sobre a música
e o veludo escurece
sobre a pele
dos violoncelos
o ar está sereno
hão-de florir no vale
as avelaneiras
e há uma casa
que me espera
tranquila
entre árvores
e serra

*nasceu em Évora em 1938.
Foi um dos fundadores da revista de Poesia Êxodo.
Tem colaboração dispersa em diversas páginas literárias e nas Revistas Vértice e Letras e Letras.
Está presente em diversas Antologias.
Publicou "Poemas do Tempo Incerto"( 1983 ), "Entre Sono e Abandono"( 1990 ), "As Casas Pressentidas" ( obra premiada com o Prémio Nacional Guerra Junqueiro, 1999 ) e "Nas Colinas do Esquecimento" ( 2004 )
Está, igualmente, presente na antologia "A Poesia serve-se fria!", II Bienal de Poesia de Silves, 2005.Posted by Picasa

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7:52 PM -


Posted by Picasa

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7:40 PM - ODE

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua tôda
Brilha, porque alta vive.
Ricardo Reis, in "Presença, nº 37, 1933

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7:15 PM - NOTA AO ACASO

O poeta superior diz o que efectivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir.
Nada disto tem a ver com a sinceridade. Em primeiro lugar, ninguém sabe o que verdadeiramente sente: é possível sentirmos alívio com a morte de alguém querido, e julgar que estamos sentindo pena, porque é isso que se deve sentir nessas ocasiões. A maioria da gente sente convencionalmente, embora com a maior sinceridade humana; o que não sente é com qualquer espécie ou grau de sinceridade intelectual, e essa é que importa no poeta. Tanto assim é que não creio que haja, em toda a já longa história da Poesia, mais que uns quatro ou cinco poetas que dissessem o que verdadeiramente, e não só efectivamente, sentiam. Há alguns, muito grandes, que nunca o disseram, que foram sempre incapazes de o dizer. Quando muito há, em certos poetas, momentos em que dizem o que sentem. Aqui e ali o disse Wordsworth. Uma ou duas vezes o disse Coleridge; pois a Rima do Velho Nauta e Kuble Khan são mais sinceros que todo o Milton, direi mesmo que todo o Shakespeare: é que Shakespeare era essencial e estruturalmente factício; e por isso a sua constante insinceridade chega a ser uma constante sinceridade, de onde a sua grande grandeza.
Quando um poeta inferior sente, sente sempre por caderno de encargos. Pode ser sincero na emoção: o que importa, se o não é na poesia? Há poetas que atiram com o que sentem para o verso; nunca verificaram que o não sentiram. Chora Camões a perda da alma sua gentil; e afinal quem chora é Petrarca. Se Camões tivesse tido a emoção sinceramente sua, teria encontrado uma forma nova, palavras novas - tudo menos o soneto e o verso de dez sílabas. Mas não: usou o soneto em decassílabos como usaria luto na vida.
O meu mestre Caeiro foi o único poeta inteiramente sincero do mundo.

Álvaro de Campos, in "SW-Sudoeste", nº 3, Lisboa, 1935

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3:52 PM - Simples

"Quando acordei, esta manhã, a mesa do céu já estava posta. Comi nuvens ao pequeno-almoço."


Manuel Amaral

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3:25 PM -

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3:16 PM - Lisbon Revisited ( 1923)


Não: não quero nada.
já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me
enfileirem em conquistas
Das ciências ( das ciências, Deus meu, das ciências!)-
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da
técnica
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer
cousa?

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a
vontade.
Assim como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja companhia!

Ó céu azul - o mesmo da minha infância-,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo.
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me
sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar
sozinho!

Ricardo Reis
in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa de Eugénio de Andrade
edição campo das letras

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12:32 PM -




...
Thou that spellest ever gold from out my dross
Mage powerful and subtly sweet
Gathering fragments that there be no loss
Behold the brighter gains lie at thy feet.

...

...
tu que extrais ouro da minha escória sempre
Maga subtilmente doce e poderosa
Que para nada perder juntas fragmentos
Vê aos teus pés os ganhos luminosos.

...


Ezra Pound
do poema Ver Novum
in " o livro de Hilda"
trad. Filipe Jarro
edição de Assírio e Alvim

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12:17 AM - Recordando Ezra Pound / H.D.

(...)

"A Sra Pound era uma mulher muito bonita, bem educada, talvez com modos um pouco afectados. Incomodava e surpreendia um pouco com os seus pequenos sarcasmos, ou os seus epigramas, aliás, tal como acontecia tantas vezes com o Ezra. O Sr Pound era caloroso, informal, muito gentil. Era aferidor do governo na Casa da Moeda de Filadélfia. Convidou alguns de nós a visitar o santuário. Mostrou-nos ínfimos pesos e medidas, explicou vagamente como se analisava o ouro - " Aqui está", e abriu a pesada porta -parecia a porta de um armário de ferro, e não de um cofre; de qualquer modo estava cheia de barras de ouro - " Aqui está", e as moedas estavam empilhadas em montes certinhos, "façam favor de se servirem, com gargalhas divertidas."
Será que alguém alguma vez notou, lembrou isto, ou sequer sabia disto? Parece-me que o trabalho de Homer Pound para o governo, em Filadélfia, teve um papel extravagante, nos impulsos de Ezra. Usura? Usura. Ezra esteve, a dada altura, ao que parece obcecado com essa palavra. Essas referências nos Cantos foram para mim difíceis de acompanhar. Não quero dizer que Ezra quisesse o ouro para ele. Queria com ele mudar o mundo. Será que alguém pode mudar o mundo com o ouro?

Ouro na cabeça dela e ouro nos seus pés,
E ouro onde se juntam da saia ao revés,
E em um cinto de ouro que o meu amor enfite;
Ah! qu'elle est belle, La Marguerite.

Leu-me William Morris num pomar debaixo das macieiras em flor. - sim, penso que estavam em flor."

in " Fim do Tormento
recordando Ezra Pound"
H.D.
edição Assíro & Alvim
trad. Filipe Jarro

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12:04 AM - Relato


Jean-Auguste-Dominique Ingres, 1780-1867, La Grande Odalisque



Senhor, deitou-se a meu lado
E cheirava a maçã como no dia
Em que o primeiro pecado
Furava a terra e nascia.

Era preciso lutar,
Cuspir-lhe o corpo, que vi
E era como um pomar!...
Senhor, eu então comi.

Coimbra, 27 de Fevereiro de 1939

Miguel Torga


in " Antologia Poética", pag 255
Publicações Dom Quixote

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Terça-feira, Julho 12, 2005

11:47 PM - Hokusai ( 1760/ 1849)

" Desde os seis anos que tive a mania de desenhar a forma das coisas. Por volta dos cinquenta anos havia publicado uma infinidade de desenhos; mas tudo aquilo que produzi antes dos 70 anos não merece ser tomado em consideração. Aos setenta e três aprendi um pouco da real estrutura da natureza dos animais, plantas, peixes e insectos. Por isso, quando chegar aos 80 já devo ter feito um progresso maior; aos 90, penetrarei no mistério das coisas; aos 100 devo ter alcançado uma etapa maravilhosa e, quando chegar aos 110, tudo quanto fizer, seja um ponto ou uma linha, será vivo. "

Hokusai ,pintor japonês, aos 75 anos

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11:23 PM - Casida de ausência


Posted by Picasa
Na fonte fria, em Silves,
lavo as mãos antes da oração.
Vou ter com a minha amada, e dou-lhe novas
dos jardins belos de Córdova onde Deus
está mais perto dos ouvidos dos crentes.
Trago-lhe pétalas de cheiro
para perfumar o colo de sol
e ganhar um sorriso
que aquecerá o meu coração.
Apressam-se os meus passos
na rua das oliveiras.
Afiz Ibn Amahd Kuzmãn

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10:53 PM -


Capa de Programação de Concertos. Orquestra do Algarve Posted by Picasa

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10:42 PM - Beethoven, Nona Sinfonia

Um filtro apenas
perfilado entre a pauta
e o ouvido
o sumo austero
e ácido
do silêncio
por onde a música
se iluminava
ou esclarecia
a mesa posta no jardim
as árvores que ouço
trespassadas
pelo coro
as águas
que os violinos
navegam
sem cessar
e eu olho
essa morte
nem sequer pressentida
casulo
de quatro andamentos
e um prado aceso
enquanto lá fora
os bichos crescem
inocentes
sob a chuva
Luís Serrano, in "As casas pressentidas"

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10:34 PM - Algumas Palavras 2

Algumas palavras
escurecem
tornam-se opacas
subitamente
até rebentarem
entre as quatro paredes
da memória
circunscrita
restos de rostos
às vezes perdidos
no fundo de cisternas
que a noite
resume
no seu rasto
sons
de sobressaltos signos
que a raiva
prolonga
sobre a folha ininterrupta
do tempo
assim escurecem
digo
e é de água
essa dor
de pedra solta
e nenhum vento
nos humilha mais
do que a solidão
desabitada
o esquecimento
Luís Serrano, in "As casas pressentidas"

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10:29 PM - Dói-me essa dor

Dói-me o trigo
quando amanhece
a luz coada
que pousa
sobre as nuvens levíssimas
do linho
Dói-me essa dor
que sublinha a mágoa
a pedra acesa
do chão
se arrefece
as marcas da água
sobre um rosto
os cavalos
tão cansados
por quem me perco
dói-me a terra
e o corpo frágil
em que me encerro
Luís Serrano, in "As casas pressentidas"

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10:23 PM -


Encruzilhada. Fotografia de Duarte Belo Posted by Picasa

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10:02 PM - Cântico Negro

Vem por aqui!"- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem:"vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
( Há, nos meus olhos, ironias e cansaços )
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:

Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,

Por que me repetis:"Vem por aqui?"
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- sei que não vou por aí!

José Régio.

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8:49 PM -

"O homem não é outra coisa
senão o seu projecto e só existe
na medida em que o realiza"

Jean Paul Sartre

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7:35 PM -

"Estamos perdidos há muito tempo...O país perdeu a inteligência e a consciência moral.Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada.Os caracteres corrompidos.A prática da vida tem por única direcção a conveniência.Não há princípio que não seja desmentido.Não há instituição que não seja escarnecida.Ninguém se respeita.Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.Alguns agiotas felizes exploram.A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.O povo está na miséria.Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte, o país está perdido!Algum opositor do actual governo? Não! "


Eça de Queirós escreveu isto em 1871.

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5:56 PM -


(by Lionel Lofton)

...

O cachimbo apagado, presente, sem vida. Chivela sonhava. A litaba distante. As anharas ainda não tinham sido feridas senão pela correria livre e descuidada das palancas. Negros os donos da terra. Força igual de todos os seres. A voz do tempo e da terra, estórias vindas da noite, repetidas nos jangos quando se revelam os pensamentos dos homens. Negros, os homens ocultos desviados do caminho. Os costumes, a vida, e o mundo uma força única. A mãe, a família, a tribu, as outras tribus, a gente toda. Sentiu-se pequeno, da pequenez das coisas intangíveis pela liberdade de que se cercam. Entrou-lhe no corpo um cheiro desconhecido; talvez fosse o cheiro que diziam do mar. Teve medo. O mar trouxera mundos estranhos. Línguas estranhas. A força diferente que o arrancou, sem que as raízes tivessem sido esventradas primeiro.
Ali estava afinal. Esta a vida que o feiticeiro nunca previra. Prolongamento vivo da terra sacudida. Caiu mais uma folha.
...

Costa Andrade*
in " Estórias de Contratados"
edições 70 para a união dos escritores angolanos


*Francisco Fernando da Costa Andrade, também conhecido pelos pseudonimos de Angolano de Andrade, Nando Angola, Africano Paiva, Flávio Silvestre, Fernando Emilio, Ndunduma e Ndunduma wé Lépi, este último, nome de guerra adotado nos tempos da guerrilha no Leste de Angola, durante os idos anos 60 e 70, é natural do Lépi, localidade situada na atual província Huambo, onde nasceu em 1936. Fez os estudos primários e liceais na cidade do Huambo e Lubango. Por razões que se prendiam com a falta de universidades ou outras escolas superiores na Angola colonial, como acontecia na generalidade com os jovens da sua geração, Nas décadas de 40 e 50, esteve em Portugal com o objetivo de, em Lisboa, realizar estudos de Arquitetura. Com Carlos Ervedosa, foi editor da Coleção Autores Ultramarinos da Casa dos Estudantes do Império, que desempenhou um papel decisivo na divulgação das literaturas africanas de língua portuguesa, especialmente da literatura angolana.


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4:42 PM - O revolver de trazer por casa

Querem fazer de mim o revólver de trazer por casa,
Fizeram já de mim o revólver de trazer por casa,
Aquele que toda a gente, uma ou duas vezes na vida,
Encosta por teatro a um ouvido
Que acaba por se fechar envergonhado.

Um bom revólver domesticado:
Algumas noções de pré-suícídio, mas não mais,
Que a vida está muito cara e a aventura
Nem sempre devolve o barco que lhe mandam.

Quem espera por mim não espera por mim
E talvez me encontre por um acaso distraído.
Mas no meu obsceno mostruário de gestos,
Guardo o mais obsceno
Para quando a ilusão se der...

Alexandre O'Neill

"tomai lá do O'Neill"
edição círculo de leitores

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4:06 PM - YEHUDA AMICHAI, poeta de Israel 1924/2000




CORPO VISÍVEL


Um Homem e a Sua Vida
Um homem não tem tempo na sua vida para ter tempo para tudo.
Não tem momentos que cheguem para ter momentos para todos os propósitos.
Eclesiastes está enganado acerca disto.

Um homem precisa de amar e odiar no mesmo instante,
de rir e chorar com os mesmos olhos,
com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
de fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.

E de odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
de planear e confundir,
de comer e digerir o que a história leva anos e anos a fazer.

Um homem não tem tempo.

Quando perde procura,
quando encontra esquece,
quando esquece ama,
quando ama começa a esquecer.

E a sua alma é erudita,
a sua alma é profissional.
Só o seu corpo permanece sempre um amador.

Tenta e falha, fica confuso,não aprende nada,
embriagado e cego nos seus prazeres e nas suas mágoas.

Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar onde há tempo para tudo.

Yehuda Amichai

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3:50 PM -

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3:40 PM - Erasmo de Roterdão ( 1466-1536)

...
"Comparemos o destino de um sábio com o deste louco. Imaginai um modelo de sabedoria para o confrontar, um homem que tenha esbanjado a infância e a juventude a aprender, que tenha desperdiçado a parte mais feliz da sua vida em intermináveis noites de vigília, labuta e cuidados, sem que alguma vez tenha saboreado uma gota de prazer. Foi sempre frugal, pobre miserável, irascível, severo e duro para si próprio, desgradável e impopular para os outros, pálido e magro, doentio e de olha turvo, precocemente grisalho e senil, desgastado e votado a uma morte prematura. Mas que diferença faz a morte de uma pessoa assim, se nunca chegou a viver? Eis, pois um excelente retrato de um sábio"
....



Erasmo de Roterdão*


in " O elogio da loucura"
pag 55
edit. Sporpress
tradução de Fernando Dias Antunes


*Desidério Erasmo nasceu em Roterdão. Era filho ilegítimo de um sacerdote holandês, sendo educado pelos padres agostinhos. Estudou Teologia na Holanda e Paris, tendo-se doutorado em Turim. Foi um dos grandes expoentes do humanismo renascentista defendendo o livre-arbitrio.Viveu em várias cidades de França, Inglaterra, Itália e Flandres. Em Inglaterra, onde foi hospede do humanista Thomas More, escreveu a sua mais conhecida obra, o Elogio da Loucura.


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Segunda-feira, Julho 11, 2005

10:17 PM - Le miroir brisé


Le petit homme qui chantait sans cesse
le petit homme qui dansait dans ma tête
le petit homme de la jeunesse
a cassé son lacet de soulier
et toutes les baraques de la fête
tout d'un coup se sont écroulées
et dans le silence de cette fête
j'ai entendu ta voix heureuse
ta voix déchirée et fragile
enfantine et désolée
venant de loin et qui m'appelait
et j'ai mis ma main sur mon coeur
où remuaient
ensanglantés
les sept éclats de glace de ton rire étoilé.
Jacques Prévert

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4:14 PM - Não-coisa


Ferreira Gullar *Posted by Picasa
O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e o se diz é pra saber
o que ainda não sabe.
Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?
Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?
A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes
só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa
de saliva e papilas
invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,
um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos.
No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:
subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa
sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa é fechada
à humana consciência.
O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura - e iluminá-la.
Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,
a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
- essa voz somos nós.
*Lutador incansável contra a injustiça social e a opressão, Ferreira Gullar completou 56 anos de produção poética, iniciada em 1949 com o livro "Um pouco acima do chão".
in nordeste magazine.com.br

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4:04 PM -

Sans vague ni vent ni voile.

Brusquement les oiseaux réapparaissent
Et c'est la femme.
Ni étoile ni réve, ni geyser ni roue, la femme

Les oiseaux reviennent,
Et rien que la mer.

Majnûn Laylaâ

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3:50 PM -


L'amour-poème Posted by Picasa
Je rêve, je vous vois: deux gazelles paissant.
Sur des lieux écartés, les prairies de h'awdhân.
Je rêve, je nous vois au désert: deuz colombes
Volant vers notre nid à l'heure où la nuit tombe.
Deux poissons dans les flots: je rêve et crois nous voir
Lorsque la grande mer nous berce avec le soir.
Je rêve, je nous vois: ma vie, ta vie, ensemble!
Je vois, je rêve, et la mort même nous rassemble
Sur le lit du tombeau, côte à côte couchés.
Retraite loin du monde, ô tombe bien cachée!
Nous y verrons, ressuscités, la vie nouvelle.
L'univers réuni, la rencontre éternelle.
Majnûn Laylaâ

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3:37 PM -

Ô baiser! divine caresse!
Source flatteuse de tourment!
Ô Fanni! partage l'ivresse
Du baiser qui m'a fait amant!

Lebrun

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Domingo, Julho 10, 2005

10:40 PM - Vencedor francês de Nobel de Literatura morre aos 91 anos


Claude Simon, último escritor francês a receber o Prémio Nobel de Literatura, morreu aos 91 anos, informou, o ministro da Cultura francês, Renaud Donnedieu de Vabres.
Os media franceses afirmaram que Simon faleceu, em Paris, na passada quarta-feira, mas a notícia foi mantida em segredo até ao seu funeral, sábado.
Simon recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1985, e, fazia parte do movimento "noveau roman" francês.
"Este romancista representa a renovação da literetura francesa no período do pós-guerra", afirmou Vabres. "Rejeição de convenções, ou melhor, da originalidade fundamental do homem, são os pontos primcipais do seu trabalho, a fonte da sua criação", acrescentou ele.
Nascido em Madagascar em 1913, Simon era filho de um oficial de cavalaria morto na Primeira Guerra Mundial. Criado por sua mãe no Sul de França, estudou em Paris, em Oxford e em Cambridge, e lutou na Segunda Guerra Mundial. O escritor foi capturado pelos Alemães, em Maio de 1940, mas conseguiu escapar para integrar a Resistência Francesa e completar, em 1945, o seu primeiro romance "Le Tricheur", sobre o colapso francês em 1940.
Os livros de Simon retratam a permanência de objectos e pessoas que sobreviveram através de revoltas da História Contemporânea. O seu estilo mistura a narrativa com passagens de fluxo de consciência sem pontuação. Algumas das suas sentenças têm até 1.000 palavras de comprimento.
( Fonte - Agência Reuters, Paris )

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Sábado, Julho 09, 2005

10:42 PM - ...

...


É PRECISO ENCONTRÁ-LOS ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócios
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra afogar a distância
no corpo sem mistério, da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência um universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los

Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio pressago da cidade inimiga

Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em circulos fechados
impor a violência a tirania o ódio

Entanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência
...

Daniel Filipe

excerto de: " A invenção do amor e outros poemas"
editorial presença

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10:30 PM -



(photo by de Norman Jean Roy in ar.transidex.ro)

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9:34 PM - a invenção do amor


Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos

nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos

de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da

nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia

quotidiana


Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterrâneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV denúncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura as dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções paras os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos

da defesa passiva
Todos Decrete-se a lei marcial com todas as suas conse-

quências
O perigo justifica-o Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escola Sobretudo

protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste Inex-

plicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem
razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicó-

logos
Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absoIutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das

normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde: quer que se escondam
ao temor do castigo

Que todos estejam a postos Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à policia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais

drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades

individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo

da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher

amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado

de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância Campos verdes floridos

Água simples correndo A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal

maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boites

com orquestra privativa
Não estarão nunca aí Procurem-nos nas ruas suburbanas

onde nada acontece
A identificação é fácil Onde estiverem estará também pou-

sado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa,
Será então aí Engatilhem as armas invadam a casa disparem

à queima roupa Um tiro no coração de cada um Vê-los-ão possivelmente
dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos

da mulher

Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o

pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também per-

didos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha comido à vossa mesa e crescido

a vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza liquida
até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que a situação vai atingir o climax
e a polícia poderá cumprir o seu dever

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais

....



Daniel Filipe

in" A invenção do amor e outros poemas"
editorial presença

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9:18 PM - Floresta


(Sophia de Mello Breyner, por Arpad Szenes )


Entre o terror e a noite caminhei
Não em redor das coisas mas subindo
Através do calor das suas veias
Não em redor das coisas mas morrendo
Transfigurada em tudo quanto amei.

Entre o luar e a sombra caminhei:
Era ali a minha alma, cada flor
- cega, secreta e doce como estrelas –
Quando a tocava nela me tornei.

E as árvores abriram os seus ramos
Os seus ramos enormes e convexos
E no estranho brilhar dos seus reflexos
Oscilavam sinais, quebrados ecos
Que no silêncio fantástico beijei.

Sophia de Mello Breyner Andresen

In Obra Poética I,pag. 132
Editorial Caminho

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4:06 PM -

Poesia do Exílio


Nos tempos sombrios
se cantará também?
Também se cantará
sobre os tempos sombrios.

Bertolt Brecht

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3:10 PM -



(by Ron Adams, b.1934) in Hand Graphics



...

"O tio Abstinêncio, este que cruza o rio comigo, sempre assim se apresentou: magro e engomado, ocupado a trançar lembranças. Um certo dia se exilou dentro de casa. Acreditaram ser arremesso de humores, coisa passatemporária. Mas era definitivo. Com o tempo acabaram estranhando ausência. Visitaram-no. Sacudiram-no, ele nada.
- Não quero sair nunca mais.
- Tem medo de quê?
- O mundo já não tem mais beleza.
Como aqueles amantes que depois de zanga, nunca mais se querem ver. Assim era o amuo do meu tio. Que ele tinha tido caso com o mundo. E agora doía-lhe demais a decadência daquele rosto de quem amara. Os outros riram. O parente sofria de tardias poesias?
- Você, Abstinêncio, é uma pessoa muito impessoal. Tem medo da vida ou do viver?
- Me deixem, irmãos. Esta é a minha natureza.
- Ou, se calhar, o Mano Abstinêncio não recebeu foi suficiente natureza.
E deixaram-no só e único. Afinal, era escolha dele. "


Mia Couto.


in “ Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”
Editorial caminho, pag.17

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11:28 AM -




Romance LVII
ou
Dos Vãos Embargos


"Este é o homem loquaz
e sem reputação,
sem créditos nem bens
que o tornassem capaz
de semelhante ação.

Só por indiscrição,
quiméricas idéias
proferiu - sem escolha
de tempo ou de lugar,
- e pela condição
de temerário insano
que se deve perdoar.

Pois assim reza a lei
desses imperadores
Teodósio, Arádio, Honório,
- quanto àqueles que vão
maldizendo do rei
por fúria da razão.

Ficava para trás,
por sério e desvalido,
em toda promoção.
Era um homem loquaz,
e quis fazer das Minas
uma grande nação."

(Ninguém faz o que quer.
Ninguém sabe o que faz.
E os culpados quem são?)

CECÍLIA MEIRELES ( Rio de Janeiro, 1901/1965)


Romanceiro da Inconfidência
Cecília Meireles
Círculo do Livro S.A, 1975


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Sexta-feira, Julho 08, 2005

11:15 PM - le bateau terroriste


nunca entrou um barco pela manhã
no teu quarto? os meus dedos cravaram-se
na branca página do ar e tu porventura
não sabes que deles sobra uma âncora
talvez a encontres sob a forma de lâmina
ou de faca junto à raiz do coração do mar
acolhe-te aqui agora digo bem alto
deixa-me adivinhar a cor do sol na tua boca
nunca nevou tanto lá fora
as palavras doem como o perfume
ensaguentado
dos comboios em londres
maria azenha
2005, julho, 7, lisboa

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10:35 PM - A razão natural....




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8:21 PM - Amor menino...

Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba.
Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera!
São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito.
São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas.
Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino: porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo.
Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê e não via; e faz-lhe crescer as asas com que voa e foge.
A razão natural de toda essa diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor?
O mesmo amor é causa de não amar e ter amado muito, de amar a menos.
Padre António Vieira

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8:15 PM -




“¿Quiénes gritaron de alegría cuando nació el color azul?”

Saida Stebler (14 años)

in Isla Negra/ especial 1, " gracias pablo".

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7:46 PM - Oda a la pobreza

Cuando naci,
pobreza,
me seguiste,
me mirabas
a través
de las tablas podridas
por el profundo invierno.
De pronto
eran tus ojos
los que miraban desde los agujeros.
Las goteras,
de noche, repetían
tu nombre y tu apellido
o a veces
el salto quebrado, el traje roto,
los zapatos abiertos,
me advertían.
Allí estabas
acechándome
tus dientes de carcoma,
tus ojos de pantano,
tu lengua gris
que corta
la ropa, la madera,
los huesos y la sangre,
allí estabas
buscándome,
seguiéndome,
desde mi nacimiento
por las calles.
Cuando alquilé una pieza
pequeña, en los suburbios,
sentada en la silla
me esperabas,
o al descorrer las sábanas
en el hotel oscuro,
adolescente,
no encontré la fragancia
de la rosa desnuda,
sino el silbido frio
de tu boca.
Pobreza,
me seguiste
por las cuarteles y los hospitales,
por la paz e la guerra.
Cuando enfermé tocaron
a la puerta:
no era el doctor, entraba
otra vez la pobreza.
Te vi sacar mis muebles
a la calle:
los hombres
los dejaban caer como pedradas.
Tú, con amor horrible,
de un montón de abandono
en medio de la calle y de la lluvia
ibas haciendo
un trono desdentado
y mirando a los pobres
recogías
mi último plato haciéndolo diadema.
Ahora,
pobreza,
yo te sigo.
Como fuiste implacable,
soy implacable.
Junto
a cada pobre
me encontrarás cantando,
bajo
cada sábana
de hospital imposible
encontrarás mi canto.
Te sigo,
pobeza,
te vigilo,
te acerco,
te disparo,
te aíslo,
te cercano las uñas,
te rompo
los dientes que te quedan.
(...)
Otros poetas
antaño te llamaron
santa,
veneraron tu capa,
se alimentaron de humo
y desaparecieron.
Yo
te desafío,
con duros versos te golpeo el rostro,
te embarco y te destierro.
Yo con otros,
con otros, muchos otros,
te vamos expulsando
de la tierra a la luna
para que allí te quedes
fría y encarcelada
mirando con un ojo
el pan y los racimos
que cubrirá la tierra
de mañana.
Pablo Neruda

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7:02 PM - Dylan Thomas


Uma mística arca galês cantando ao sol*
Dylan Thomas nasceu em Swansea, sul de Gales, em 1914. Aos 39 anos, faleceu na cidade de Nova Iorque, em 1953. Não foi nem nunca quis ser - um poeta isolado - um homem solitário, um desses escritores que demonstram um certo tipo de recato literário, o que pode parecer contrastante com a sua exclusão aos principais ou secundários movimentos literários do séc. XX. Não divergia do que se pode considerar literatura popular, nem a ideia de ser um poeta retroactivo e tradicionalista o adapta ao bardo de Gales e do mundo, tanto quanto pretendia ser considerado.
As suas ligações ao cinema, rádio e televisão, no entanto, não são assim tão populares.
* Por Andréa Santos, in "A Metáfora Thomasiana"
No vayas tan confiado esa noche,
la vejez quemara y delirara al final del día
Odio, odio contra la muerte de la luz.
Aunque los inteligentes saben al final que la oscuridad esta bien,
porque sus palabras no van por las ramas ellos
no van confiados esa noche.
Los hombres buenos, los que quedan, lloran por lo brillantes
que sus delicadas hazañas podrían haber danzado en la verde bahía,
odio, odio contra la muerte de la luz.
Los hombres selvajes que alcanzan y cantan al sol en vuelo.
Y aprenden, demasiado tarde, que ellos se afligieron a su manera
no van confiados esa noche.
Hombres importantes, cerca de la muerte, que ven con vista ciega
ojos ciegos que pueden arder como los meteoros ser felices,
odio, odio contra la muerte de la luz.
Y tú, mi padre, ahí en tu alta tristeza,
maldice, bendice, a mí ahora con tus fieras lagrimas, ruego,
no vayas confiado esa noche.
Odio, odio contra la muerte de la luz.
( 1952 )

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Quinta-feira, Julho 07, 2005

6:55 PM - Helder Moura Pereira

A morte afinal não custa nada, diz-me
a minha voz insensata como se
já lá tivesse estado. E logo te transmito
o que a minha voz me disse, porque
uma coisa destas merece ser divulgada.

Agora a saudade de te ter tido
junto de mim algum tempo esbarra
com preocupações e raiva
sobre como o mundo está.
Uma lástima, acrescentas, e o pior
está para vir. Quanto a nós, não sei:

a vida dá muitas voltas, quem sabe
o que pode acontecer. Mas este futuro
assim misterioso é ainda mais triste
do que qualquer passado triste.
Quem me dera que dissesses
presente quando fosse preciso.

Sem amor a gente anda por aqui
a gemer de dor por dentro, é a verdade
pura e simples e o resto é conversa.
Já que o mundo está como está
ao menos que o lastimássemos a dois.

Helder Moura Pereira

(p. 57)
Assírio & Alvim
Colecção: poesia inédita portuguesa

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12:39 PM - Carta dos Trabalhos do Olhar


(art.transindex.ro/ fotografia de Ton Dirven )


do outro lado das palavras os ramos altos das figueiras
a misturar o tempo com restos de casas abandonadas

levanto as mãos no meu sonho
e uma ferida de água nas pontas dos dedos
durará aqui como um beijo imaginado

lembrando correndo dormindo

falo da outra face dos rios
de coisas velozes como a terra onde dói um sorriso
onde a noite se dobra nítida ao fervor das sementes
onde o corpo adivinha essa cor rasgada nos lençóis

depois olho-te em segredo
respiro o que tu respiras
escrevo essas palavras adormecidas no ar

olho-te longe da minha insónia
contemplo o horizonte quebrado dos montes
o trigo o feno as estevas rio-me

a sombra dos meus braços move-se
junto aos gatos entre avencas e silenas
fico imóvel atento

onde começará este esquecimento?
como será o meu silêncio no teu rosto?

deita-te sobre mim vem escuta
as árvores abrem-se ao meio nas ruas da vila
nas pedras cansadas nas amoras junto ao sol dos muros

vem não tenhas medo
sou teu e também isto são pormenores
vem era uma vez dois magos numa floresta.

Joaquim Cardoso Dias

Em Cinco Dias
Malcata 7 Geografias
Edit. Alma Azul

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11:24 AM - MIROSLAV HOLUB

AMOR


Dois mil cigarros.
E uma centena de milhas
de parede a parede.
Uma eternidade e meia de vigílias
mais brancas que a neve.

Toneladas de palavras
velhas como pegadas
de um ornitorrinco na areia.

Uma centena de livros que ficaram por escrever.
Uma centena de pirâmides que ficaram por construir.

Lixo.
Pó.

Amargo
como o princípio do mundo.

Acredita em mim quando digo
que foi belo.

MIROSLAV HOLUB (República Checa,1923-1998)

in QUAL É A MINHA OU A TUA LÍNGUA?
Cem poemas de amor de outras línguas
Organização Jorge Sousa Braga,2003

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10:25 AM -



(fotografia sem título)

in:http://perso.wanadoo.fr/

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Quarta-feira, Julho 06, 2005

5:44 PM - A sombra sou eu




A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se a minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

Almada Negreiros - LER nº50



* José de Almada Negreiros, nasceu em S. Tomé em 1893, Artista plástica, poeta, ensaísta, romancista e dramaturgo, pertenceu, com Fernando Pessoa e Sá-Carneiro, ao grupo da revista Orpheu (1915). A sua linguagem é como notou Vitorino Nemésio, duma « linearidade prodigiosa talvez ainda mais elementar que a do seu desenho. Ele vai às palavras, desinfecta-as, urde-as de novo» . IN Dicionário da Literatura - Mário Figueirinhas Editor

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5:28 PM - Eram sete e meia.

Eram sete e meia.
O mais tarde que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queriamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não me senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.

Almada Negreiros ( inédito) - LER nº 50

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4:47 PM -


Maternidade. Almada Negreiros, 1935.
Óleo sobre tela, 100x100 cm.
Colecção Fundação Calouste Gulbenkian

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4:35 PM - Fidelidade

a esses e ainda
aos realmente explorados
aos realmente monte de trabalho
ou nem isso só rios
só folhas na árvore cheia do método árvores
Mário Cesariny, in "Pena Capital"

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3:47 PM - Minha cabeça estremece com todo o esquecimento

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar para além da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casa absoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Helder, in "Ou o Poema Contínuo", Súmula, 2001

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3:42 PM -


Em Cena, fotografia de Luísa Ferreira Posted by Picasa

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3:31 PM - P

Pediram-te palavras.
E elas entretêm o som que nunca ninguém viu.
Pegaste numa delas e ergueste-a ao céu
num gesto consumado e teatral.
És um actor doente. Abandona a cena.
O céu não é uma tragédia.
Está muito para além do teu bem
do teu mal.
Armando Silva Carvalho, "Três Vezes Deus", 2001

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12:22 PM - ...Não sei ...

Não sei, amor, sequer, se te consinto
ou se te inventas, brilhas, adormeces
nas palavras sem carne em que te minto
a verdade intemida em que esqueces.
Não sei, amor, se as lavas do vulcão
nos lavam, veras, ou se trocam tintas
dos olhos ao cabelo ao coração
de tudo e de ti mesma.Não que sintas
outra coisa de mais que nos feneça;
mas só não sei, amor, se tu não sabes
que sei de certo a malha que nos teça,
o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça
o princípio de sol que nos acabes.

Pedro Tamen

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12:55 AM - escrevo-Te bilhetes


Posted by Picasa Poconé ( Estado de Mato Grosso, Brasil )
dá-me uma ave para voar azul
ou uma asa ardente em meus lábios
para retornar à casa esquecida
uma casa feita de silêncio com a luz do espaço
varandas e portas viradas para o sul do sol
e janelas cúmplices rasgadas com a face da lua
ouço na lonjura a alva música
do tear dos céus / comigo cruzam
os umbrais dilacerados
da página
azul
o meu corpo move-se lento / é um enorme navio
desliza sobre grandes toalhas de vento e sal
o Teu nome está escrito por dentro /
escrevo-Te bilhetes na alma dos espelhos
( maria azenha )

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12:43 AM -

Um rumor de pétalas dispersas
abertas em melancolia.
O dia envelheceu
e as nuvens trouxeram de longe
os seus cabelos brancos.
E o azul não mais amanheceu.
Alberto Pimenta, in "Ainda, uma folha de poesia ilustrada..."

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12:25 AM - Mãe, a chuva é tão leve


Posted by Picasa
Cai uma chuva de leve
ó Mãe, deixa-me ouvi-la,
som bom de água que ferve;
minha aldeia já foi vila.
E a chuvinha continua...
Brilham vermelhos telhados
nos regatos rumo à lua
vão barcos meio afundados.
Mãe, a chuva é tão leve
ai, Mãe, deixa-me ouvi-la!
Quem não tem ai, mas já teve,
minha aldeia já foi vila.
Sou sonhos, visões, imagens,
cai a chuva, zune o vento
sou saudade nas viagens
que faço no pensamento.
Minha Mãe, deixa-te estar
comigo aqui à lareira
como outrora eu a espreitar
se já ferve a cafeteira.
E depois o sonho vinha
nos teus joelhos. Que bom
que é da história da Rainha...
e dum certo, um certo Dom?...
E a chuvinha continua...
Brilham vermelhos telhados
nos regatos rumo à lua
vão sonhos meio afundados.

António Simões, in "Ainda, uma folha de poesia ilustrada",
número único, coimbra, 1958
( Visto pela Comissão de Censura )

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Terça-feira, Julho 05, 2005

11:51 PM - Carta do combatente arrependido a sua mãe

Escrevo-te, Mãe, nesta tarde imensa, neste amanhecer.
Não me nasce o mundo na boca dos sonhos
mas anoitece a vida, anoitece a esperança
mas amanhece a vida, amanhece a esperança.
Plantaram cardos nas bermas dos caminhos
e os meus pés feriram-se de rosas
levaram-me pela mão para aquele longe
e eu fiquei aqui amarrado Àquela
que me disse agora, que me disse há pouco
já lá vão mil anos: "Vacila, mas não recues!"
E eu fiquei de pé em todos os sítios
com flores no lugar de cardos,
com crianças no lugar de flores.
Eles passaram sem olhar e olharam sem passar,
eles foram tanta estranheza.
E uma noite soavam as bandejas
soam no cair de moedas
e o criado trazia duas imperiais e um copo de leite
e eu vi a rua dentro de mim
e os canhões mataram dentro de mim.
Atirei de repente a uma rosa: os canhões emudeceram.
E o sol que iluminava e alegrava as crianças
na rua dentro de mim
foi iluminar lá fora todas as ruas do mundo
e todas as crianças do mundo.
Mas eu de novo estranheza
e uma busca de ser simples
e aquele desejo tão forte
de me evadir sem saber como
e aquele medo tão grande
dos dedos negros da mão de doença
que me abria as páginas dum livro de penumbras.
depois um galo cantou
vermelho no azul da aurora.
E nós ficámos quase quietos vendo as crianças voando
nas asas doces do vento que nascia do balouço
dos trigais que eram nossos
que eram nossos, só nossos.
E contudo, ó amizade,
havia mais de mil mãos
a dizer "minhas espigas".
E depois porque morreste
e depois porque nasceste
te mudaste de mil cores
vestido de bibe azul?
Tomaste vestes de morte
e em lugar de pomares
de hortas fartas e boas
eu me cavei de trincheiras,
voei no fumo da pólvora,
entrei em cada estilhaço
que semeou morte e vitória,
que semeou morte e derrota.
E morri feito em pedaços
na tinta azul da caneta
que mandou a minha morte
embrulhada de medalhas
para a frente dos jornais.
E fiz as crianças tremer
e os animais se esconderam
e acordaram já mortos
olhos feitos de mistério:
Fumarada! Fumarada!
que veio lá da granada.
Eu rimo aqui o poema
e ponho nele loucura.
Eu não caibo no café onde escrevo este poema.
Já parti todas as janelas
e abri fendas nos muros onde cabem dez mil homens.
Quiz pagar os estragos
mas o patrão chamou-me doido
que eu nada tinha destruído
nada tinha que pagar.
Mas eu sei que as minhas rosas
e a minha doce loucura
não cabem neste café,
não cabem neste país,
nesta Europa
neste mundo.
E disse assim ao criado:
- Traga "Café Amanhã"!
António Simões, in "Ainda, uma folha de poesia ilustrada"
número único, coimbra, 1958
( visto pela Comissão de Censura )

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6:20 PM - Sayd Bahodine Majrouh

"landays" de exílio e de amor


Meus amigos, qual dos dois escolher?
Luto e exílio chegaram juntos a minha casa.

É Primavera, aqui as folhas crescem nos ramos
Mas no meu país as árvores perderam a ramagem sob o
[granizo das balas inimigas

Adormece em meus olhos
A insónia das minhas noites reduziu-me a pó

Poisa a tua boca na minha
Mas deixa a minha língua livre para falar de amor

Vem, amor, deixa-me abraçar-te
Eu sou a frágil hera que o Outono em breve levará

Esta mulher exilada não pára de morrer
Voltai-lhe o rosto para a terra natal, para que ela exale o
[seu último suspiro

Sayd Bahodine Majrouh

in "A voz secreta das mulheres afegãs - o suicídio e o canto"
Versão de Ana Hatherly
Cavalo de Ferro,2005

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2:37 AM - *Louvor do Soneto*


fotografia de Gregory Colbert



Louvo a serenidade do soneto
Que ao longo do seu corpo se derrama
E vai tecendo a doce, têxtil trama
Do canto das palavras em concerto.

Louvo a brevidade do soneto
Que em catorze versos faz a cama,
E ali vive, odeia e ama,
Aninhado e feliz como num berço.

Louvo essa clara geometria
Onde minha alma se define e abre
Na teia do verso entretecida.

Louvo esse filho matinal do dia,
Onde a escura noite nunca cabe
E a morte morre às mãos da vida.


*António Simões*

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1:55 AM -

...

Creio que está decadente o critério que dava como Poesia tudo o que fosse escrito em verso.
Para aplaudir ou desejar essa decadência não é preciso mais do que fazer o sacrifício de ler as mil e uma festejadas habilidades métricas que ao longo dos séculos se foram escrevendo – e que deram, por conta do dito critério, o nome de Poetas a quem as traçou. Falta aí o misterioso quid sem o qual nada feito.
Isto não quer dizer, de modo nenhum, que não se tende exprimir ou captar pelo verso a Poesia. Acho que o verso não é um vaso, um molde, uma carne em que a Poesia tome forma, como geralmente se pensa: é uma espécie de laço, armado pela manha do poeta, a ver se a Poesia, incauta, vem ao chamamento; ou um rito, uma invocação que a faça descer. Esta manha ou este canto de sereia ou pela invocação é que tomam formas, não a Poesia. O poeta não tem à mão senão as palavras, joga com elas de modo a lisonjear a Poesia naquelas qualidades divinas que lhe pressente – e como pressente que a Poesia é bela e é musical, tenta imprimir beleza e musicalidade ao barro humano das palavras.
Temos, portanto, resumindo, que o verso não é ele próprio a Poesia…

Sebastião da Gama
In “ O segredo é amar” ( 1947)

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1:49 AM -


fotografia de Gregory Colbert


No tempo em que eu me via paladino,
cobrindo em aço o rosto e abdômen,
pensava ser um homem e era um menino.
Agora, quando os medos me consomem,
e incerto mais parece o meu destino,
eu penso ser menino e sou um homem.

Antoniel Campos*
in " De cada poro um poema", pag17
edição Sebo Vermelho
Natal, 2002

*Antoniel Campos, engenheiro civil, nasceu em Pau dos Ferros, RN - Brasil, em 1967. Publicou os seguintes livros: "Crepes & Cendais" (1998), "de cada poro um poema" (2002) e "a esfera" (2005).

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1:43 AM -

...
Lemos um poema, bem rimado, bem ritmado, com uma imagística fulgurante e mais uma porção de predicados poéticos, e logo o condenamos ou o exaltamos pela falta ou pela presença de Poesia. Se nos perguntarem onde ela está, ou porque sinal vemos que não está, não saberíamos explicar. Então que presença misteriosa é essa, como se revela, como existe? Por mim furto-me à resposta.
Não me venham também perguntar com que sentido me é dado apreender Poesia – só lhes digo que não é com nenhum dos cinco…

...


Sebatião da Gama
In “ O segredo é amar” ( 1947)

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1:38 AM - Demasiado Humano

Escancarei, por minhas mãos raivosas,
As chagas que em meu peito floresciam:
Versos a escorrer sangue eis escorriam
Dessas chagas abertas como rosas…

Assim vos disse angústias pavorosas
Em versos que gritavam… ou sorriam.
Disse-as com tal ardor, que todos criam
Esse rol de misérias fabulosas!

Chegou a hora de cansar…, cansei!
Sabei que as chagas todas que aureolei
São rosas de papel como as das feiras.

Que eu vivo a expor minh’alma pelas estradas,
Com chagas inventadas retocadas…
Para esconder bem fundo as verdadeiras.

José Régio
In “ Biografia” ( 1929)

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1:14 AM -


(fotografia do arquivo do Diário de Notícias)

Bem se sabe da Poesia que é indefinível, que é inapreensível, que é feita da mesma incógnita matéria que os deuses. Lê-se um poema ou colhe-se um lírio ou sorri-nos uma criança –e nós sentimos Poesia. Mas colher um lírio é colher um lírio – é ter mãos e ter lírios, coisas banalíssimas. Sorrir-nos uma criança é sorrir-nos uma criança, e podia chorar que não seria isso menos natural. No entanto…
....

Sebastião da Gama
In “ O segredo é amar” ( 1947)

*Sebastião Artur Cardoso da Gama nasceu em Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal, em 10 de Abril de 1924, e faleceu em Lisboa em 1952. Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, tendo sido professor durante dois anos na Escola Industrial e Comercial de Estremoz. Desde a juventude atingido pela tuberculose, foi, por prescrição médica, viver para a Arrábida. Obras: Serra-Mãe (1945), Loas a Nossa Senhora da Arrábida (1946), Cabo da Boa Esperança (1947), Campo Aberto (1951), Pelo Sonho é que Vamos (1953), Diário (1958), Itinerário Paralelo (1967 – compilação de David Mourão-Ferreira), O Segredo é Amar (1969).



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Segunda-feira, Julho 04, 2005

11:52 PM - Amor constante para além da morte

Pode fechar-me os olhos a derradeira

sombra que de mim leva o branco dia,
e livrar de tudo o que prendia
a alma ansiosa, a hora que se abeira;

mas não deixará na margem de ribeira
a memória dos sítios onde ardia:
minha chama nada na água fria
e a dura lei enfrenta altaneira.

Alma de que todo um deus foi prisão,
veias onde tanto fogo foi gerado,
medulas em gloriosa combustão:

o corpo deixará, não seu cuidado;
cinzas hão-de ser, mas com coração;
serão pó, sim, mas pó apaixonado.

Francisco Quevedo (1580 - 1645) - (Tradução de António Simões)

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6:06 PM - Quando sobre o céu, terra e vento desce a paz


Quando sobre céu, terra e vento, desce a paz,
E as aves e as feras o sono serena,
E a noite o carro de estrelas plo céu leva
E em seu leito o mar sem ondas jaz,
Velo, penso, ardo, choro, e quem sofrer me faz,
Sempre à frente vejo na minha doce pena.
Minha alma em guerra vive, de dor e ira plena,
E só pensando nela tenho alguma paz.
Só uma clara e viva nascente, assim,
Acalma a doce amargura, alimento meu.
Uma única mão me cura e apoquenta.
Pois este sofrimento não irá ter fim.
Mil vezes num dia, morro e renasço eu:
E a minha salvação tão longe se apresenta.
Francesco Petrarca (1304-1374) - (Tradução de António Simões)

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5:43 PM - Quem pela primeira vez visse o fogo

Quem pela primeira vez visse o fogo,
Não creria que pudesse queimar -
O seu esplendor parecia um jogo
Que ante os seus olhos tivesse lugar.
Mas se lhe tocasse de algum modo,
que queimava muito iria notar:
O fogo do amor tocou-me um pouco,
Arde e bem. Deus, que em mim se vá 'spalhar.
E por vós se espalhe, senhora minha,
Que fazeis crer que me tendes amor,
Mas só me dais dor e tormento.
Claro, Amor age de forma mesquinha;
Enquanto ele sé vãs palavras for,
A mim, que o sirvo, não dá contentamento.
Giacomo da Lentino (1188 -1240) - (Tradução de António Simões)


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4:33 PM -


Paisagem,
fotografia de Luísa Ferreira
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4:22 PM -

Aceita-se como vem até nós.
Tornamo-nos mais precários.
O homem avança,
sangue de folhas em esquecimento
atrai, esconde
o silêncio
entre a luz.
Joaquim Manuel Magalhães, "Consequência do Lugar", 2001

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4:11 PM - O poema ensina a cair

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede
até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.
Luiza Neto Jorge, in "Poesia" ( Assírio & Alvim )

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3:59 PM -


Luiza Neto Jorge, 1939-1989.Posted by Picasa
Estudou em Lisboa, viveu em Paris entre 1962 e 1970, publicou sete livros de poesia, escreveu para teatro e cinema, traduziu muito. Quem era na vida de cada dia, quem os seus amigos e hábitos? Na sua poesia está o lugar da sua casa, numa Rua que se chamou do Mundo, a cidade de Silves onde passou uns meses em 1983, a Faculdade de Letras, Maio de 68, o que se ler.
Mas, se tudo o que está nela tem o seu tempo, esse não é só o tempo em que viveu mas a falha do seu tempo e de todos os tempos. Através da qual refulge outra paisagem. Quero dizer: há pesquisa do que possam ser as coisas sem tempo. Como se fossem as coisas só.
in "Poesia" ( Assírio & Alvim )

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3:37 PM - Eu, artífice

Atento agora ao traço,
corrijo o mais da matéria,
ergo a minha arte do poço
onde flutua.
Como o brilho se desprende
do metal mais bravo,
no forro de cada um
o desgaste é tanto
que eu, artífice, colho
o que de mim alimenta,
falo do que eu estou sendo,
da sua mão em desordem,
dos passos, das lágrimas baixas
que se vão constituindo
Luiza Neto Jorge, in "Poesia" ( Assírio & Alvim )

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2:27 PM -



...
Com esta história eu me vou sensibilizar, e bem sei que cada dia é um dia roubado da morte. Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa húmida. As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalatictes, renda, música transfigurada de orgão. Mal ouso chamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor. Alegro com brio. Tentarei tirar ouro do carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco de bola sem a bola. O facto é um acto? Juro que este livro é feito sem palavras, é uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.
...

Clarice Lispector ( Ucrânia, 1920/ Brasil 1977)
in " A hora da Estrela", pag 19
edição Relógio D'Água

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12:37 PM - " A E..."


....

Mas veja você ainda todos os modernos franceses, os grandes pensadores - Renan, Flaubert e mesmo Dumas filho. Escrevem com meia dúzia de palavras. Flaubert catava dos seus livros todos os termos que não pudessem ser usados na conversa pelo criado: daí vem ele ter produzido uma prosa imortal. E a razão é que só os termos simples, usuais, banais, correspondendo às coisas, ao sentimento, à modalidade simples, não envelhecem. O homem, mentalmente, pensa em resumo e com simplicidade, nos termos mais banais e usuais. Termos complicados, são já um esforço de literatura - e quanto menos literatura se puser numa obra de arte, mais ela durará, por isso mesmo que a linguagem literária envelhece e só a humanidade perdura.
...


Você decerto provou a riqueza do léxico e agradou a dois ou três gramáticos - mas nenhum rapaz, nenhuma mulher, nenhum homem ficou compreendendo como era o seu personagem. E como ninguém tem paciência para folhear o dicionário, você ficou incompreendido - e foi como se não escrevesse! Nunca me esqueceu o que um dia me disse Chardron de um romance assim escrito. Perguntei-lhe se a coisa se vendia; ele teve um gesto de amargura: - Pas du tout! il parait que, pour comprendre ça, il faut acheter aussi un diccionaire, et ça revient trop cher!
Além da riqueza do léxico, nos termos, há a riqueza do léxico no desenvolvimento da ideia, isto é, a apresentação da ideia sob uma forma copiosa e folhuda. Isto é ainda mais fatal. A coisa mais simples, e que na sua simplicidade seria bela, fica logo tão sobrecarregada de ornatos, de franjas, de lantejoulas e de penduricalhos, que me lembra sempre certas imagens de santas italianas, que sob a abundância dos efeitos, dos ex-votos, dos colares, das coisas vagas que sobre elas reluzem, apresentam à adoração dos fiéis, não uma santa, mas um cabide de adelo!
O escritor do léxico abundante não pode dizer que " Elvira chorou" sem complicar esse acto tão simples, com tantas incidentais sobre o sabor das lágrimas, o fel ou o júbilo que elas continham, e os anjos que as recolheram nas mãos, e as pérolas em que elas se transformaram, e a pouca atenção que o universo lhes deus, e a perfídia do homem, e a infâmia do brasileiro - que o leitor aturdido, escassamente fica sabendo se Elvira estava chorando, ou rezando as contas, ou cantando ao piano a Traviata!
...


Eça de Queirós*
"A E.." ( Cartas inéditas a Fradique Mendes)
pag,65,66,67
obras completas de eça de queirós.
edit. Planeta de Agostini, S.A.

*É considerado o grande romancista da literatura portuguesa, quer pela sua amplidão temática (dominada pela crítica da sociedade contemporânea e pelos desmandos do amor sensual, ex. O Crime do Padre Amaro, 1875, e O Primo Basílio, 1878), quer pela capacidade narrativa (manifestada na orgânica realista e decadente de Os Maias, 1888), quer pelo rigor e criatividade do seu estilo impressionista (que culmina na prosa animista de A Cidade e as Serras, 1901).
em Centro Virtual Camões

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Domingo, Julho 03, 2005

10:48 PM -


Sé Velha de Silves, in desdobrável da Cidade Posted by Picasa

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10:26 PM -

Que procura o viajante ao percorrer a sua pátria?
O lugar do seu nascimento ou do seu fim?
Talvez procure o seu destino.
Talvez o seu destino seja procurar.
Octávio Paz, Itinerário

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9:29 PM - Che e Pico

Por isso podem tocar os sinos. Algures
no mundo
há um mexer de lábios
um dedilhar. Ou talvez
um músculo a bater.
Algures
no centro
da Terra.
Ninguém pode parar esse tremor
essa oculta secreta respiração
no ritmo interior
de um homem
*
É sempre possível acordar uma manhã e dizer
não vou.
E decidir ficar em casa. Fechar-se
no próprio quarto e proclamar
a serra é aqui
*
Gostava de aprender a linguagem do peixe.
O recado do golfinho para o golfinho.
A fala da baleia.
Ou o grito da gaivota para a gaivota.
O som inarticulado de qualquer latido.
Ou o simples zumbido. Ou o silêncio
carregado
de sinais.
Talvez então o sentido primordial.
O ritmo inicial e iniciático do poema.
A batida do mar. A batida do vento.
A batida da terra.
Manuel Alegre, in Obra Poética VI

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8:46 PM - Liberdade


liberdade Posted by Picasa

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8:02 PM - Isso Sim, É Liberdade

as crinas dos cavalos lilases
embelezados com sorrisos
de esteva e secretos aromas;
o descontraído olhar
dos gatos
penteados pelo sol fresco
da manhã;
o bater de asa da águia real
entre escarpas
secando as garras coloridas
pelo sangue da serpente;
isso sim, é liberdade
sorrir com a morte
das ondas de encontro
às rochas onde se encostam
as seduções da areia;
amar sexos invisitáveis
em dunas de algodão doce
divididas por oásis de estalagmites;
passear a nudez
nas avenidas sem paredes
e abraçar a
pele da lua;
sentir beijos de framboesa
por entre as labaredas
do merecido purgatório;
isso sim, é liberdade
riscar esquissos de água
na tela negro-celeste
onde habitam as noites brancas
da casa das estrelas;
ficar incomodado
com olhares brancos e frios,
e no entanto sorrir;
iluminar a alma
com as lanternas da trovoada
passeando a existência
por dentro da tempestade;
isso sim, é liberdade
vestir e despir os manequins
da montra comum
que se abraça com olhares;
dizer que sim e que não
independentemente de
ter ou não ser razão;
percorrer os corpos
com os dedos das novas palavras e
rejeitar a arrogância
dos copiadores de bíblias;
isso sim, é liberdade
inspirar lágrimas de orgulho
que rolam com a serenidade
das notas do violino solista
na sinfonia dos dias e das noites;
eternizar o cheiro doce
de uma flor cor-de-sangue
e plantá-la nos vasos da memória;
corro de encontro ao vento
abraçado pela chuva,
a madrugada bate à porta
do peito, as gotas de sal
passeiam as faces,
ouço o rumor crescente
das águas
perscruto os sorrisos necessários
dos meninos depois de Abril.
isso sim, é liberdade.
José Braga-Amaral, in Antologia Poética "Na Liberdade"

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7:52 PM - Liberdade

este animal
que trago no peito, por dentro, acocorado
remordendo o silêncio
- como salalés roendo o barro -
perfurando as sombras com os seus olhos grandes
Escavando sulcos no silêncio,
Acocorado.
Este animal que trago nervoso
no peito,
retesando os músculos, pronto para saltar
este animal que no estreito
silêncio de mim se agita
e abre a enorme boca pronto para gritar
Este animal que em mim se move
em mim habita
este animal que ninguém poderá jamais domesticar.
José Eduardo Águalusa ( Angola ), in Antologia Poética "Na Liberdade"

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7:48 PM -



Etiopía. Isabel Muñoz, fotógrafa invitada en el Notodofotofest.com, I Festival ABC de Fotografía Colectiva.

http://www.lafabrica.com/

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7:23 PM - A Defesa do Poeta

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos

(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.


Natália Correia ( 1923-1993)

em literatura portuguesa
http://www.lumiarte.com

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7:13 PM - José Gomes Ferreira ( 1900/1985)




XXII

( Fuzilaram um homem num país distante)

Hoje proíbo as rosas de nascerem diante de mim!
Proíbo as deusas de dançarem nos olhos das crianças!
Proíbo os corpos das mulheres de terem outro destino que a morte!
Sim, proíbo!
E ( baixinho, em sonho) aos gritos no mundo
ordeno aos homens
que venham para a rua descalços
para sentirem nos pés nus
o silêncio da terra
- e o terror de viverem num planeta
onde os fuzilados não ressuscitam,
nem os malmequeres protestam com flores de luto
contra este sol que continua a fabricar primaveras mecânicas
e este cheiro tão bom a mulheres novas nas árvores com cio!

José Gomes Ferreira*
antologia poética, pag.111, 112
diabril editora, S.C.A.R.L.

*Escritor, poeta e ficcionista português, natural do Porto. Formou-se em Direito em 1924, tendo sido cônsul na Noruega entre 1925 e 1929. Após o seu regresso a Portugal, enveredou pela carreira jornalística. Foi colaborador de vários jornais e revistas, tais como a Presença, a Seara Nova e Gazeta Musical e de Todas as Artes. Esteve ligado ao grupo do Novo Cancioneiro, sendo geral o reconhecimento das afinidades entre a sua obra e o neo-realismo. José Gomes Ferreira foi um representante do artista social e politicamente empenhado, nas suas reacções e revoltas face aos problemas e injustiças do mundo. Mas a sua poética acusa influências tão variadas quanto a do empenhamento neo-realista, o visionarismo surrealista ou o saudosismo, numa dialéctica constante entre a irrealidade e a realidade, entre as suas tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento dos outros.

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6:13 PM - A Poesia É Só Uma

" Os poetas já hoje não são um simples fazedores de madrigais, são uns directores do espírito dos povos, e sempre o serão, quando conhecerem o seu poder e tomarem o seu alto lugar"

Gomes Leal, numa nota inserta na 4ª edição de " O Herege" citada por Carlos Queiroz no nº 5 ( 1942)

..../

A expressão poética, com todos os seus ingredientes, recursos, apelos aos sentidos, resulta de um compromisso firmado entre um ser humano e o seu tempo, entre uma personalidade e uma consciência sensível do mundo, que mutuamente se definem. Tudo o que não atinge este nível não é poesia. Surge assim a poesia como una, em face da não-poesia. E a prova está em que a poesia tem sempre aumentado os seus domínios à custa do que sempre fora julgado não-poético.
Cada época integrou em poesia sua a não-poesia da época que a precedeu.

Se a expressão poética é ( ou resulta de) um compromisso - e sublinhe-se de uma vez para sempre que esse compromisso se não destina a captar o não "exprimível"... -, evidente se torna que a poesia só existe como relação: a relação que relata e a relação que relaciona entre si duas entidades. Portanto, quem se subordina à Poesia ( com maiúscula) na intenção de esquivar-se a outras subordinações ( a Deus, ao Mundo, ao próprio Homem), trai-se a si próprio, à consciência sensível do mundo, e à relação que pretende criar, quem subordine esta última não àquilo que pensa e sente, mas ao que entende dever ser tal relação, tal expressão poética, tal poesia. Evidentemente que é da própria natureza da vida humana o transformar o mundo à sua imagem e semelhança. Todos os humanismos, transcendentes ou imanentes, concordam neste ponto, ou mais exactamente, na expressão que atrás lhe foi dada. Mas, para tanto, é preciso deixar que as mãos do homem e o olhar do poeta transformem o mundo à sua imagem e semelhança. O poeta não contempla- o poeta cria. Defende o que é atacado, e ataca o que é defendido. Não age como ser especial, diferente dos outros homens, que os não há esses outros seres: mas como um homem destinado a nele se definir a humanidade: um ser capaz de ter todo o passado íntegro no presente e capaz de transformar o presente integralmente em futuro.

Lisboa, Abril de 1951

Jorge de Sena
José Blanc de Portugal
Ruy Cinatti
Tomaz Kim
José- Augusto França

in " cadernos de poesia", pag. 6, 7, 8
reprodução fac-similada dirigida por Luis A. Carlos e Joana M. Frias.
edição campos das letras

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Sábado, Julho 02, 2005

11:22 PM - O Portugal Futuro

o portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
A sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal do futuro.
Ruy Belo, in "Homem de Palavra(s), 1969

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11:15 PM -








O Tempo
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10:25 PM - Odeio este tempo detergente

Odeio este tempo detergente
um tempo português que até utilizou
os primeiros acordes da quinta sinfonia de beethoven
como indicativo da voz do ocidente
chamada actualmente a emissão em línguas estrangeiras
um tempo que parou e só mudou
o nome que puseram num mundo que muda
as coisas que afinal permaneceram
um tempo português que alguma vez até em camões vê
o antecessor e criador de coisa como a nato
com a profética visão de quem consegue conceber tal obra
bem pouco literária por sinal e só possível graças à visão
de quem com um só olho vê as coisas quatrocentos anos antes
Odeio este meu tempo detergente
de uma poesia que discreta até se erótica antigamente
hoje se prostitui numa publicidade
devida a algum poeta público que a certo detergente
deu de repente esse teu nome musical de musa
a ti precisamente a ti nesse teu rosto sorridente
onde o poeta público publicitário porventura viu
sobressair teu riso nesse território de alegria
e a brancura mais alva nesses dentes alvejar
E eu que faço eu aqui em todo este tempo detergente quando
sinto subitamente cem saudades tuas
que posso que não seja odiar mais um meio que jamais
tentaria impedir evitaria um tempo que consente até contente
que faças dentro em pouco um ano mais
um meio onde nem mesmo eu mulher afinal sei
que terei de fazer para deter ao menos um momento essa tua idade
a tua juventude se possível anos antes de haver-te conhecido
por acaso e já tarde na cidade onde nasceste
cidade que unamuno diz viver morrer apenas por amor
amor morto ou mortal mas amor imortal
cidade solidão as ruas muita gente os sons o sol
difusos e confusos corredores de uma faculdade
folhas que se renovam rostos que outros rostos
tão firmes tão presentes permanentes um só ano antes
friamente destroem sem deixar sequer
ao menos uma marca nessa fria impassível pedra
o tempo os sóis dos séculos cingindo os cintos da cidade
dessa cidade onde o povo morre novo à volta
do mesmo monumento destinado a exaltá-lo
cidade onde afinal a paisagem é pretexto para o homem
cidade portuguesa ó portugal ó parte da hispânia maior
maneira triste de se ser ibéria onde
da terra emerge o homem que depois o rosto nela imerge
o portugal dos pescadores de espinho
espinho do suicida laranjeira espinho praia
antiga amiga e conhecida de unamuno
a praia dos seus últimos passeios portugueses
angústia atlântica e odor ó dor olor a campo
praia que só existe quando alguém a veste
coisa que foi somente quando tu mulher a viste
Aqui em portugal aqui na vasta praia portuguesa
aqui nasci e ao nascer morri
como morri a morte que por sorte sempre tive
pesadamente do mais alto do meu peso dos meus anos
em cada um dos sítios onde um dia estive
Aqui tive dezasseis anos aos dezasseis anos
aqui só vejo pés há muitos anos já
Aqui o meu chapéu de chuva mais ao sul aceita em chapa o sol
chapéu que fecho quando fecha o sol definidor do dia
Tive um passado agora inacessível um passado
tão alto como a torre do relógio da aldeia
que pontual pontua a passagem do tempo
um tempo não ainda detergente um tempo
afinal só visível no sensível alastrar da sombra
ao longo desse pátio só possível ao adolescente
que mais tarde e mais só e de maneira mais sensível
mais só se sentirá no meio da imensa gente
que se sentia ali entre a andorinha e a nespereira
Não o sabia então mas dominava um mundo
esse mundo que espero que me espere um dia ao fundo
lá quando findo o dia sob o chão me afundo e ao final
em terra e em verdade é que me fundo
Mas eu aqui completamente envolto neste tempo detergente
é da segunda-feira e da semana que preciso pois
posso lutar melhor por uma luz melhor
do que esta luz do mar à hora do entardecer
É da cidade é da publicidade é da perversidade
que preciso e não tenho aqui na praia
Não tenho nem o mar nem tão rudimentar
a técnica de olhar alguém as minhas mãos
para me devassar a vã vida privada
É de inverno é domingo estou sozinho aqui na praia
regreso a casa à noite apanho eu próprio a roupa no quintal
e tenho a sensação de quem alguma coisa
faz pela primeira e sente bem ou mal
que tarde toma agora o seu banho lustral.
Ruy Belo, in "Homem de Palavra(s)", 1969

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